
Há cerca de três anos um grupo de crianças e adolescentes, com idades entre 6 e 15 anos, do bairro do Lobato, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, deixou de ver cenas de balé na televisão e na internet para viver isso na vida real. A transformação do imaginário para a realidade começou a acontecer quando o projeto social batizado de Dança Criança, que também atende em Pituaçu, chegou à comunidade local.
A iniciativa acontece no espaço do Reforço Escolar da Rainha, localizado na Avenida Afrânio Peixoto, onde as aulas são coordenadas por Marília Nascimento, diretora do projeto. “Hoje são 130 crianças nas duas unidades fornecendo, inclusive, uniforme, meia, sapatilha, colã, saia. Coisas que precisamos. Precisamos de ajuda porque não contamos nem com o Governo Estadual, nem com o Municipal. Trabalhamos nesse projeto com tudo da melhor qualidade. Acredito, verdadeiramente, que a gente não pode oferecer menos do que o melhor para as crianças de baixa renda, de vulnerabilidade social”, detalha a professora ao MASSA!.
“Então, o balé tem que ser uma coisa de excelência, que busque tirar elas do lugar e abrir uma janelinha para coisas melhores, para o melhor da vida, para uma vida mais tranquila, para uma vida mais próspera”, completa a idealizadora da ação social na capital baiana.
De passinho em passinho, seja na ponta dos pés ou dando saltos largos, o Dança Criança tem mostrado porque existe e resiste. Em dezembro de 2025, o grupo realizou espetáculo no Teatro Jorge Amado, oportunidade que reuniu familiares das alunas e da comunidade.
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“Não estamos aqui fazendo esse projeto apenas para ocupar o tempo das crianças para evitar que elas fiquem na rua. Não é só isso. Não é só sobre isso. Isso é consequência. A gente está aqui para ensinar balé de qualidade, igual a todas as escolas de balé da cidade. E elas [as alunas] ficam assim me olhando como se fosse surreal isso acontecer. Mas verdadeiramente é isso que a gente faz. Estamos colocando algumas delas para prestar o exame da ‘Royal Academy of Dance’, uma das maiores e mais influentes organizações de ensino de balé clássico do mundo, fundada em Londres. Neste caso, vem uma examinadora de fora para assistir só elas na sala, de duas em duas, de três em três. É tenso, mas é um apre ndizado para a vida toda”, lembra Marília.

Metodologia e inclusão total
O preconceito estrutural que, por muito tempo foi alimentado pela sociedade, de que para ser uma bailarina o principal requisito era ter um corpo esbelto, não se cria no projeto Dança Criança. “Eu desenvolvi uma metodologia que trabalha com seis pilares. São eles: afeto, criatividade, consciência, disciplina, expressividade e técnica. Essa metodologia dá suporte para a gente ter o melhor de cada uma porque eu acredito que todo mundo pode dançar, verdadeiramente, de coração. Não precisa ter um corpo X, Y, Z. Não precisa ter uma formação X, Y, Z. Se elas se dedicarem com afinco, com persistência, elas vão conseguir um bom resultado conhecendo o corpo e usando o corpo na sua capacidade máxima”, destaca a diretora do projeto.

Relações são bastante afetuosas
Para a condução das aulas no Lobato, Marília Nascimento conta com a bailarina Serenna Silva, 23 anos, que é moradora do bairro da Boca do Rio, e tem uma relação afetuosa com o Subúrbio de Salvador. “Então, é muito gratificante dividir o conhecimento com outro projeto social porque eu venho de uma realidade em que eu passei exatamente pelo que elas estão passando. Percebo que elas vêm muito animadas para as aulas, ainda sem saber, de fato, o que é balé, tendo, até então, apenas aquela ideia de magnitude. Porém, quando elas se deparam com a disciplina, que também trabalhamos aqui, elas começam a se acalmar e a modificar o corpo para introduzir o balé”, descreve a também professora.
Mãe de uma das alunas, de 7 anos, Rosângela Estrela exalta a iniciativa na vida da sua filha. “É um momento de entretenimento no horário contraturno escolar, só que vai além, pois ajuda na questão da concentração, consciência corporal, cuidado com o outro, disciplina, cidadania”, enaltece a beneficiada.
