
A Copa do Mundo é um evento esportivo que vai muito além das quatro linhas de um campo de futebol. Neste ano, serão 48 nações, cada uma com a sua cultura, história e tradições, se encontrando nos gramados dos Estados Unidos, México e Canadá, que recebem a competição, durante mais de um mês. E, neste sábado (13), logo na estreia, o Brasil enfrentará o Marrocos, seleção do norte da África, que, apesar da distância entre os países, tem suas similaridades com os sul-americanos.
Na culinária, por exemplo, os marroquinos são os criadores de uma comida base da alimentação baiana, nordestina e brasileira: o cuscuz. Com raízes nos povos berberes, nômades que vivem na região do Magrebe, o cuscuz marroquino, como é chamado hoje em dia, foi criado por volta do século VIII. Tempos depois, o alimento tradicional foi trazido ao Brasil pelos colonizadores de Portugal, país que expulsou os árabes em 1492, oito anos antes da chegada lusitana à América do Sul. Em terras tupiniquins, o tradicional alimento nordestino passou por mudanças em relação ao original.
“O cuscuz marroquino é tradicionalmente feito de sêmola de trigo e, atualmente, a versão mais encontrada no mercado já vem pré-cozida, bastando ser hidratada com água quente ou caldo de legumes. Já o nosso cuscuz nordestino é feito à base de milho e passa pelo cozimento a vapor, o que lhe confere textura e sabor característicos. É interessante observar como duas culturas tão distantes desenvolveram preparações que compartilham princípios semelhantes, mas que ganharam identidades próprias ao longo da história”, detalhou Zeina Chalhub, chefe de cozinha, especialista em culinária árabe e proprietária do restaurante Arabesque, em entrevista ao MASSA!.
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Outra ligação entre Brasil e Marrocos pode ser vista em Salvador. A cultura árabe, para além do cuscuz, foi muito fortificada com a chegada dos escravizados muçulmanos à capital baiana, e que depois também viriam a protagonizar a Revolta dos Malês - maior rebelião urbana de escravizados da história do Brasil, que ocorreu em território soteropolitano na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835. “Nossa identidade foi construída a partir do encontro entre diferentes povos que trouxeram suas tradições, sua religiosidade, sua música e também sua gastronomia. Vejo essa mistura como algo extremamente positivo, porque ela nos ensina a valorizar nossas origens e, ao mesmo tempo, respeitar e aprender com as tradições dos outros povos”, destacou a experiente profissional.

Portanto, quando entrarem em campo na estreia desta Copa, neste fim de semana, em Nova Jersey, em um território norte-americano, brasileiros e marroquinos, que estão separados por milhares de quilômetros de distância no mapa, poderão mostrar que têm muito mais em comum do que o delicioso cuscuz e suas misturas culturais.
*Sob a supervisão do editor Léo Santana
