
A espera foi longa, mas acabou. Depois de 36 anos, a torcida do Bahia finalmente vê o Tricolor de volta à Conmebol Libertadores. Muita gente está vivendo essa emoção pela primeira vez, mas três caras já sentiram esse gostinho lá dentro de campo: Ronaldo, João Marcelo e Zé Carlos, que vestiram a camisa do Esquadrão na última participação do clube no torneio, lá em 1989.
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Curiosamente, o último jogo do Bahia naquela Libertadores também foi contra o Internacional, lá no dia 26 de abril de 1989, pelas quartas de final. Agora, em 2025, o Tricolor reencontra o Colorado na estreia da fase de grupos, com a missão de escrever um novo capítulo nessa história.
O jogo em questão é marcado por polêmicas, já que muitas testemunhas afirmam que o gramado da Fonte Nova, coberto de água pelas fortes chuvas em Salvador, não reunia as condições necessárias para haver qualquer partida. O árbitro Arnaldo César Coelho, entretanto, decidiu não adiar o confronto e seguir com o duelo decisivo.
Ex-zagueiro do Tricolor e campeão brasileiro em 1988, o 'xerife' João Marcelo afirmou, em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, que o Bahia passaria de fase, chegaria até a final e seria campeão daquela Libertadores se o campo não estivesse "alagado" na partida contra o Internacional.
"Com certeza [avançaríamos de fase]. Se o campo não estivesse alagado, nós passaríamos do Internacional e seriamos campeões da Libertadores. Chegaríamos na final e faríamos ela na Fonte Nova, porque pela nossa campanha, sempre faríamos a segunda partida em casa", afirmou o ex-defensor.

"A gente que estava no campo via que não tinha condição nenhuma, mas quem manda é o árbitro, ele que tem esse poder de cancelar o jogo e colocar para outro dia, a Fonte Nova estava lotada, a Globo fazendo a transmissão, acho que também teve interferência da TV, o calendário estava muito apertado, o Bahia naquela época já vinha fazendo jogos a cada três dias, já que tinha o Campeonato Baiano, acho que isso foi um dos motivos para que o juiz continuasse o jogo, mas o gramado não tinha nenhuma condição", concluiu o ex-jogador sobre a polêmica.
Companheiro de João Marcelo, o ex-goleiro Ronaldo, também campeão brasileiro pelo Bahia em 1988, destacou, em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, o sentimento de frustração do time na época. O ex-jogador ainda mencionou as características da equipe na época, que costumava jogar em velocidade, contrariando as condições do gramado da Fonte Nova.
"O sentimento é de frustração, porque nós chegamos até as quartas e enfrentamos um adversários que nós tínhamos batido anteriormente, sabíamos todas as características do time deles, mas eles sabiam que o Bahia também tinha muito potencial. São Pedro não ajudou naquele dia, foi muita chuva, o campo parecia uma piscina e, pela nossa característica de velocidade, ficou por água a baixo, eu nem tive trabalho naquele jogo, porque eles não atacavam. Tivemos umas duas ou três chances, mesmo assim, uma situação precária", disse o ex-goleiro.

O futebol mudou muito desde a última vez que o Bahia havia disputado uma Libertadores, entretanto, para Ronaldo, o elenco atual do Tricolor ainda pode aprender com aquele time de 1989. O ex-jogador destacou o "destemor" da equipe que foi bi-campeã do Brasileiro, projetando que o clube pode "chegar longe na Libertadores" a depender da postura dentro de campo.
"O que o time atual pode aprender do Bahia naquela época era o destemor, o Bahia não pode ter medo de equipe nenhuma, já que tem jogadores experientes, que não vão temer um jogo dessa magnitude, uma competição tão importante em nosso continente, que o Bahia levou 36 anos para voltar e, agora que voltou, tem que jogar o futebol que pode produzir. Tem hoje um elenco mais compacto, equilibrado, o treinador tem mais opções para modificar o panorama de uma partida, como tínhamos naquela época também. [...] O Bahia tem elenco para chegar longe nessa Libertadores, basta não temer os adversários e ter, principalmente, muita atenção", afirmou.

Um dos destaques do time que bateu o Internacional na final da Copa União de 1988, o ex-meio-campista Zé Carlos também relembrou a polêmica em 1989 e projetou o confronto da fase de grupos, nesta temporada. Para o ex-jogador, é a chance do elenco atual "fazer história".
"Histórias de times vencedores fazem parte de uma continuidade do clube, os jogadores que tem aí, o nosso pensamento é que eles podem fazer a história deles, em continuidade do Bahia. Uma das coisas importantes, é que independente do campo naquela condição, a atitude nossa não faltou. Saímos em busca do resultado, não tivemos medo, criamos as melhores oportunidades, Osmar chutou uma bola que passou de Taffarel e parou em uma poça de água. Fizemos de tudo para vencer, mas não aconteceu pela condição do campo", analisou.

Para Zé Carlos, o apoio da torcida vai ser fundamental para o desempenho do Bahia na Libertadores. O ex-jogador comparou a equipe nas épocas, afirmando que io time na época não possuía o apoio constante dos dias de hoje, destacando a recepção realizada pelos torcedores no aeroporto antes da viagem para La Paz, na Bolívia, dias antes do confronto diante do The Strongest, pela 2ª fase preliminar da Libertadores.
"O torcedor vai estar lá, praticamente esgotou a venda dos ingressos para esta partida. A gente não conseguiu viver esse momento que eles vivem constantemente, a chegada deles no estádio, a ida para o aeroporto. Nós tivemos essa relação com o torcedor quando fomos campeões, que ai não conseguimos nem medir aquela quantidade de pessoas, mas eles tem esse incentivo, de fora do campo, a chegada deles no vestiário é impressionante, maior injeção do que aquela não pode existir. É um incentivo impressionante, é só colocar isso dentro de campo junto com a preparação, que eles já têm", concluiu.
O Bahia recebe o Internacional nesta quinta-feira (3), às 19h, na Arena Fonte Nova, pela 1ª rodada da fase de grupos da Libertadores.

Confira os outros trechos da entrevista exclusiva:
João Marcelo:
O sentimento de ver o Bahia de volta à Libertadores:
"Eu acho normal [ver o Bahia na Libertadores], quando você olha a história do clube vê que ele já disputou outras vezes, em 88 já tinha jogado duas ou três vezes, para mim que vim da base do Bahia e vi ele com grandes conquistas, já disputar a Libertadores, ser o primeiro campeão brasileiro, eu vejo com alegria, mas não é algo que o time nunca viveu, estou feliz mas não tenho a euforia por voltar à Libertadores, porque é coisa que eu já sabia que o clube tinha disputado. Se fosse a primeira vez, seria motivo da gente comemorar, fazer festa, porque é algo diferente e para nós, jogadores, fazer a primeira viajem internacional, foi motivo de muita alegria. É uma coisa normal para o Bahia jogar a Libertadores".
O que o elenco atual do Bahia pode aprender com a equipe de 1989?
"Eu acho que eles deveriam olhar para o calendário, que nós fizemos em 89 e ver que jogar a cada três dias é normal, e que o Bahia nasceu para vencer, para disputar competições, chegar em final, é aprender o poder de superação daquele grupo de 89, que veio do Campeonato Brasileiro, que foi feita a final em fevereiro, no mesmo mês já começamos a jogar Libertadores, dois dias depois de ganhar um título, ganhar do Internacional, por 2 a 1 de virada, não perder aqui na Fonte Nova, entender que, além do jogo, há uma rivalidade entre Inter e Bahia, eles perderam uma final dentro de casa. É uma partia que nós temos que manter a invencibilidade de não perder em casa na Libertadores".
Se pudesse falar com os jogadores do Bahia de hoje, o que falaria?
"Eu falaria para eles entenderem que esse clube é grande, bi-campeão brasileiro, que disputou Libertadores quatro vezes, e dar alegria para o torcedor. É entrar em campo, como se fosse o último jogo e trazer alegria para a torcida, falo porque sou torcedor desde pequeno e sei como é torcer nas arquibancadas e estar dentro de campo representando, talvez eles não consigam ter esse mesmo sentimento que eu, o que é normal. Temos que representar o Bahia como o próprio hino diz: "nasceu para vencer".
Ronaldo:
Sobre o jogo de volta das quartas de final da Libertadores de 1989
"Eu tinha costume de quando estava chovendo, subia antes do aquecimento para ver como estava o estado do campo, para poder ver qual o tipo de luva que eu iria usar, porque o goleiro tem essas prerrogativas de escolha. Quando eu subi, o Arnaldo Cesar Coelho, que era o árbitro, também subiu e o presidente Paulo Maracajá (do Bahia na época), também estava lá em cima. Eu ouvi o Arnaldo perguntar ao presidente se daria o jogo, e ele disse que desse o jogo. A realidade verdadeira dos fatos é essa, eu ainda disse para o presidente não dar o jogo, porque era tudo que eles queriam, o time deles era mais pesado, o nosso era muito rápido".
"Nós tínhamos certeza, já que tínhamos enfrentado o Inter várias vezes e sabíamos que tínhamos capacidade de vencer o jogo, principalmente pela vantagem de um gol. O nosso time se provou dentro de campo, inclusive na partida da Libertadores, no Beira-Rio, após o título, nós vencemos por 2 a 1, e jogando bem. Nós tinhamos certeza que podiamos passar. Briga pelo título seria muito relativo, mas o time era inteiro, era bastante eficaz, jogadores que não eram muito conhecidos, mas tinha muita determinação tática".
"Nosso time era muito forte, qualquer jogador que entrasse não tinha solução de continuidade, dava prosseguimento ao que o nosso treinador, que era um estrategista, o Evaristo de Macedo. Ele impunha para a gente nos treinamentos e nos jogos e faz com que ele se torne forte nessa competição, o Bahia tem elenco para chegar longe nessa Libertadores, basta não temer os adversários e ter, principalmente, muita atenção".
Se pudesse falar com os jogadores do Bahia de hoje, o que falaria?
"Eu falaria para eles (jogadores) que o Bahia tem tradição, que a camisa é pesada, que tem uma história linda no futebol brasileiro, é pioneiro nessa competição. A condição técnica de cada um todos já conhecem e a força do grupo, nesse momento, é que vai prevalecer em uma competição como essa. Não tem bola perdida, tem que ganhar a segunda bola sempre, o Bahia já tem essa característica de posse de bola, de jogo articulado, então a parte do coração é que vai prevalecer muito nessa competição. Não ter medo dos adversários, porque camisa não ganha jogo, o que ganha é futebol jogado, aplicado, determinado. A questão psicológica é o que vai prevalecer".
Zé Carlos:
Sobre o jogo de volta das quartas de final da Libertadores de 1989
"Nós jogamos várias jogos, entre 88 e 89, contra o Inter e nós sabíamos a forma de jogar deles, a atitude que nós tínhamos que tomar, e realmente, se o campo não tivesse naquela condição, com certeza passaríamos para a próxima fase. O nosso time era muito mais leve, jogava mais com a bola, corria, tinha um time de habilidade e muita força. O Inter tinha mais costume de jogar com o campo naquela condição, já que no Campeonato Gaúcho, os campos eram pesados, com muita água, muito frio, eles estavam acostumados".
"Se o Bahia passa pelo Inter, a gente ia para o título, já que eles passarem pelo Bahia e foi para o título. Pela forma como o time estava jogando, e tinha aquela formação do título brasileiro, o conjunto, com certeza nós seriamos campeões".