
Frequentemente tema de debate no mundo da política e em outras áreas do conhecimento, a inteligência artificial vai muito além de memes e imagens manipuladas na internet. A ferramenta tecnológica tem uma outra faceta, muito mais importante e funcional: quando bem utilizada, pode se tornar um negócio para quem desenvolve e um facilitador de processos para quem usa.
Imagine um cenário em que uma mãe solo que precisa se sacrificar financeiramente para bater as contas no fim do mês encontre algum amparo tecnológico para facilitar esse processo. Foi nesta realidade de sacrifício que surgiu o projeto "Yá", uma ferramenta que utiliza inteligência artificial para auxiliar chefes de família a calcular as despesas mensais.
Idealizada por três pesquisadores da periferia de Salvador, a ferramenta chegou até a aclamada Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostrando que enquanto o debate público muitas vezes fica preso à superfície das deepfakes ou da ética política, o mercado real está focado em como transformar essa tecnologia em infraestrutura e negócio.
O engenheiro eletricista Péricles Oliveira, 31, a analista de RH Adriele Ornellas, 23, e o analista de dados Luã Mota, 27, são os três pesquisadores soteropolitanos que desenvolveram a ferramenta; para isso, eles uniram a vivência periférica de quem vem de comunidades como a Vila Matos, no Rio Vermelho, do Bairro da Paz e de Paripe, respectivamente, e se dedicaram a ajudar mulheres que se desdobram para não deixar faltar o pão de cada dia na mesa da família.
A expressão 'Yá' vem do iorubá e significa 'mãe'. Além disso, ainda uma similaridade com a sigla de Inteligência Artificial (IA).
"É uma visão decolonial de entender o território de onde estamos. É colocar na ferramenta que desenvolvemos um pouquinho desse territorialismo. Além da similidaridade com a sigla IA, também tem o peso de significar mãe", explicou Péricles.
Empreendedorismo com foco social
Para além da busca pelo próprio lucro, Péricles, Adriele e Luã se juntaram com o intuito de buscar um "lucro social". Péricles, responsável por arquitetar a ferramenta de IA, compartilhou em entrevista ao MASSA! o interesse de proporcionar às mulheres noites de sono mais tranquilas, menos estresse e uma vida mais saudável.
Não é o lucro financeiro, é muito mais subjetivo. [...] Olhar o lucro social foi o maior diferencial no processo de empreender.
Péricles Oliveira
A ideia da Yá é oferecer um suporte para realizar cálculos, com foco nas mães solo. Sem precisar pegar o caderno para fazer contas, que se tornaria um quadro de rabisco, a IA soma as contas mais simples, como um açaí do final de semana, até as mais caras, como o supermercado do mês.
A proposta é manter as contas em dia, de maneira a evitar o susto no fim do mês, ao ver que as despesas superaram a renda mensal. A lógica é: a usuária da ferramenta informa todos os gastos do mês e consegue ter um controle maior das despesas. Isso gera um retorno financeiro, mas também psíquico.
"Sendo de base periférica, como somos, a vivência em escassez financeira é natural. A gente via isso não só dentro de casa, mas também com vizinhos, com amigos. Então procuraramos uma solução com Inteligência Artificial que tentasse amenizar ou aliviar essa pobreza que existe nas comunidades. Foi o que a gente olhou, foi o objetivo da gente", detalhou Péricles.

Operação na prática
Atualmente no Brasil, 11 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas; 90% das mulheres que se tornaram mães solo no recorte de 2012 a 2022 são negras, pretas ou pardas, segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Dentre todos os lares brasileiros, 15% são chefiados por essas figuras maternas, que em 72,4% dos casos vivem só com os filhos e não conta com uma rede de apoio próxima.
Usabilidade da ferramenta
Com o intuito de facilitar a vida dessas mulheres, os desenvolvedores pensaram na usabilidade da ferramenta. Por isso, as usuárias não irão precisar aprender a mexer em um novo aplicativo, porque a ferramenta foi pensada para ser operada pelo WhatsApp, aplicativo de mensagens mais utilizado no Brasil. Luã, responsável pela base de dados da Yá, contou que eles foram radicais na praticidade do uso.
Confira o passo a passo:
1️⃣ Realizar um pré-cadastro neste link;
2️⃣ a IA chamará a usuário no Whatsapp, como qualquer outro contato;
3️⃣ haverá um diálogo, por meio do Whatsapp, de detalhamento da realidade da mãe solo, apresentar o contexto financeiro e afins;
4️⃣ em qualquer lugar pode informar os gastos cotidianos, podendo ser por mensagem, texto ou imagem de uma nota fiscal.
5️⃣ a IA registra as despesas e faz as atualizações.
Os pesquisadores salientaram que a ferramenta deverá funcionará como uma amiga da usuária, tanto nos processos quanto na linguagem, preocupação da equipe desde o início do processo de idealização. Adriele, responsável por desenhar as necessidades das usuárias, conversou com mães solo em busca de entender as demandas delas.
"A gente montou para ser uma parceiro no Whatsapp, onde a mãe vai poder desabafar sem achar que está gastando muito ou que ela é displicente. Essa IA foi moldada para não ter julgamento e ser uma parceira", explicou Péricles.
Além dessas mães serem impactadas, o ambiente é impactado, principalmente as crianças. São, em média, dois filhos por mães solo, então são 22 milhões de razões
Péricles Oliveira

Retorno desejado
Quando questionados sobre o que buscam ter como retorno do empreendimento tecnológico, a resposta de Adriele foi direta e sonhadora: "Vidas transformadas. [...] O maior ganho vai ser saber que mudamos a vida de uma dessas mães. Saber que elas não tinham uma reserva de emergência e se hoje precisar, elas terão e não precisarão recorrer ao cheque especial", destacou a analisa de recursos humanos.

Péricles também tem o objetivo de escalar o projeto. Inicialmente, foi feito o piloto com 14 mães, que já relataram melhorias com a relação que têm com o dinheiro. Por fim, o engenheiro eletricista completou: "Além disso, ouvir que um filho não precisou deixar a escola para trabalhar, pois a mãe já está conseguindo gerenciar melhor o dinheiro".
Premiação internacional em Harvard
Ao avançarem com a produção da IA e verem os resultados por meio do piloto, os pesquisadores submeteram o projeto ao AI for Good, um programa de impacto social da Brazil Conference at Harvard & MIT, voltado a selecionar e acelerar projetos brasileiros de inteligência artificial com impacto social real. O programa idealizado pelos soteropolitanos competiu com outros 187 projetos.

Em meio a quase 200 projetos, Péricles, Luã e Adriele foram um dos três vencedores e puderam levar a beleza da periferia soteropolitana para o frio do inverno estadunidense, em Boston. Ao MASSA!, o paripense contou um pouco do sentimento de viver o 'sonho americano'.
Foi simplesmente inexplicável. É uma experiência única, algo que a gente normalmente não vislumbra.
Luã Mota

"Está um pouco fora do que a gente entende como alcançável. Mas quando você chega e acaba ressignificando tudo o que você viveu na sua trajetória, começa a dar outro significado e carrega aquela bagagem de tudo o que você viveu e apresenta lá, falando assim: 'A gente também consegue'", contou Luã.
*Sob a supervisão da editora Amanda Souza
