
Figurinos coloridos, um clima de alto astral e a sensação de que o impossível está prestes a acontecer diante de seus olhos. Os circos costumam ser retratados como esses locais onde adultos podem se tornar crianças novamente e os mais novos conseguem vislumbrar o fantástico. Entretanto, algo que parte do público não costuma lembrar, é que por trás da lona existem pessoas com um estilo de vida bem diferente.
Depois de 15 anos sem passar em Salvador, o Circo Portugal retornou à capital baiana e reacendeu o interesse do público baiano por esse universo. Instalada na Avenida Paralela, a atração reúne números como o Globo da Morte, Homem-Bala, shows de mágica, performances aéreas, malabarismo e muito mais. As apresentações acontecem de segunda à sexta-feira, às 20h, e aos sábados, domingos e feriados, às 15h, 17h30 e 20h.

Com mais de 120 anos de história, a instituição foi fundada na cidade de Braga, em Portugal, e preserva sua tradição há quatro gerações. Quando as luzes se apagam e o público retorna para casa, os palhaços, mágicos, trapezistas, bailarinas e outros artistas vão descansar em suas casas, localizadas não muito longe do palco principal. Na maioria dos casos, as estrelas do picadeiro passaram sua vida inteira entre um show e outro.
“Como eu nasci nesse meio, então para mim é muito normal. Eu já cresci dentro de casa com essa vivência circense, né? Meu pai também era malabarista, fazia palhaço, eu cresci fazendo shows em eventos com ele, acompanhando, vendo isso. Então, para mim sempre foi muito normal e é isso que eu sempre quis seguir”, explicou o malabarista Enrico Stevanovich.
Rotina de nômade
Enrico faz parte da sexta geração de uma família circense. Sendo ensinado desde novo a viver dessa forma, o jovem de 23 anos não se incomoda com o fato de ser um nômade. Viajando de cidade em cidade, ele aprendeu a deixar o corpo sempre em movimento.
“Quando eu não tô viajando, eu me sinto estranho. Por exemplo, quando eu vou visitar meus pais, minha família lá em São Paulo, eu não consigo passar mais de uma semana parado, eu fico querendo voltar para o circo, porque essa é a minha rotina, é mudar, é viajar, é fazer essas coisas que eu já estou acostumado”, garantiu.
Morar, trabalhar e ensaiar. Fazer tudo isso no mesmo lugar pode ser considerado um pesadelo por alguns, mas para o malabarista é um sonho. Ele argumenta que, por morar ao lado de seu ofício, ele não precisa se preocupar com logística. “Para mim é muito bom justamente por isso, porque eu moro onde trabalho. Então, por exemplo, eu acordo aqui, eu olho, já tô no circo, não preciso pegar um transporte. Então, como também tem os treinos, ensaios, fica bem mais fácil por já estar aqui, né?”, defendeu.

Motor home, trailers, carretas, ônibus e outras opções são usadas como moradias pelos artistas, todas estacionadas no mesmo terreno. Ainda que fujam da ideia convencional de casa, a maioria são equipadas com banheiro, cozinha, quarto e tudo o que é necessário em um lar aconchegante. “No circo, mesmo que a gente não queira ver a pessoa, a gente vê, porque mora todo mundo junto, os trailers são um do lado do outro, é tudo vizinho”, comentou Gabriela Portugal, responsável pelo número de bambolê.
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Nascida no circo, Gabriela é da sétima geração de artistas de sua família. A cada frase, a bailarina deixava claro seu amor pelo circo e tudo que ele representa. Apesar de ser completamente apaixonada por seu trabalho e cultura, a jovem reconhece que existem alguns aspectos que nem todo mundo gosta.
Por estar sempre na estrada, é difícil para a moça desenvolver relações de amizade e amor com quem não mora no circo. Ainda que as redes sociais tenham ajudado nesse sentido, existem algumas situações em que a incompatibilidade nos estilos de vida fala mais alto.

“Já namorei a distância, namorava uma pessoa da cidade. Foi um desafio tremendo para mim, porque eu era de circo, a pessoa de cidade, e eu tinha que conciliar isso. Aí ele vinha me visitar, mas eu não tinha tempo de visitar ele por conta dos espetáculos, então ele que acabava só ele vindo. Aí não deu certo, a distância me atrapalhou”, revelou.
Circo é família e sustento
Mesmo que seja um ambiente familiar, o picadeiro ainda é uma forma de ganhar o pão de cada dia. Diferente de empresas tradicionais, em que o pagamento é feito no fim do mês, quem vive da arte circense recebe seu salário todo domingo. “O circo estando lotado ou não, a gente recebe um valor fixo por aquilo, aí cada artista tem o seu valor, não são todos os salários iguais”, acrescentou Gabriela.
As expectativas são de que o Circo Portugal permaneça em Salvador por, pelo menos, dois meses. Depois que a temporada acaba, cerca de 80 funcionários arrumam suas coisas e colocam o pé na estrada mais uma vez. Ao longo de todos esses anos viajando, existem alguns destinos que carregam um simbolismo especial.

“Eu acho que minha primeira cidade foi Belo Horizonte, foi a primeira que marcou meu começo com o Circo Portugal. A partir daí, eu fui só evoluindo e aprendendo cada dia mais. Toda cidade deixa um carinho especial, tô escolhendo Belo Horizonte porque realmente foi meu início”, contou Diogo Araújo, gerente de marketing do Circo Portugal.
Fazendo parte da equipe há três anos, Diogo era fascinado por essa arte milenar desde a infância. Embora não suba no palco como seus colegas, ele defende que a experiência de trabalhar com o circo acabou transformando sua vida por completo.

“O grande legado que ficou para minha vida, que eu trouxe também para meus negócios, é essa parte muito familiar. O circo é uma empresa, mas tem essa unidade muito familiar, então a gente pode trazer isso para nossa vida também, porque o circo é uma família”, finalizou.

