Não é só uma árvore. É liberação de oxigênio, ventilação, purificação do ar, fornecimento de sombra e melhor qualidade de vida. Pode não parecer, mas o papel das árvores vai muito além do que se pode imaginar. Sabe aquela sensação extrema de calor que já há alguns anos tem afetado o país? Esse fenômeno, também conhecido como ilhas e ondas de calor, está relacionado diretamente às árvores — ou melhor, à falta delas.
Você já se perguntou por que alguns bairros de Salvador parecem mais quentes do que outros? O MASSA! vai apresentar explicações técnicas para esse questionamento e trazer esclarecimentos sobre como a ausência de árvores contribui para a formação das ilhas de calor e, consequentemente, afeta a saúde da população.
Embora ambas tenham relação com aumento da temperatura, especialistas diferenciam as ilhas das ondas de calor da seguinte forma: enquanto as ilhas são consideradas fenômenos urbanos contínuos que agravam os efeitos das temperaturas, as ondas são tidas como eventos climáticos de grande escala. Geralmente, devido à alta concentração de concreto e asfalto, as áreas urbanas são as mais afetadas pelas Ilhas de Calor. Isso significa que, quanto menos vegetação, mais calor. Quanto mais concreto, mais calor.
Para começar, quem apresenta mais detalhes acerca do assunto é o professor e coordenador da Superintendência de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sumai) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Antonio Lobo. “Nós estamos vivendo a fase das mudanças climáticas em nível global e, consequentemente, está fazendo com que a temperatura média do planeta aumente ano após ano, e isso acaba acontecendo aqui em Salvador também. A presença das árvores é muito importante, porque ela retém a umidade, fazendo com que o ar não fique tão seco. Quando ela retém a umidade, acaba trazendo mais conforto térmico para o ambiente.
As árvores protegem a cidade de ventos fortes, protegem a cidade de alagamentos, deslizamentos de terra, coisas dessa natureza que são comuns e que já provocaram muitos estragos, com muitas perdas de vidas humanas aqui na cidade”, disse.
Bairros periféricos tendem a ser mais quentes do que os bairros nobres
Não é impressão, é real. Os bairros periféricos tendem a ser mais quentes do que os bairros nobres, como confirmado e esclarecido por Antônio Lobo. “Em uma área bem arborizada, a temperatura pode ser até de 1 a 3 graus mais amena, mais fresca. Em locais onde não há a presença da arborização e que não tem bioma constituído, a tendência é que a temperatura seja de 1 a 3 graus mais alta, mais elevada, trazendo mais desconforto e mais riscos para a população que vive ali", explicou.
Ainda segundo, a grande questão dos bairros periféricos é porque a grande maioria deles, principalmente aqui em Salvador, não são arborizados.
Algumas áreas periféricas da cidade, como os bairros do Pero Vaz e da Palestina, estão entre as áreas menos arborizadas do Brasil.
Antônio Lobo, professor

“Dados do IBGE de 2022 colocaram Salvador como a segunda capital do Brasil menos arborizada. O IBGE mapeou uma série de bairros aqui em Salvador, principalmente os bairros periféricos com um número muito restrito de árvores. O instituto apresentou números, inclusive, que mostram que 1,5 milhões de pessoas aqui em Salvador convivem em áreas sem árvores e as áreas onde a gente menos têm árvores em Salvador são justamente nos bairros periféricos”, explicou Antonio Lobo.
Mas por que as periferias sofrem com isso?
Ainda de acordo com o especialista, são várias as razões que colocam as localidades populosas no topo dessa estatística. “Um dos fatores é o processo de ocupação desordenada dessas áreas. Não há um planejamento organizado e conduzido, seja pelo governo do estado, governo federal, seja pelas prefeituras", disse.
O outro fator, claro, é o mais alarmante: a desigualdade social. "A população acaba morando onde dá, onde pode. A maioria das pessoas não mora em áreas de risco e áreas perigosas, do ponto de vista da infraestrutura ambiental, porque elas querem. A grande maioria mora ali porque não pode morar em outro lugar. Então, essa falta de planejamento atrelada ao contexto de desigualdade e de déficit habitacional acaba gerando a ocupação desordenada de muitas áreas da cidade, principalmente nas áreas periféricas”, destacou Antônio.
Não é só sobre beleza
Não é paisagismo, é qualidade de vida! Além dos benefícios para o equilíbrio do planeta, prevenir a erosão do solo (desgaste da camada superior do solo), as árvores são fundamentais para a sobrevivência e o bem-estar dos seres humanos.
“Outro elemento importante sobre as árvores é que elas acabam captando os gases poluentes da atmosfera, principalmente o dióxido de carbono. Elas ajudam a retirar metais pesados da atmosfera, que são cancerígenos, inclusive, e liberam oxigênio puro, de excelente qualidade, que é vital para a nossa respiração, para a nossa sobrevivência e é vital para a nossa saúde. Isso porque, quando ela tira gases poluentes da atmosfera, ela acaba protegendo a nossa saúde, principalmente o nosso sistema cardiorrespiratório, em função dos metais pesados, em função dos gases poluentes que estão presentes na atmosfera”, completou Antônio.

Você também já teve aquela sensação de que chove, mas continua quente? A explicação é clara: a ausência das árvores também contribui para as mudanças climáticas (transformações de temperatura e clima). O assunto é tão sério que, após os anos de 2024 e 2025 registrarem temperaturas recordes consecutivas, as mudanças climáticas se consolidaram como um dos tópicos mais urgentes e recorrentes na agenda global e brasileira.
“A presença delas [árvores] ajuda a evitar a formação de ilhas de calor dentro da cidade, o que está se tornando cada vez mais comum em função das mudanças climáticas. Gera sombreamento, e a área sombreada aqui fica mais fresca, com a temperatura menor, mais agradável. Quando gera oxigênio puro, automaticamente também evita a formação de ilhas", explicou Antônio.
É fundamental a presença das árvores. Onde há arborização, o raio solar nem chega porque bate e volta, quebra o raio solar. Então, aquele calor que o raio solar traria não vem.
Antônio Lobo
Saúde em risco por falta de árvores
Ilhas e ondas de calor são fenômenos extremamente perigosos, principalmente para as crianças e para as pessoas mais idosas. É o grupo etário mais vulnerável a ter problemas graves e até mesmo vir a óbito devido a presença de calor extremo dentro da cidade a partir desses fenômenos.
Esses grupos têm o sistema imunológico mais baixo, um sistema biológico corporal mais suscetível, mais frágil para poder lidar com situações que envolvem calor extremo. Então, o público idoso, as pessoas com comorbidades e as crianças, elas acabam ficando mais vulneráveis a essa situação”, alertou o coordenador da Sumai.
Meteorologista reforça
O meteorologista Aldirio Almeida, chefe da Coordenação de Estudos de Clima e Projetos Especiais (COCEP) da Secretaria do Meio Ambiente (Sema) do Estado da Bahia, acrescentou as explicações sobre a relação entre Ilhas de Calor e árvores abordadas nesta matéria.
“Vamos imaginar assim: a gente pode falar sobre núcleos, núcleos menores, em uma região em que, no entorno, a temperatura dentro desse núcleo está mais elevada em relação às localidades mais próximas. Isso pode ser observado, muitas vezes, em grandes centros urbanos. Então, a ausência de árvores intensifica esse fenômeno de ilhas de calor", disse.
Ele destaca que as áreas com muito asfalto, concreto, poucas áreas verdes, absorvem e retém muito mais calor ao longo do dia. Isso eleva bastante a temperatura, e essa temperatura mais elevada é sentida, principalmente, no período da tarde e da noite. "Então, é normal que a gente veja em centros de grandes cidades, por exemplo, as temperaturas alcançarem valores bem maiores do que locais abertos mais arborizados durante a tarde”.
Além de oferecerem sombra, elas reduzem a temperatura por meio da evapotranspiração. Então, onde tem essa quantidade maior de árvores, vai acabar liberando mais umidade no ar, o que por si só também reflete na redução da temperatura.
Aldirio Almeida, meteorologista

Essa redução de calor através da evapotranspiração é bastante sensível e é possível ser observada. Na ilha de calor, pode-se chegar de 5 e 6 graus de diferença fora daquele local. A própria circulação de vento favorece uma sensação térmica mais baixa. "Locais que têm prédios muito altos acabam reduzindo essa circulação de vento e aumentando a sensação térmica e de abafamento”, completou Aldirio.
A reportagem do MASSA! também buscou a Secretaria Municipal de Sustentabilidade e Resiliência (Secis), que, por meio da assessoria de comunicação, agradeceu o contato, mas optou por não se posicionar sobre o assunto. “Informamos que a Secis não irá se manifestar nem participar da reportagem sobre o tema proposto. Agradecemos a compreensão e permanecemos à disposição para outros contatos”, disse através de nota.