
Um hábito ordinário que pode esconder histórias dignas de filme. O curta-metragem Buzu, O Curta levará para as telonas os personagens e memórias existentes em uma linha de ônibus do Subúrbio Ferroviário. A obra estará em cartaz nos dias 26 e 31 de março, às 13h30, no Cine Glauber Rocha, sendo parte da programação do XXI Panorama Coisa de Cinema.
Dirigido por Lindiwe Aguiar, o projeto surgiu a partir de um edital da SalCine, o polo audiovisual de Salvador. Lindiwe uniu o útil ao agradável, buscando retratar o cotidiano dos baianos a partir de suas próprias vivências.
“O edital pedia um filme que mostrasse Salvador, que falasse da cultura da cidade. Eu fiquei matutando sobre o que poderia fazer para mostrar as pessoas de Salvador e que tenha um resgate de uma memória afetiva. Ai eu me lembrei de buzu, porque eu andei minha vida toda de ônibus”, contou em entrevista ao MASSA!.

Nascida e criada no bairro da Liberdade, a cineasta “pegou buzu” durante toda sua vida. Para ela, o transporte público é uma forma de construir relações com pessoas que você nem conhece. "Sempre me chamou a atenção as figuras que estavam no ônibus, essas relações que às vezes se constroem quando a gente pega o mesmo ônibus, no mesmo horário, todos os dias. Buzu resgatar essa relação que a gente tem com o ônibus”, afirmou.
O curta-metragem é o primeiro trabalho ficcional da diretora, que construiu sua carreira com obras documentais. Apesar disso, a maioria dos personagens são baseados em familiares e conhecidos que a diretora teve contato ao longo de sua jornada.
“Meu avô trabalhava na Feira de São Joaquim e ele é um dos personagens de Buzu. Eu me inspiro em personagens que moravam no bairro da Liberdade. O bairro traz essa vivência das relações, tudo que a gente passa em nossas casas antes de pegar o ônibus e a vida dessas pessoas, trabalhadores, pessoas que vão para escola, pessoas que vão fazer seus afazeres”, disse Lindiwe, contendo a própria emoção.

Buzu, O Curta já faz sucesso antes mesmo de ser lançado. O projeto integra parte da programação do Panorama Coisa de Cinema, principal festival de cinema de Salvador. A conquista foi algo indescritível para a baiana. “Quando eu li, eu não acreditei. Quando eu percebi que Buzu estava no Panorama, eu vi ali a legitimação da minha história, da minha carreira, do meu trabalho, e entender que, mesmo no meu primeiro trabalho de ficção, eu consegui alcançar o principal festival do Norte e Nordeste”, analisou.
Apesar de ser baseado no olhar pessoal de Lindiwe, o principal destaque do filme é sua capacidade de conversar com qualquer um que utilize o transporte público em seu dia a dia. “Eu acho que o Buzu aperta um gatilho afetivo muito grande. Quem já andou de ônibus em algum momento da vida vai se identificar com o filme. Buzu promete tocar naquele pontinho afetivo do coletivo, da convivência coletiva das pessoas”
O cinema brasileiro após O Agente Secreto
A recente participação de O Agente Secreto na premiação do Oscar fortaleceu os holofotes para o cinema brasileiro e, em especial, para o audiovisual da Bahia. O baiano Wagner Moura se consagrou como o primeiro brasileiro a concorrer à categoria de Melhor Ator por sua performance no longa. Lindiwe destaca que o desempenho do longa e do ator vai fazer com que a produção cinematográfica no Brasil seja fomentada.
“Eu tenho certeza que agora a gente tem um alcance com nosso cinema que vai possibilitar que novas histórias sejam vistas e também alcancem espaços como O Agente Secreto alcançou”, garantiu.

Para a baiana, a principal vitória em ter um longa brasileiro concorrendo a premiações como o Oscar é o fortalecimento da autoestima de quem faz cinema. De repente, ter sua arte reconhecida não parece um sonho muito longe de se realizar. “Quando O Agente Secreto ganha, quando o Ainda Estou Aqui ganha, quando o cinema brasileiro começa a ganhar vários festivais e chega no Oscar, que a gente entende como a ‘linha de chegada’, a gente automaticamente infla a autoestima da categoria cineasta”, explicou.
Inspirada pela performance do conterrâneo, Lindiwe já sonha com a premiação. De acordo com ela, seu próximo projeto será lançado visando a participação em festivais estrangeiros. “Eu acho importantíssimo ter uma motivação para que a gente possa acordar todos os dias. Hoje minha motivação é estar na lista do Oscar. Meu próximo filme eu já estou escrevendo para isso, para representar [a Bahia] quem sabe em um festival”
