
Uma violência histórica que ganha ainda mais força no ambiente digital. Apesar de muitos se negarem a enxergar, o racismo continua sendo um crime recorrente na nossa realidade, sendo que nem mesmo as crianças estão a salvo dessa barbaridade. No início deste ano, o campeão do BBB 24, Davi Brito, repudiou alguns comentários racistas que foram feitos contra a sua irmã, de apenas 9 anos de idade.
Na época, Davi trouxe a situação à tona com muita indignação. O baiano ressaltou como aquela experiência era prejudicial para a vivência infantil. “Vocês atacaram uma criança de 9 anos. Racismo e xenofobia não são opinião. São violência. São crueldade. São o reflexo de um país que ainda se incomoda em ver pessoas pretas ocupando espaços, sendo felizes, sendo família", comentou o ex-brother.
Impactos psicológicos na infância
Esse tipo de ataque pode ter consequências graves para o desenvolvimento de uma pessoa, principalmente quando é sofrido no período da infância. Em entrevista ao MASSA!, a psicóloga psicanalista Vitailma Santos destacou as sequelas que o racismo pode desencadear na consolidação da autoestima.
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“Existe um impacto maior na infância, principalmente porque a criança não tem condições discursivas de reagir aos ataques. Aquilo que vem coordenado numa violência pode levar a criança ao isolamento, que pode ser cristalizado e a criança crescer isolada, sem senso de pertencimento com outros grupos. Existe também a possibilidade dessa criança desenvolver quadros de ansiedade e depressão muito precocemente”, afirmou.
Para precaver quadros psicológicos graves, é necessário demonstrar apoio de imediato à vítima. A médica pontua que essas ações devem ser feitas em coletivo e não por apenas um indivíduo. “Um aspecto muito importante é não se isolar. Não deixar silenciado esse sentimento, essa vivência, compartilhar ela com alguma coletividade que possa acolhê-la, que possa inclusive acompanhar esse processo de reparação, de cuidado da saúde mental”, explicou.
Influenciadores e representatividade
Assim como Davi, outros blogueiros também desenvolvem um papel importante para a reparação dessas violências. É essencial para a criança conhecer vivências e referências que se assemelham com as dela. “O papel dos influenciadores é tanto esse de mostrar várias possibilidades de existência de grupos minoritários, possibilitar identificação, mas também de participar desse letramento digital”, completou Vitailma.
Quando se trabalha com o ambiente digital, ser vítima de racismo se torna um risco ainda maior. Para quem é criador de conteúdo, é preciso criar uma armadura para lidar com os comentários maldosos. “Já sofri ataques bem violentos, ofensivos, mas eu tento não internalizar. Eu faço as denúncias que precisam ser feitas e tento seguir, porque uma das funções do racismo é te paralisar”, explicou a influenciadora Lidiane Oliveira.
Conhecida na web como Lia Afrontosa, a baiana coleciona mais de 30 mil seguidores em seu Instagram. Em suas postagens, Lidiane tem um conteúdo voltado para o bem-estar, reflexões pessoais e frases de empoderamento. A negritude e suas vivências enquanto mulher preta acabam permeando a maioria de seus posts.

“Eu trago sempre as reflexões de empoderamento, gosto sempre de retratar a representatividade, trazer exemplos positivos, pessoas negras que fujam dessa questão da dor, prosperando, sendo felizes, namorando, não só focar na narrativa da dor, porque eu acho que a gente precisa sair desse lugar”, enfatizou.
Racismo online e responsabilização
O racismo só pode ser combatido quando ele é reconhecido como problema. Infelizmente, o tema é uma espécie de “tabu” para uma parte do público. “Em 2024, eu falei sobre o algoritmo ser racista e sofri uma enxurrada de ataques racistas. As pessoas não querem se ver racistas e não querem falar. É um assunto que ainda é muito difícil de ser trabalhado, as pessoas não querem falar, principalmente as não negras”, relembrou Lidiane.
Apesar de ainda ser recorrente, o preconceito na web está lentamente sendo combatido. Em 2023, a SaferNet Brasil, uma organização não governamental focada na promoção de direitos humanos e segurança na internet, recebeu 2234 denúncias únicas (descartando as repetidas) de racismo online. Em 2024, houve uma queda de 9%, com o número chegando a 2032 denúncias. De acordo com dados da Policia Civil da Bahia, houve uma queda de 50% nas ocorrências de discriminação online registradas no estado entre os anos de 2024 e 2025.
As informações comprovam que, diferente do que alguns possam acreditar, a internet não é uma terra sem lei. “Aqui no Brasil e em muitos países da Europa existem leis mais rígidas em relação a isso. Não é terra sem lei, a gente tem muitos dispositivos, do código penal, civil, no Estatuto da Criança e do Adolescente [para combater isso]. A internet tem lei e precisa ser obedecida”, garantiu a advogada especialista em direito digital e crime cibernético, Tamiride Monteiro.
O que fazer em caso de racismo virtual
Racistas não tem ética e nem lógica na hora de escolherem suas vítimas. Apesar disso, a advogada acredita que existem algumas medidas que podem minimizar os riscos de ser alvo desse tipo de crime. “Ninguém está 100% imune de nada, mas existem algumas práticas que a gente pode adotar. Por exemplo, podemos manter fechada a privacidade dos perfis sociais, limitar as fotos, limitar publicações em tempo real, não alimentar discussões nos perfis”, contou.
Tanto o racismo (preconceito destinado a um grupo determinado), quanto a injuria racial (discriminação contra uma pessoa especifica), são considerados crimes inafiançáveis e possuem pena de dois à cinco anos de reclusão. Para quem for vítima dessa violência, Tamiride lista ações que devem ser tomadas de forma imediata.
“Não responda, não entre em discussão, porque a pior coisa para um hater é ser ignorado. Segundo, de forma imediata, procure um advogado especialista caso você não saiba fazer a coleta de provas de forma digital, em cadeia de custódia. Após isso, registre um boletim de ocorrência e entre com uma ação judicial para chegar na autoria real”, contou.
