
Quem frequenta ou já esteve na Praça da Piedade, localizada no Centro de Salvador, talvez não conheça a fundo a história do espaço, porém, deve saber e já ter notado que o local une, principalmente, três importantes pilares: o comércio, o lazer e a religião.
De um lado, muitos estabelecimentos comerciais, do outro, uma das mais tradicionais igrejas católicas da cidade, a sede da Polícia Civil da Bahia e, no centro, diversas pessoas sentadas e transitando pela praça. Enquanto uns jogam dominó e baralho, outros batem papo, tomam cerveja, lancham, fazem caminhada, compras e, em muitos casos, vão ao local sem compromisso marcado, apenas passar parte da manhã ou da tarde, característica típica do público idoso. Entretanto, outra realidade chama atenção no espaço: a presença de pessoas em situação de vulnerabilidade social e de usuários de drogas. A quantidade é perceptível e gritante, podendo ser ainda maior a depender do horário.
Leia Também:
Para a produção dessa matéria, a reportagem esteve no local e notou alguns equipamentos do espaço público danificados, muitos deles com marcas de vandalismo. Em relato a nossa equipe, um morador da região, que preferiu não se identificar, revelou que, para ele, o espaço está em estado de abandono. "É uma situação triste. A praça no centro da cidade e totalmente abandonada pelos poderes públicos, pela prefeitura, que é de responsabilidade da prefeitura. Vejo muitas brigas, venda de drogas e usuários. As pessoas têm medo de passar nessa praça por ser deserta. Eu sou do tempo em que as pessoas ficavam namorando, conversando. Elas traziam crianças para brincar e, hoje, a realidade é de uma praça totalmente abandonada”, disse.
Ele disse que, apesar dessa realidade, com a instalação das câmeras de reconhecimento facial da Secretaria da Segurança Pública (SSP), os assaltos reduziram. "Reconheço que há uns seis meses, depois que instalaram câmeras aqui, os roubos começaram a diminuir. Mas mesmo assim as pessoas ainda têm medo de ficar no ponto de ônibus. A partir de 18h é só deserto. Sem falar nos sacizeiros, usuários que destroem os bancos,os gradis", disse.

Segundo o professor de história, psicólogo e escritor Adson Brito do Velho, a Praça da Piedade já sediou muitos acontecimentos históricos. “Ali, infelizmente, entrou para a história como um espaço de execução de pessoas que se revoltavam contra a coroa, especialmente execuções de heróis negros que lutaram contra a escravidão, contra o sistema opressor", iniciou.
"Durante muitos anos era um local onde a elite fazia os seus passeios, fazia os seus encontros, se divertia. Já nos anos 80, ela começou a entrar em um abandono, em um declínio. Ela perdeu todo aquele gla mour, todo aquele brilho que se tinha. Hoje, a praça é ocupada por pessoas que vivem em situação de rua, e, também, um ponto de encontro de muitos idosos. Muitos idosos passam a tarde ali, olhando o movimento, conversando entre eles. Muitas pessoas chamam a Praça da Piedade, Praça dos Idosos, Praça dos Aposentados”, explicou.

O MASSA! conversou com o titular da Secretaria de Manutenção (Seman) da Prefeitura de Salvador, Lázaro Jezler, e, segundo o gestor, a Seman e outros órgãos do município já estão com ações planejadas para serem executadas nos próximos dias no local.
“Nós fizemos uma vistoria na semana passada com vários homens da prefeitura, justamente com o objetivo de analisar uma situação real na praça. E ficou muito claro que, por ser histórico, o espaço merece ser conservado da forma que está. Pensamos em requalificar, mas de fato, após a análise, foi verificado que tem um contexto hist órico, pelo tipo de material que tem lá. O ideal é que permaneça dessa forma e que só seja feita uma conservação, que é basicamente consertar o que estiver quebrado, reparar o que tiver que ser feito. Então, a gente verificou que boa parte são pedras de granitas quebradas, infelizmente, em decorrência do mau uso, do vandalismo”, disse.
Outra medida que será tomada por parte do poder público, ainda de acordo com o secretário da Seman, é o fechamento do local no turno da noite. “Sabemos que a praça, hoje, é muito ocupada por pessoas em situação de ruas e usuários de drogas. Então, a partir desse diagnóstico, a Prefeitura iniciou suas ações. Primeiro, é tratar essas pessoas que moram na praça, por meio de uma grande ação que já está programada. Depois, faremos a poda das árvores, retirando vegetação não adequada. A Guarda Municipal vai instalar câmeras na praça e a Semop vai voltar a fazer o fechamento dela no turno da noite. A praça fica aberta, ma s voltará a ficar fechada”.
Falta de conhecimento influencia no vandalismo do espaço
Para o professor de história, os casos de vandalismo também estão associados à falta de conhecimento sobre a importância que esse espaço público. "A história da Praça da Piedade é desconhecida para a maioria dos soteropolitanos, a maioria dos baianos. Infelizmente, a história de Salvador e da Bahia não faz parte da grade curricular do ensino. O estudante vai para a escola, estuda a história da Europa, a história de vários países de vários continentes, mas ele não estuda a história da própria cidade, ele desconhece. Se ele desconhece, ele não tem conhecimento. Se ele não tem conhecimento, ele não tem pertencimento. Se ele não tem pertencimento, ele não vai ter respeito. Então, depredar para ele é simples, é normal, porque ele não tem essa consciência histórica”, opinou Adson.
Atuação da Polícia Militar no local
Em entrevista ao MASSA!, a comandante do 18ª Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Cláudia Mara, primeira mulher contou que a atuação da PM na Praça da Piedade é mais social do que repressiva. "Aqui, especificamente, a gente precisa ter esse cuidado e um olhar humanizado, de não só garantir a segurança, mas também de proteção a esse público. O idoso, por exemplo, gosta de passear nessa praça, ele gosta de ir à igreja. É uma área que tem estudantes, comércios, mas temos uma base comunitária que fica funcionando 24 horas e outra no Relógio de São Pedro. Temos pol iciamento a pé motorizado, diuturnamente. Então, é uma área bastante policiada. Nós temos todas algumas operações para assegurar que as pessoas tenham tranquilidade em permanecer e aqui transitar", disse.

Quando questionada sobre as ocorrências mais frequentes no local, a oficial detalhou. "As ocorrências mais corriqueiras são briga entre pessoas em situações de vulnerabilidade, pessoas em situação de rua. Então, normalmente, encontramos essas intercorrências aqui. É um trabalho mais humanitário do que repressivo. O nosso trabalho, aqui, não é só preservação da ordem pública, mas também de prevenção ao crime, a questão da mediação de conflitos e acolhimento. Então, é um trabalho humanitário que é feito pela Polícia Militar nesse espaç o público, tradicional e que tem o seu valor histórico, religioso e cultural, é religioso", completou.
