
Que todo baiano gosta de um bom PF (prato feito), não é novidade. Sentir o cheiro de comida caseira já é suficiente para fazer a barriga roncar. A dúvida é: onde o trabalhador pode encontrar um prato bom e barato para almoçar? O MASSA! foi às ruas para descobrir algumas opções espalhadas pela capital baiana.
Com o custo de vida cada vez mais alto, encontrar um almoço completo e acessível tem se tornado um desafio para muitos trabalhadores em Salvador. Nesse cenário, os tradicionais PFs continuam sendo uma das principais alternativas para quem precisa almoçar fora de casa sem gastar muito. Em diferentes bairros da cidade, pequenos restaurantes e vendedores de quentinhas oferecem refeições com preços que variam entre R$ 10 e R$ 20, apostando na comida caseira, bem servida e preparada diariamente.
Lasanha no Imbuí
Já pensou em comer um prato de lasanha por apenas R$ 10? No bairro do Imbuí, a proprietária do Ox Tô de Rango, Isa Paula Oliveira, de 33 anos, faz disso uma realidade. No porta-malas do carro, ela vende quentinhas completas a partir de R$ 10, com arroz, feijão, macarrão, salada e proteína. Entre os pratos mais procurados estão lasanha, panqueca, sarapatel e yakisoba. Algumas receitas se tornaram carros-chefe do cardápio, como o xinxim de bofe, servido às quintas-feiras.
Isa encontrou na venda de quentinhas uma forma de mudar de vida. Ela começou no ramo há mais de dez anos, após deixar o emprego em um shopping para trabalhar por conta própria. A oportunidade surgiu quando um familiar, que trabalhava em uma obra, sugeriu que ela fornecesse almoço para os operários. “Comecei cozinhando na cozinha de casa, junto com minha mãe. Com a rescisão do trabalho, comprei panelas, comprei tudo e comecei”, conta.

Mesmo enfrentando dificuldades, ela diz que nunca deixou de acreditar no negócio. “Já pensei em desistir várias vezes, porque é muito cansativo e nem todo dia a gente vende tudo. Mas eu amo o que faço. Eu oro, peço a Deus e, no outro dia, volto de novo”, afirma. Segundo Isa, o segredo para manter os preços baixos sem perder a qualidade está em preparar os próprios ingredientes. “Eu procuro fazer tudo. Se eu terceirizar, fica mais caro. Então preparo a massa, faço os pratos e pesquiso bem os produtos para conseguir manter um preço que seja bom para mim e para o cliente”, explica.
A maior parte da clientela é formada por trabalhadores da construção civil, motoristas de aplicativo e funcionários de empresas da região. O Ox Tô de Rango também trabalha com delivery pelo WhatsApp (71) 99981-0484 e pode ser encontrado na Rua das Gaivotas, em frente à Sorveteria da Ribeira, no Imbuí.
Almoço no Centro de Salvador
Para quem prefere sentar e almoçar com calma, o Centro de Salvador também guarda exemplos de resistência do PF popular. Em uma rua discreta entre o Cine Glauber Rocha e o Hotel Fasano, funciona o restaurante de Cosme Cruz dos Santos, de 61 anos. Ele mantém o negócio há décadas na região da Barroquinha e da Rua Chile, áreas tradicionais do comércio da capital. Cosme começou a trabalhar com alimentação ainda na década de 1990, quando percebeu que havia pouca oferta de comida pronta na região.
“Na época, eu vendia almoço por cerca de dois reais. O pessoal do comércio, ambulantes e trabalhadores vinham comer aqui”, relembra. Com o passar dos anos, o movimento mudou, mas o restaurante continua sendo referência para quem procura comida simples e saborosa. Atualmente, os pratos custam entre R$ 20 e R$ 40, dependendo da opção escolhida. No cardápio, aparecem pratos tradicionais da culinária baiana, como peixe e moqueca, além de opções mais simples do dia a dia, como fígado, frango frito e lombo suíno. Às sextas-feiras, a clássica comida baiana é o destaque.
Para Cosme, o segredo do negócio vai além do preço. “O importante é fazer com amor e pensar no próximo. Eu procuro tratar bem o cliente e oferecer o melhor que eu puder. O dinheiro vem como consequência”, afirma.

Oh Pirão, no Cabula
Já em outro ponto da cidade, o cheiro da quiabada levou nossa equipe até o bairro do Cabula para conhecer o casal Jamile Borges e Cleyson Carvalho, proprietários do restaurante Oh Pirão, que vem ganhando destaque nas redes sociais. Ambos têm 34 anos e decidiram apostar nos pratos feitos depois de iniciarem no ramo da gastronomia vendendo bolo de pote. Antes disso, os dois tinham outros empregos, mas resolveram investir no próprio negócio e abrir mão da rotina formal.
“A gente percebeu que o poder de compra do consumidor diminuiu e pensamos em oferecer algo com custo-benefício, mas mantendo a qualidade”, explica Jamile. O restaurante oferece pratos a partir de R$ 15,90, como o arrumadinho, que leva calabresa, bacon, frango, carne do sol, feijão-fradinho, arroz e salada. Segundo ela, a prioridade é garantir comida fresca todos os dias. “Nada aqui fica congelado. A gente sai de madrugada para comprar os ingredientes e prepara tudo no dia. É comida caseira mesmo”, afirma.

Além das opções do cotidiano, o restaurante também trabalha com pratos especiais ao longo da semana, como cozido, rabada, comida baiana e feijoada aos domingos. Em poucos meses vendendo quentinhas, o movimento cresceu rapidamente, com clientes que chegam tanto presencialmente quanto por delivery. O Oh Pirão fica localizado na Rua Almiro Mário de Almeida, 34, no Cabula.

Para muitos trabalhadores da capital baiana, esses estabelecimentos representam mais do que uma refeição barata; eles funcionam como pontos de encontro e acolhimento no meio da rotina intensa de trabalho. A comida com sabor de casa, o atendimento próximo e os preços acessíveis ajudam a fidelizar os clientes e mostram que, mesmo em tempos de inflação, ainda é possível encontrar um PF de qualidade em Salvador.
*Sob a supervisão do editor Anderson Orrico
