Uma varanda, terraço ou cobertura de prédio pode virar, inesperadamente, ponto de parada para um urubu. A cena pode parecer incomum e gerar estranhamento, principalmente quando as aves permanece por horas no mesmo lugar ou começa a frequentar o espaço com regularidade.
A explicação para essas ações pode estar no próprio comportamento do animal. Durante boa parte do ano, os urubus circulam em grupos, mas os casais se afastam do bando no período de reprodução e passam a procurar locais mais reservados para se estabelecer.
Na natureza, paredões e escarpas oferecem áreas mais isoladas para a procriação, mas no ambiente urbano, estruturas altas e pouco movimentadas podem acabar servindo como alternativa. É nesse cenário que as varandas das residenciais, principalmente as que ficam no alto, podem ser selecionadas pelos bichos para a construção de um ninho, segundo o biólogo Paulo Lara.
“Urubus são aves sociais. Eles vivem em bando e se reúnem no final do dia em um mesmo local. Que chamamos de dormitório. Pode ser uma árvore ou um local isolado. Mas quando formam casais para reprodução eles se afastam do bando. Procuram na natureza escarpas. [...] Mas, se um urubu procurou sua varanda deve ser um casal procurando lugar para fazer seu ninho.”, conta em entrevista ao MASSA!.

Além da procura por abrigo, a presença dos urubus nas cidades também está relacionada à disponibilidade de comida. As aves pertencem ao grupo dos animais necrófagos, que se alimentam de matéria orgânica em decomposição, e podem percorrer diferentes áreas em busca de carcaças.
Essa busca por alimento faz parte do comportamento das diferentes espécies encontradas no país. No Brasil, existem cinco espécies nativas: urubu-de-cabeça-preta, urubu-de-cabeça-vermelha, urubu-de-cabeça-amarela, urubu-da-mata e urubu-rei. Entre elas, o cabeça-preta é o mais comum em áreas urbanas.
A advogada de direito ambiental e mestra em Ecologia Aplicada à Gestão Ambiental, Manuella Swierczynski, explica que a alimentação dessas aves exerce uma função sanitária nos ecossistemas. De acordo com ela, os urubus ajudam a retirar matéria orgânica do ambiente e, com isso, desempenham funções que passam pelo controle de resíduos e de agentes que podem causar doenças.

Esse trabalho ocorre de diferentes formas e envolve desde a retirada de animais mortos até a devolução de nutrientes ao meio ambiente:
➡️ Retirada de carcaças: ao se alimentar de animais mortos, o urubu remove rapidamente esse material do ambiente, evitando que ele permaneça exposto durante o processo de decomposição;
➡️ Controle de vetores: a presença de restos de animais pode atrair moscas, baratas e ratos. Ao consumir as carcaças, as aves diminuem essa fonte de alimento;
➡️ Ação sobre microrganismos: o sistema digestivo dos urubus apresenta elevada acidez, o que permite processar materiais que podem conter diferentes agentes presentes em organismos em decomposição;
➡️ Reciclagem de nutrientes: os elementos presentes nas carcaças são incorporados ao ciclo natural após serem processados pelas aves, contribuindo para a circulação de nutrientes no ambiente.
O que pode acontecer ao capturar ou machucar um urubu?
A fauna silvestre brasileira é protegida pela legislação ambiental. Por isso, uma pessoa não pode simplesmente capturar, ferir ou matar uma ave desse grupo porque ela apareceu dentro de uma propriedade.
De acordo com a advogada ambiental, a Lei nº 9.605/1998 estabelece diferentes tipos de responsabilização para condutas praticadas contra animais silvestres. O enquadramento depende do que ocorreu e das circunstâncias do caso.
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Segundo Manuella, a legislação prevê pena de detenção para determinadas condutas. Na prática, porém, o procedimento pode envolver medidas alternativas quando se trata de infrações de menor potencial ofensivo e o responsável atende aos requisitos legais.
“Na teoria há previsão de pena privativa de liberdade (detenção). Na prática criminal, por serem infrações de menor potencial ofensivo, costuma haver a aplicação de medidas alternativas (como transação penal, prestação de serviços à comunidade ou pagamento de cestas básicas) para réus primários. Contudo, em casos de prisão em flagrante, reincidência ou recusa em firmar acordo judicial, o indivíduo pode responder ao processo sob custódia ou cumprir pena restritiva de liberdade.”

As possíveis consequências variam conforme o ato praticado. A captura de animais silvestres está prevista no artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais. Já situações de maus-tratos, ferimentos ou mutilações podem ser analisadas à luz do artigo 32. Veja como abaixo pode ser aplicada cada situação:
➡️ Capturar ou apanhar: o artigo 29 prevê detenção de seis meses a um ano, além de multa.
➡️ Machucar ou mutilar: o artigo 32 estabelece detenção de três meses a um ano e multa.
➡️ Matar: a conduta pode ser enquadrada no artigo 29 ou no artigo 32, § 2º, conforme as circunstâncias, com previsão de detenção e multa.
Também é necessário atenção quando houver sinais de que o espaço está sendo utilizado para reprodução. Nesses casos, retirar ovos, filhotes ou estruturas utilizadas como ninho sem orientação especializada pode provocar danos ao animal e gerar consequências legais.
O que fazer se a ave aparecer na varanda?
A primeira orientação é evitar o contato físico. Um urubu que entra em uma varanda pode procurar uma rota de saída sozinho, especialmente quando não apresenta ferimentos e possui espaço suficiente para levantar voo.
A tentativa de expulsão deve ser feita sem cercar o animal. Portas que levam da varanda para os cômodos podem ser fechadas, enquanto as passagens para o lado externo permanecem abertas.

Também é possível estimular a saída sem tocar na ave. Barulhos moderados feitos a distância podem fazê-la se afastar, assim como jatos leves de água direcionados ao chão próximo ao animal.
O procedimento deve ser interrompido se o urubu ficar agitado. O biólogo Paulo Lara alerta que o contato direto pode resultar em ferimentos e recomenda que o animal não seja segurado pelas mãos.
“Eles podem bicar ou te arranhar com as garras. Como são muito infectados não seriam feridas fáceis de se cuidar.O melhor é não tentar pegar com a mão.”, diz.
Redes podem evitar o acesso
Em imóveis onde a presença das aves ocorre com frequência, há medidas que podem dificultar novos pousos. Exemplo disto são as redes de proteção e telas instaladas de maneira adequada que podem impedir a entrada desses animais de grande porte em varandas.
A instalação, porém, precisa ser planejada para não criar outro risco. Uma tela mal posicionada pode prender a própria ave ou dificultar sua saída.
Quando é necessário chamar uma equipe?
A situação exige atendimento especializado quando o urubu está ferido, preso, não consegue voar ou permanece em um ponto que ofereça risco para as pessoas. Nesses casos, tentar fazer o resgate sozinho pode agravar o problema.
“Se o urubu estiver impossibilitado de voar, ferido ou preso, o morador não deve tentar o resgate por conta própria, pois o manuseio incorreto traz risco de zoonoses e de lesões ao animal e às pessoas. Se não estiver ferido, o morador deve manter distância e acionar os órgãos de resgate competentes.”, descreve Manuella.
Em Salvador, o atendimento pode envolver diferentes instituições, conforme o local e a gravidade da ocorrência:
➡️ Coppa/Polícia Ambiental: a Companhia de Polícia de Proteção Ambiental atua em ocorrências envolvendo fauna silvestre. Em situações de emergência, contato para a unidade é (71) 3116-915;
➡️ Corpo de Bombeiros: o serviço pode ser acionado quando o animal está preso em estruturas de difícil acesso ou existe risco de queda e perigo para os moradores. O número de emergência é 193;
➡️ Guarda Civil Municipal: o Grupo de Proteção Ambiental (GPA) atua com resgate e manejo de fauna silvestre em áreas urbanas. Os contatos informados são (71) 3202-5323 e 156, pela Central de Atendimento da Prefeitura;
➡️ Ibama/Cetas: os Centros de Triagem de Animais Silvestres recebem animais encaminhados pelas equipes responsáveis pelo resgate e oferecem atendimento e reabilitação. O contato informado é (71) 3172-1650.
Enquanto aguarda o atendimento, a orientação é manter a ave isolada do restante da residência. Crianças e animais domésticos devem ficar afastados, enquanto as portas que dão acesso aos cômodos permanecem fechadas.
Também não é recomendado oferecer comida, administrar medicamentos, cobrir o animal ou tentar colocá-lo em uma caixa. O manejo deve ser realizado por profissionais capazes de avaliar as condições da ave e decidir qual será o encaminhamento.
A aparição de um urubu em uma varanda pode estar ligada a um simples pouso, à procura por alimento ou à busca de um ponto para reprodução. A forma de agir depende das condições encontradas, mas evitar o contato direto é uma das principais medidas para preservar a segurança dos moradores e do próprio animal.
