
Ativistas levaram um jegue inflável, de três metros, para o Largo do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador, a fim de chamar a atenção de todos que passam pelo local. A mobilização leva cultura popular e denúncia para exigir o fim do abate de jumentos no Brasil.
A campanha fica no Pelourinho até esta terça-feira (5), com um repentista que ocupa o espaço com versos afiados, traduzindo em rima e improviso aquilo que os números já evidenciam: os jumentos estão desaparecendo. A tradição oral nordestina se torna ferramenta de mobilização política impossível de ignorar.

Além de todos estes alertas, também são oferecidos brindes de conscientização e materiais informativos para circularem entre o público, ampliando o alcance da mensagem e deixando uma pergunta no ar: "Como chegamos até aqui?".
Denúncia
Uma das dirigentes do protesto, Patricia Tatemoto, PhD em Ciências com ênfase em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP, denunciou a situação complicada quanto ao comércio internacional de pele de jumentos para abastecer a demanda da medicina tradicional chinesa.
"O que a gente vem pedindo é que os tomadores de decisão ouçam os cientistas e proíbam o abate de jumentos no Brasil. Os três abatedouros com Serviço de Inspeção Federal, e que portanto podem exportar essas peles, estão na Bahia. Um dos principais abatedouros está na cidade de Amargosa e isso tem levado à extinção do jumento nordestino, que não é só um patrimônio histórico e cultural, mas também um recurso genético", disse a pesquisadora em entrevista ao MASSA!.
O repentista Dei Repente, ativista e artista da cultura local, contou sobre a tradição de sua família em trabalhar com animais e salientou a importância do jumento.
"O jumento já foi cantado por Luiz Gonzaga: 'O jumento é nosso irmão'. O jumento sempre foi o apoio para as famílias sertanejas. E, agora, com essa situação que está ocorrendo, esse assassinato desse patrimônio cultural da nossa identidade, eu, junto com o meu grupo, viemos aqui fazer essa campanha e alertar a nossa comunidade. Nós não podemos permitir que a nossa identidade cultural seja tratada dessa maneira, sendo abatido de forma covarde", destacou o artista.

Situação lamentável
Entre 1996 e 2024, o Brasil perdeu cerca de 94% de sua população de jumentos. Hoje, restam apenas seis para cada 100 animais que existiam nos anos 1990. O principal fator é o abate para exportação de peles à China, utilizadas na produção do ejiao — substância feita a partir do colágeno extraído das carcaças, difundida na medicina tradicional chinesa, mas sem eficácia comprovada.
Recentemente, a Justiça Federal suspendeu temporariamente o abate, mas especialistas e organizações, como a The Donkey Sanctuary e a Frente Nacional em Defesa dos Jumentos alertam: sem uma lei federal, não há garantia de proteção permanente. Por isso, a mobilização também pressiona pela aprovação do Projeto de Lei 2387/2022, que busca proibir definitivamente a prática no país.
A ação segue para a Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), entre quarta (6) e quinta-feira (7), onde o debate será realizado por pesquisadores nacionais e internacionais durante o IV Workshop Internacional Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável.
