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Incômodo - 19/05/2026, 19:14 - Vinicius Portugal, Luan Julião, Leonardo Almeida, Andrêzza Moura e Anderson Ramos

Kiss & Fly: cancelas da discórdia geram onda de reclamações no aeroporto

Sistema implantado no Aeroporto de Salvador acumula críticas de motoristas, taxistas e passageiros

Preços são considerados abusivos até por parlamentares
Preços são considerados abusivos até por parlamentares |  Foto: José Simões/Ag. A Tarde

O que era para ser uma solução de mobilidade virou motivo de dor de cabeça, reclamações e até ameaça de paralisação no Aeroporto Internacional de Salvador. Pouco mais de um mês após a implantação do sistema Kiss & Fly, motoristas de aplicativo, taxistas, passageiros e representantes de pessoas com deficiência seguem criticando o modelo adotado pela concessionária Vinci Airports, responsável pelo terminal da capital baiana.

As principais queixas envolvem o tempo limitado de permanência gratuita; o risco de cobrança, considerado abusivo; e os impactos diretos na rotina de quem depende do aeroporto para trabalhar ou viajar. Enquanto a concessionária defende a medida como uma forma de organizar o tráfego interno e aumentar a fluidez na área de embarque e desembarque, trabalhadores afirmam que o sistema tem provocado um efeito contrário: afastando motoristas da região e dificultando o acesso da população ao terminal.

Motoristas já evitam o aeroporto

A tensão aumentou nas últimas semanas após relatos de profissionais que já evitam aceitar corridas para o aeroporto por medo de prejuízo financeiro. Segundo apuração do grupo A TARDE, muitos motoristas afirmam que o modelo praticamente obriga a categoria a “pagar para trabalhar”.

“Não tem como. Vai acabar que os motoristas vão cada vez mais evitar trabalhar nessa região. É bem provável que isso aconteça, com certeza, porque para mim não tem condições”, afirmou um dos profissionais ouvidos pela reportagem.

Outro motorista relatou que prefere deixar de atuar no terminal para evitar o desgaste provocado pelo controle de tempo. “É melhor você sair e fazer suas corridas pela rua e ir emendando uma pela outra, e não ficar nesse desespero de estar com o tempo limitado para poder entrar, sair ou aguardar aqui no bolsão, como eles estão querendo exigir da gente”.

A preocupação dos trabalhadores é que a redução de veículos disponíveis acabe afetando diretamente os passageiros, principalmente em horários de pico, quando a procura por corridas costuma ser maior.

“Vai ter uma diminuição drástica dos motoristas que vão rodar aqui na região, porque não tem condição de você ficar 40 minutos perdido e depois sair daqui para poder fazer outras viagens, rodar pela região aqui de São Cristóvão, Lauro de Freitas, para depois voltar novamente. Não compensa”, relatou outro motorista.

Tempo de 10 minutos é principal alvo das críticas

O principal alvo das reclamações é o limite de 10 minutos gratuitos para embarque e desembarque. Após este período, o motorista pode ser direcionado para o pagamento de uma tarifa adicional, que pode chegar a R$ 18.

Além disso, quem precisar permanecer mais tempo no local tem que recorrer ao estacionamento do terminal, que atualmente cobra R$ 30 pela primeira hora, além de R$ 15 por cada hora ou fração adicional.

“O estacionamento é caro demais. Não tem condição de pagar 30 reais a hora, é pagar para trabalhar”, disse um motorista.

Preços assustam motoristas e passageiros
Preços assustam motoristas e passageiros | Foto: José Simões/Ag. A Tarde

Outro problema apontado é a possibilidade de congestionamentos próximos às cancelas, o que poderia fazer o motorista ultrapassar o tempo sem ter culpa direta pela demora.

“Horário de pico será um caos na saída, igual no shopping, onde o carro da frente pode ter problema e não conseguir sair a tempo. Deveria ter uma tolerância maior, pelo menos 20 minutos, porque 10 minutos é pouco.”

Passageiros perdidos e dificuldades no embarque

Os relatos também revelam dificuldades estruturais dentro do aeroporto. Segundo os profissionais, muitos passageiros têm dificuldade para localizar os pontos de embarque, especialmente idosos, turistas e pessoas com deficiência.

“Absurdo, né? Situação absurda. Às vezes a gente vai trazer uma pessoa cadeirante, traz o pessoal idoso, com dificuldade de locomoção. Às vezes até mesmo o pessoal que vem de fora não sabe onde é, não está tão bem sinalizado o local de embarque de aplicativo. As pessoas têm que ficar procurando.”

“A gente tem que estar trocando mensagem com a pessoa, dizendo onde a gente está, para poder a pessoa chegar até a gente. E leva mais do que o tempo que eles determinaram para a gente.”

Para os motoristas, o sistema ignora a dinâmica real do aeroporto, onde passageiros frequentemente demoram para retirar bagagens ou atravessar o terminal até o local correto de embarque.

Pessoas com deficiência denunciam prejuízos

As críticas também partem da Associação Baiana de Deficientes Físicos (Abadef). Em entrevista ao grupo A TARDE, a presidente da entidade, Silvanete Figueiredo, afirmou que o sistema desconsidera completamente a realidade de passageiros com mobilidade reduzida.

“Imagine sair de um carro, pegar a cadeira de rodas, montar a cadeira de rodas... só aí já deu mais de 15 minutos. A pessoa com deficiência depende de mais tempo para fazer essa locomoção. É muito importante que a população também entenda que essas questões não atingem só a pessoa com deficiência mas também o idoso. Tudo isso é porque o capitalismo só pensa no dinheiro, no recurso”, declarou.

Sistema causa confusão no Aeroporto de Salvador
Sistema causa confusão no Aeroporto de Salvador | Foto: José Simões/Ag. A Tarde

O presidente da Câmara Municipal de Salvador, vereador Carlos Muniz (PSDB), também criticou o modelo.

“Se você for deixar um cadeirante no aeroporto, daqui que você tire a cadeira de roda, que você coloque aquele cadeirante no local para embarque, vai ser muito mais do que 10 minutos, então é algo que tem que ser estudado.”

Taxistas falam em “expulsão” da categoria

Os taxistas também afirmam que o sistema criou uma espécie de barreira financeira dentro do aeroporto. Segundo Denis Paim, presidente da Associação Geral dos Taxistas (AGT), a categoria enfrenta exigências consideradas inviáveis para continuar operando normalmente no terminal.

“Agora eles estão querendo obrigar que os taxistas façam parte desse processo que exige R$ 100 mil de caução (de cada cooperativa) e mais R$ 30 mil por mês. A categoria não tem condição de pagar isso”, afirmou ao grupo A TARDE.

O dirigente ainda acusou a concessionária de transformar o acesso ao aeroporto em um modelo restritivo. “Tivemos uma reunião no início do ano passado com o administrador da Vinci, onde eles relataram para a gente que iriam cobrar e só iriam ficar no aeroporto quem pagasse. Quem não pagasse, não teria esse acesso.”

Segundo os taxistas, o impacto da medida não ficará apenas entre os trabalhadores. “Eles precisam entender que esse modelo que estão implantando no aeroporto vai prejudicar a população. O passageiro precisa de comodidade”, disse Denis Paim.

O presidente da AGT também alertou para possíveis transtornos operacionais no terminal. “Ali pode virar um colapso, dependendo dos horários. O passageiro vai sair com pressa, vai esquecer pertences, vai correr pelo aeroporto para não perder o voo ou para não ter que pagar taxas extras”.

Associação de motoristas de aplicativo critica bolsão

A Associação dos Motoristas e Motociclistas de Aplicativo da Bahia (AMABA) também criticou o novo bolsão de apoio criado pelo aeroporto para aplicativos, táxis e vans.

Segundo o presidente da entidade, Douglas Carvalho, o número de vagas destinadas aos motoristas de aplicativo é insuficiente. “Quinze vagas para a 99 é muito pouco. E as 100 vagas da Uber também ainda é muito pouco. O aumento dessas vagas seria importante”, afirmou ao grupo A TARDE.

Ele também questionou o tempo máximo de permanência gratuita no local. “A gente entende que uma hora e meia é muito pouco. Se ultrapassar esse tempo, o motorista precisa pagar.”

Ministério Público investiga sistema

Além das reclamações dos trabalhadores, o sistema também entrou na mira do Ministério Público da Bahia (MP-BA), que instaurou um inquérito civil para investigar supostas irregularidades relacionadas à implantação do Kiss & Fly.

A Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador) também aguarda estudos de impacto no trânsito que teriam sido solicitados à Vinci Airports.

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O superintendente do órgão, Diego Brito, confirmou que a concessionária ainda não teria apresentado retorno formal sobre os documentos solicitados. “Elaboramos um despacho para saber se a área era de terreno da União ou do Município. Como não tivemos nenhum retorno, reforçamos nosso parecer para a Procuradoria Geral do Município”, afirmou.

Bruno Reis joga responsabilidade para a ANAC

O prefeito de Salvador, Bruno Reis, buscou afastar a Prefeitura da polêmica e afirmou que a gestão municipal não tem competência para intervir diretamente no caso, por se tratar de uma área federal.

“Quem tem que regulamentar isso é a ANAC. Se é devido ou não, se é possível ou não implantar qualquer tipo de organização interna”, declarou.

Vereadores ampliam pressão contra o Kiss & Fly

A polêmica envolvendo o sistema Kiss & Fly também ganhou força na Câmara Municipal de Salvador. Vereadores de diferentes partidos criticaram, ao grupo A Tarde, o modelo implantado no Aeroporto Internacional de Salvador e defenderam a necessidade de barrar a cobrança nas áreas de embarque e desembarque.

O vereador Sílvio Humberto afirmou que a medida prioriza arrecadação e ignora os impactos para a população. “Esse intuito de arrecadar e as argumentações, sendo que as pessoas que fazem uso do transporte ficam ali aguardando, eu acho que não é justificativa para você cobrar da forma que está sendo proposto.”

O parlamentar ainda criticou o que classificou como “busca incansável pelo lucro”. “Nem tudo é arrecadar, minha gente. Nem tudo é dinheiro. Tem um limite essa coisa com relação a essa busca incansável pelo lucro. Eu acho que mais taxas, mais um preço, você cobrar mais, eu acho que não é correto.”

Sistema vem causando revolta por conta de preços abusivos e risco de caos no aeroporto
Sistema vem causando revolta por conta de preços abusivos e risco de caos no aeroporto | Foto: Raphael Muller/Ag. A Tarde

Já o vereador Marcelo Guimarães Neto declarou apoio ao projeto apresentado pelo presidente da Câmara, Carlos Muniz (PSDB), que tenta impedir a cobrança no aeroporto. “Eu sou a favor do projeto do presidente Carlos Muniz, uma vez que nós, a população soteropolitana, já é cobrada demais com impostos, com outras cobranças.”

O edil ainda afirmou que a Câmara precisa atuar diante da repercussão negativa do tema. “Eu acho que a Câmara tem esse papel sim de fiscalizar e de legislar naquilo que é importante para a cidade de Salvador.”

O vereador Randerson Leal também subiu o tom contra o sistema e classificou a situação como “absurda”. “É inadmissível a Câmara Municipal, a prefeitura autorizar a construção de uma cancela para que o povo, que a população possa adentrar a área de embarque ou desembarque para receber alguém ou deixar alguém.”

Segundo Randerson, a Câmara deve dar uma resposta à população através da votação do projeto. “Espero que a Câmara dê essa resposta que o povo precisa aprovando esse projeto de lei para que a gente possa coibir qualquer tipo de pagamento para que o cidadão comum possa adentrar a área de embarque ou desembarque no aeroporto.”

Outro vereador que comentou a polêmica foi Kiki Bispo. Para ele, o tema precisa ser debatido com mais profundidade antes de qualquer decisão definitiva. “Talvez a melhor medida não seja a cobrança nas cancelas da entrada do aeroporto.”

A vereadora Marta Rodrigues afirmou ser contrária ao modelo e classificou a medida como uma “privatização do meio-fio” do aeroporto. “As pessoas que chegam no aeroporto para levar um ente querido ou para buscar têm que pagar este valor absurdo. O aeroporto de Salvador não é um shopping, é um aeroporto.”

A parlamentar também criticou o tempo reduzido para embarque e desembarque. “As pessoas têm nos procurado, têm trazido também essa manifestação de não ter como pagar um valor desse. Quando chega aquele tempo curto que fica ali para pagar esse valor exorbitante.”

Afinal, o que é o Kiss & Fly?

O sistema implantado no Aeroporto Internacional de Salvador funciona através de cancelas instaladas nas áreas de embarque e desembarque. Ao entrar no local, o motorista recebe um ticket e passa a ter até 10 minutos gratuitos para deixar ou buscar passageiros.

Após esse prazo, o sistema poderá cobrar uma tarifa extra. A operação também utiliza tecnologia de leitura de placas para monitorar o tempo de permanência dos veículos.

Segundo o CEO da Vinci Airports no Brasil, Julio Ribas, o objetivo do projeto é aumentar a rotatividade de carros e melhorar o fluxo interno do aeroporto. “A gente fez os estudos, definiu o tempo de 10 minutos, mas, vamos monitorar e medir na prática. Com a leitura de placas, conseguimos saber quanto tempo cada veículo permanece", afirmou ao grupo A TARDE.

O executivo também admitiu que o prazo poderá sofrer ajustes futuramente. “Por exemplo: se 85% dos veículos ficam até 10 minutos, 5% ficam meia hora ou mais - esses nem entram na conta - e cerca de 10% ficam entre 10 e 12 minutos. O que a gente pode fazer? Ajustar. Talvez ampliar para 15 minutos.”

Aeroporto nega foco arrecadatório

A concessionária nega que o sistema tenha finalidade arrecadatória e afirma que o objetivo principal é organizar o espaço e garantir mais segurança.

“Quem critica o projeto está focando nos que desrespeitam, mas não está pensando no direito das pessoas de terem uma área segura para parar, desembarcar e seguir viagem. Os 10 minutos iniciais são suficientes, mas haverá monitoramento e ajustes conforme a realidade”, declarou Ribas.

Em nota enviada ao grupo A TARDE, o Salvador Bahia Airport afirmou que o embarque e desembarque seguem permitidos para qualquer veículo dentro das regras do projeto e reforçou que o bolsão de apoio contará com infraestrutura adequada para motoristas.

A concessionária também afirmou que mantém diálogo com cooperativas e operadores de transporte, além de defender que os critérios comerciais adotados seguem práticas de mercado.

Mesmo assim, a resistência ao sistema continua crescendo. Entre motoristas, taxistas e passageiros, o sentimento é de que o Kiss & Fly, que nasceu com a promessa de organizar o aeroporto, acabou criando um novo problema para quem depende diariamente do terminal de Salvador.

Os motoristas entrevistados não quiseram se identificar por medo de represálias.

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