
Em meio às vielas do bairro do Arenoso, em Salvador, os zumbidos das abelhas chamam a atenção. É uma área de mata, então é natural encontrar animais, certo? Talvez... mas esse barulho leva a outro lugar, por sinal nada convencional para uma periferia: o quintal de Adilton Cerqueira, um criador de abelhas autodidata que mora no local.
Adilton é um jovem de 26 anos, pai de três filhos, que encontrou na criação de abelhas sem ferrão uma fonte de renda e uma chance de mudar sua história e a de sua família, desafiando o destino traçado por muitos que julgam impossível prosperar em ambientes desfavoráveis.
Adilton não veio de uma família abastada. Desde pequeno, foi moldado pelo trabalho e pelo desejo de independência, o que o motivou a abandonar os estudos para trabalhar, aos 15 anos. Começou lavando carros, foi jardineiro, montador de móveis, e há um ano teve um “estalo” sobre a criação de abelhas e decidiu se aventurar.

“Não comecei pensando em trabalho, eu queria aprender. Mas quando você aprende, fica fácil”, contou. “O certo seria começar com cursos, com pessoas instruídas, mas eu não tinha condições, então comecei da pior forma, quebrando a cara. Comprei abelhas que não deram certo, fiz manejo de forma errada, coisas que me fizeram perder os enxames”, disse.
A fonte de conhecimento foi a internet; vídeos e mais vídeos diretamente da tela do celular. No começo, pode ter dado errado, mas ele persistiu e hoje captura abelhas, compra, vende e troca enxames. A produção de mel ainda não é uma realidade, mas ele acredita que em breve vai conseguir avançar para essa fase.
“Não tive condições de pagar cursos, mas estudei como deu. Hoje, tenho 19 enxames [...] até o ano passado, precisava fazer bicos para ter renda. Desde janeiro, eu me dedico só às abelhas”, conta.
Rotina com as abelhas
Adilton explica que a criação dá “pouco trabalho”. Elas exigem alimentação e observação, e só. A parte mais complexa, talvez, seja a captura: ele monta as chamadas iscas PET em locais onde elas costumam ficar, como no Parque de Pituaçu. A criação que Adilton faz é das abelhas do tipo mandaguari-amarela (Scaptotrigona xanthotrica), uma abelha sem ferrão e nativa do Brasil. Depois de capturadas, elas ficam em caixas de madeira e saem de vez em quando, voando livremente pelo quintal.

É interessante perceber como as abelhas já fazem parte da rotina da casa, de maneira que as crianças interagem com elas sem medo. O mesmo fenômeno se repete com os vizinhos, que não se incomodam com a presença dos quase 20 enxames. Ele conta que uma vizinha até tem medo, mas nunca criou problemas.
Mudar a realidade da família
Adilton conta que foi difícil para a família entender o negócio como algo rentável. “Diziam que era coisa de maluco, até porque abelhas são consideradas um artigo de luxo, de pessoas bem-sucedidas que têm isso como um hobby. É difícil ver pessoas das classes mais baixas nesse universo,” diz.
Contrariando as estatísticas, Adilton se mantém neste mercado, estudando e aperfeiçoando o que já aprendeu, na tentativa de transformar a realidade em que vive hoje. “Tive a curiosidade e fui me encaminhando para essa direção. Me vejo prosperando e expandindo o máximo para viver disso e poder mudar a minha vida e a da minha família.”

