Quem cresceu jogando games 2D com mecânicas de puzzle e plataforma pode reviver um pouco da infância em uma aventura ambientada no subterrâneo da cidade de Salvador. Desenvolvido e lançado em agosto pelo estúdio soteropolitano Team Zeroth, formado por um trio de amigos, o jogo Plungeez nasceu de uma conversa em uma lanchonete e levou um característico desentupidor para além das fronteiras da Bahia.
O utensílio, inclusive, é peça-chave da encanadora Bôni, protagonista do game. Mas, antes dos tubos, quebra-cabeças, cachoeiras e cenários inspirados na capital baiana, o trio Tarcísio Vaz, Nanni (apelidado durante a reportagem de ‘Menino da Cachoeira’) e Felipe Sousa (Totoro ou Fandangos), tiveram a missão de transformar uma ideia surgida em maio de 2023 em um jogo de verdade.

O MASSA! foi atrás dessa história para entender como o trio deu vida ao projeto e construiu um game que mergulha em detalhes de Salvador, indo muito além dos cartões-postais da cidade. Em meio a uma equipe enxuta, pouca verba e diversas limitações, o projeto começou a ganhar forma.
“O jogo foi calcado muito em limitações, intencionais e também de cada um. De experiência, de conhecimento, de tempo. Então, a gente queria um jogo que fosse de plataforma, porque estava com vontade de explorar algo assim, tradicional dos jogos. Depois, a decisão seguinte foi: qual seria o utensílio? A primeira decisão que a gente tomou foi em relação à temática do jogo, que foi o desentupidor. Nessa mesma reunião a gente definiu essa sequência de decisões”, contou Nanni.

Dominar o espaço, conectar diferentes partes e transportar o fogo com segurança enquanto atravessa um ambiente inundado no labirinto subterrâneo: a temática principal do jogo estava formada. Mas, para tirar a ideia do papel e botar a ‘mão na massa’, os jovens ainda precisavam de um edital; eles passaram e, com a verba em mãos, começaram a colocar a ideia do jogo em prática.

Reconhecimento nacional
Com uma pequena base preparada, o trio desenvolveu as primeiras fases e levou o Plungeez para diferentes eventos de jogos pelo Brasil. Foi assim que a encanadora Bôni e os outros elementos da cultura baiana começaram a encantar jogadores de diversos locais, como Maranhão, Rio Grande do Norte, São Paulo entre outros.
Todo mundo gostava. As pessoas que paravam para jogar não queriam sair.
Tarcísio Vaz
“Nos eventos tinham jogos maiores, famosos, e queriam ficar no nosso estande. Os pais ficavam bestas com isso”, relembrou Tarcísio, empolgado com as dezenas de pessoas fazendo fila para testar o game.
Por que Salvador como temática?
O sucesso foi evidente, mas tinha um detalhe que fazia o game se destacar: a inspiração em elementos de Salvador. Para os desenvolvedores a escolha foi natural. A ideia era levar para o jogo nomes de bairros, gírias e outros detalhes do cotidiano soteropolitano, indo além dos estereótipos mais conhecidos.
Quem pode representar Salvador é quem está aqui, porque ninguém mais vai escolher representá-la.
Felipe Sousa
“A gente não representa o local [fisicamente], mas os locais estão representados pelos diálogos, pela maneira como os personagens interagem. E isso não está representado de maneira rasa, porque a gente fala sabendo como é a distância dos lugares, como as pessoas se comportam nesses lugares, como elas falam e pensam. Então, mesmo que a gente não represente figurativamente, não é uma representação rasa”, destacou Felipe.

Tarcísio conta que as referências despertam a curiosidade de quem joga de fora da capital baiana. Expressões como "qual é de mermã?", "massa" e "oxe", acompanhadas da trilha sonora, geram engajamento entre jogadores de fora do estado e até de outros países, que se interessam em decifrar o vocabulário e a cultura local.
“Os instrumentos de percussão utilizados são gravações daqui de Salvador também. A percussão é toda baiana; boa parte dos instrumentos de percussão foi gravada pelo André Magalhães, que é um produtor bem famoso daqui de Salvador. E aí muitos desses instrumentos foram a base, mas misturados com essa coisa do chiptune, que é por conta da estética, né, o 8-bit do jogo”, declarou Tarcísio.
Materiais coletáveis e referências de Salvador
Durante a gameplay, Bôni se depara com materiais coletáveis essenciais para a resolução dos puzzles. Para os nativos de Salvador, os elementos são facilmente identificáveis, mas quem é de fora pode ficar na dúvida ao encontrar um cordão de capoeira, uma fita cassete (ou CD do Verão Samba), uma pintura do Pelourinho, uma ficha da Tela Bahia e um berimbau.
A gente queria de alguma forma evitar só trazer elementos clichês, gerais, como colocar uma baiana no jogo. Queremos coisas mais minuciosas.
Tarcísio
Os itens estão espalhados pelas mais de cinco fases do game, divididas entre regiões da Cidade Alta e da Cidade Baixa da capital baiana, como Taboão, Mato Escuro, Mares, Bonfim, Cajazeiras e Brotas. À medida que o jogador vai avançando pelos canos e resolve os enigmas com desentupidores e outras ferramentas, novas áreas são desbloqueadas, como o Pelourinho, a Ribeira e o Bonfim.
Um detalhe curioso é que cada região traz elementos relacionados ao próprio nome dos bairros de Salvador. Por exemplo, a área de Mares conta com trechos alagados, enquanto Mata Escura apresenta um cenário com lama. Já Barris é repleto de barris espalhados pelo cenário e o Bonfim aparece como fase final do jogo.

"Tem toda essa questão temática de como a gente encaixa a decisão de quais bairros vão fazer parte de cada área. A gente queria que tivessem outras áreas e que a gente pudesse explorar outras dinâmicas e outras mecânicas, mas não coube", explicou Tarcísio.
Gírias baianas levadas ao mundo
Para muito além do português brasileiro, as gírias baianas inseridas no jogo ultrapassam as fronteiras do Brasil e chegam a outros lugares do mundo, conectando à Bahia ao público internacional. Entre as opções de idioma, o trio de desenvolvedores decidiu traduzir as frases para o inglês, espanhol e o chinês.
Com a ajuda de um do Google Tradutor e de duas profissionais, chamadas Lígia Ogawa e Peggy Yu, as expressões foram adaptadas para manter o máximo possível de sua originalidade, mas também fazer sentido no linguajar internacional, como o chamado ‘Black English’.

Confira algumas:
Português: "Oxe, partiu!"
Inglês: "You don't have to say it twice!"
Espanhol: "¡Oiga, vamos allá!"
Português: "Putz, preciso tomar um banho de pipoca. Câmbio."
Inglês: "Dang...I have to toss some salt over my shoulder. Over."
Espanhol: "Uy, necesito tomar un baño de agua bendita. Cambio."
Português: "Já entrei pelo cano."
Inglês: "I'm already in the pits."
Espanhol: "Tuve mala suerte."
Português: "É niuma. Câmbio, desligo."
Inglês: "Ok. Out."
Espanhol: "Bueno. Cambio y fuera."
Português: "Já peguei a visão. Câmbio final."
Inglês: "Got it. Out."
Espanhol: "Ya pegué el vistazo. Cambio y fuera."
Português: "Dois pulos e você tá aqui. Talvez mais pulos."
Inglês: "In a heartbeart. Maybe two."
Espanhol: "En un par de saltos estás aquí. O quizás unos saltos más."
Português: "Olhe, se oriente. Volte logo não, fique aí."
Inglês: "Turn off the funny button. And come back. Out."
Espanhol: "Mira, orientate. No, no vuelvas pronto, quédate ahí. Cambio y fuera."
Desafios de desenvolver um jogo em Salvador
Mesmo com o lançamento do game para as plataformas e consoles mais conhecidas no mundo digital, como Nintendo Switch, PC (via Steam), PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One e Xbox Series X|S, os idealizadores do Plungeez apontaram dificuldades em encontrar incentivo para novos projetos em Salvador.
A gente quer ser mais uma engrenagem nessa máquina para tentar fazer a coisa acontecer do lado de cá. Acho que a maior dificuldade é sempre financiamento.
Tarcisio
“O financiamento público ajuda muito nesse sentido, no de oportunizar para que estúdios possam fazer produções como essa. E que a gente possa manter o estúdio funcionando ao menos durante o desenvolvimento de um jogo como esse. O mercado está crescendo muito, mas o investimento ainda é muito aquém disso”, afirmou Felipe.

O depoimento de Felipe evidencia a disparidade em relação a outros títulos famosos, desenvolvidos em outros países e lançados ao mundo, como no Japão e Estados Unidos, por exemplo. Deste modo, Plungeez acaba disputando espaço no mercado com gigantes como o GTA 6, com lançamento previsto para novembro.
Mercado brasileiro
No Brasil, o Marco Legal dos Games (PL 2.796/2021), aprovado em 9 de abril de 2024, regula a fabricação, importação, comercialização e o desenvolvimento dos jogos eletrônicos no país. Além disso, permite que empresas captem recursos para o desenvolvimento de jogos por meio da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual.
Segundo o Mapeamento de Games do Sebrae Paraná, concluído em 2025, o mercado brasileiro de games movimenta mais de US$ 5 bilhões por ano e reúne cerca de 115 milhões de jogadores. Porém, apenas 10% da receita fica com empresas brasileiras.
“Existe esse movimento, mas o investimento ainda é muito aquém do potencial que a gente tem, a nível regional e nacional. São produtos que têm um potencial de atingir um público gigantesco. A gente tem uma população imensa, mas a quantidade de jogadores que consome esses jogos independentes ainda é muito pequena comparada ao consumo de um jogo como um GTA 6”, finalizou Tarcísio.

