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477 da capital baiana - 29/03/2026, 09:00 - Gabriel Freitas*

Itapuã, Vitória e Suburbana: periferia ganha protagonismo em Salvador

Especialistas comentam estratégias para ligar a periferia ao centro da capital baiana

São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador
São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador |  Foto: Denisse Salutar/Ag. A TARDE

Mesa de dominó, criançada correndo na areia, casinhas simples e coloridas e muitos outros detalhes compõem a estética periférica, seja nas comunidades ou nas praias. Neste domingo (29), Salvador celebra 477 anos de uma história escrita, sobretudo, pelo povo que acorda cedo todo os dias para fazer a cidade acontecer.

Quando se fala em curtir a beleza soteropolitana, a lembrança direciona logo para os destinos virais do Tiktok, como Barra, Centro Histórico, Farol de Itapuã, entre outros maravilhosos locais. No entanto, perto destes paraísos citados, há comunidades que guardam uma beleza encantadora, mas, às vezes, esquecida.

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O olhar do MASSA! acompanha cada lado de Salvador. A fim de mostrar os locais ocupados pela periferia, a reportagem rodou os extremos da capital, como o Centro, Itapuã e o Subúrbio, a fim de trazer novas óticas para os leitores locais e turistas.

Praia da Sereia - Itapuã

Descrito nas letras de Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi, Itapuã é o mais populoso de Salvador, com cerca de 60 mil habitantes, segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, diferente do que as letras da Bossa Nova destaca, como o Farol de Itapuã e Rua da Poesia, a beleza da região também é preenchida pelos nativos, que frequentam a tradicional Praia da Sereia.

No início do bairro, fazendo divisa com Piatã, a praia é preenchida pela calmaria e leveza dos "itapuanzeiros", como são chamados os moradores da região. Embaixo do deck, próximo ao monumento da sereia, dezenas de homens, normalmente a partir dos 35 anos, se juntam para 'bater' um dominozinho e jogar conversa fora. Às vezes, ainda há espaço para molhar o bico com uma gelada.

Praia da Sereia, em Itapuã
Praia da Sereia, em Itapuã | Foto: Denisse Salutar/Ag. A TARDE

A praia é tomada, quase que em sua totalidade, por moradores locais. As crianças se divertem, os jovens pegam uma altinha e os mais radicais se aventuram no surf. Quando a maré está baixa, as pedras formam piscinas naturais que embelezam ainda mais o local.

A verdade é que o local não deve nada aos locais mais 'pomposos' de Itapuã, como a Rua K. Rua da Poesia e o Farol.

Vila Brandão - Vitória

A beleza da Baía de Todos-os-Santos não é nenhuma novidade. Mas há quem ainda não conheça um lugar incrível, localizado no Centro de Salvador. Para quem caminha vindo do Campo Grande, é só pegar todo o Corredor da Vitória e caminhar em direção ao fundo da igreja. Na esquerda, há uma escadinha e uma ladeira.

Cumprindo o caminho indicado está a comunidade Vila Brandão. Com excelentes opções de restaurantes, que para além da ótima comida, ainda oportuniza a experiência de apreciar uma vista exuberante, como um mar calmo, árvores, lanchas e vários detalhes minuciosos.

Lá, para você, leitor, que nunca pôde ir, a ideia principal é entender a dinâmica do morador local. A Vila Brandão não te oferecerá o luxo dos locais mais sofisticados de Salvador, porém não faltará cheiro e sabor de comida caseira.

Comunidade Vila Brandão, entre a Barra, Graça e a Vitória
Comunidade Vila Brandão, entre a Barra, Graça e a Vitória | Foto: Denisse Salutar/Ag. A TARDE

Subúrbio Ferroviário de Salvador

O leitor, que seja turista ou local, não pode desperdiçar a oportunidade de estar em Salvador e não conhecer a beleza e cultura do Subúrbio Ferroviário. Um pouco mais distante do Centro da capital baiana, a região, muitas vezes marginalizada, tem quase 290 mil habitantes, segundo dados do IBGE.

Quem se interessa em conhecer os segredos de Salvador, principalmente as histórias marítimas, é lá o local ideal. Nem só de resort o turista quer viver. O visitante que almeja por conhecer o povo soteropolitano, pode pegar o transporte, que pode ser por aplicativo ou público -com o VLT, logo mais- e partir para bater papo com os pescadores e marisqueiras, comer nos bons restaurantes de Plataforma, apreciar o pôr do sol de São Tomé de Paripe, a ótima praia de Base Naval, entre muitas outras experiências.

Sem os prédios de luxo ou shoppings, a ideia é se sentir à vontade e confortável no simples, mas com uma entrega de serviço de alta qualidade.

São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador
São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador | Foto: Denisse Salutar/Ag. A TARDE

Duas Salvador?

Uma crítica recorrente dos soteropolitanos é de que a capital baiana tem duas faces: do morador e do visitante. Filósofo, militante do movimento negro e ativista do bairro de Itapuã, Raimundo Bujão explica que há duas perspectivas da cidade:

1️⃣ "O turista tem uma perspectiva de visitante. Então, ele se identifica com aquilo que ele é atraído. Pode ser a praia, a Lagoa de Abaeté, as dunas."

2️⃣ "E tem aquele morador que é morador, ele vive em Itapuã. Então, a perspectiva, infelizmente, não pode ser igual. Porque quem mora vem com uma busca que está no seu imaginário. Então a gente respeita muito, mas a relação do Itapuãzeiro e a imagem que se joga para o turista são coisas distintas".

Ativista Raimundo Bujão
Ativista Raimundo Bujão | Foto: Denisse Salutar/Ag. A TARDE

Bujão também salientou a importância da comunidade ser ouvida para que haja a aplicação de políticas na localidade. Além disso, o dirigente social pontuou que há "uma confusão na concepção do que é que o turista quer ver", principalmente quando agências de turismo afastam os turistas da população local.

"Eu parto do pressuposto que quando você é um turista, você quer conviver com a cultura do lugar, com as pessoas do lugar. Há uma estratégia perniciosa das agências de turismo, que constrói uma paranoia, constrói uma dificuldade entre os visitantes, que os caras ficam com medo de chegar num lugar, num bairro, porque tem medo de gente, porque a ideia que ele tem é de que é um bairro violento, que é um bairro com muita pobreza, então isso tudo cria dificuldade. É preciso uma política de defender, de valorizar o que tem no bairro", salientou Bujão.

Autoestima do morador

Em um resgate da comunidade da Gamboa de Baixo, que, anteriormente, era marcada pela marginalização, se tornou um dos principais atrativos turísticos, unindo o turismo de sol e praia com o gastronômico. 

Para Raimundo Bujão, isso passa pelo poder de pertencimento do morador com a sua comunidade, o que gera uma relação mais harmônica com o visitante.

Aspas

A melhor segurança para um turista é a comunidade.

Raimundo Bujão

"É diferente quando há uma harmonia entre o visitante e quem mora. Então, quando há uma interação entre a comunidade e o turista, essa coisa flui, que até mesmo a melhor segurança para um turista é a comunidade", explicou ao MASSA!.

Aspas

Eu sinto muito em ler as notícias do Subúrbio. Eu fico me perguntando se aquela parte da cidade fosse na Europa, eu tenho certeza que até para você chegar, você teria que pagar, porque é um lugar bonito.

Raimundo Bujão

Ser atrativo, mas respeitando a cultural local

Entre passos e resenhas próximo à comunidade da Vila Brandão, o guia de turismo Juan Andrade salientou a existência de alguns pontos para tornar o local ainda mais atrativo, para além da vista. O profissional pontuou a importância de preparar os trabalhadores do local para lidar com o público visitante, muitas vezes de alta renda, mas tendo a responsabilidade de preservar o que é local. 

Além da remodelagem do atendimento, Juan listou um outro mecanismo de atrair o público para essas localidades: a divulgação.

"Aí também entra a prefeitura e o Governo do Estado mostrando que a região não é tem marginalidade. Tem, na verdade, um ambiente legal, uma vista fenomenal. E, assim, a gente consegue dinamizar esse público de alto padrão, com a comunidade local", iniciou.

Juan Andrade, guia de turismo
Juan Andrade, guia de turismo | Foto: Denisse Salutar/Ag. A TARDE

"Então, a estratégia seria, primeiro, a educação, essa remodelagem do atendimento ao público da comunidade local, e visibilidade para essas localidades. Que a comunidade consiga ser disseminada da melhor forma possível", acrescentou.

Atividades para atrair

Sabe-se que vistas bonitas em Salvador não faltam, já que é composta por inúmeros belezas naturais estonteantes. Com isso, Juan entende que para além de destacar a qualidade visual, também é essencial que se coloque outras atividades em práticas, em locais como a Vila Brandão, a Praia da Sereia e no Subúrbio.

1️⃣ "Promover eventos dentro desses locais, por mais que sejam ambientes um pouco menores. Um evento de pequeno porte, um sambinha, algo que não também seja muito movimentado, não perca a identidade".

2️⃣ "Buscar um turismo mais cultural, que mostre um pouco mais sobre a localidade. Então, levar eventos culturais para essas localidades mais distantes vai atrair esse público. Tem que gerar essa necessidade pro turista pra ele querer se locomover daqui até lá. Rodas de conversas, uma roda de capoeira muito antiga, a baiana que tem a receita de acarajé mais antiga de Salvador, entre outras coisas, são estratégias que atrai o turista, por mais longe que seja".

Revolução na mobilidade

Salvador é uma metrópole. A depender do local e horário, o engarrafamento é uma certeza. Quem depende do transporte público pode ficar cerca de 2h a 3h para atravessar a cidade. Diante disso, levar o turista de uma ponta a outra da cidade pode ser um desafio.

No entanto, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) surge como uma revolução no transporte público da capital baiana. Com as obras encaminhadas, o modal promete ligar a Cidade Baixa ao extremo do Subúrbio. Além disso, da Ilha de São João o transportado poderá chegar em Piatã em poucos minutos. Diante dessa transformação, Raimundo Bujão pontuou que essa é a melhor estratégia para que a economia circule dentro da comunidade.

"Isso é importante porque facilita e permite ao morador se autoconhecer. Eu conheci Cajazeiras, conheci o Subúrbio Ferroviário, dentro de uma possibilidade de uma locomoção rápida. Não tenho dúvida que essa política é a correta para que você possa fazer com que a economia circule na comunidade", disse.

Aspas

Não basta apenas você fazer restaurantes cinco estrelas. Já que um turista queira conviver com uma comunidade mais popular, almoçar uma comida caseira, que nos restaurantes geralmente não oferecem.

Raimundo Bujão

"Então eu acho que é importantíssimo e talvez seja a saída para um fortalecimento da economia do município de Salvador, essa interação entre centro-subúrbio, subúrbio-periferia, periferia-centro. Porque é isso que dá, na verdade, a dinâmica de pertencimento de ser um solteropolitano", acrescentou.

Essa ideia também é reforçada pelo guia de turismo, que convive com turistas internacionais que se encantam em conhecer a vida cotidiana do trabalhador soteropolitano.

Aspas

Mas pra quem tá vindo de fora, principalmente turistas internacionais, acham isso riquíssimo. Porque eles se sentem pertencentes ao dia a dia do morador, da localidade.

Juan Andrade - Guia de Turismo

Salvador do futuro

A terra fundada por Tomé de Souza, em 29 de março de 1549, já viveu 477 anos, mas muitos outros virão. A partir da vivência de um militante social e racial, Raimundo Bujão, diante dos 68 anos já vividos, compartilhou o que pensa para os anos vindouros da capital baiana.

"Há uma necessidade imperativa de estabelecer uma redução das desigualdades. À medida que você aproxima a economia da periferia, você permite que o cara que está na periferia possa circular no centro e você está fortalecendo a economia do lugar. O que eu diria para os governantes de Salvador é, primeiro, que eles entendam que estão em uma cidade de maior população negra das Américas. E essa cultura negra precisa estar expressa também nos pacotes, nos projetos de incentivo ao turismo no estado da Bahia e em Salvador, em especial", completou.

Que seja nos principais cartões portais ou nas escondidas, há milhões de soteropolitanos fazendo Salvador funcionar todos os dias. De portas abertas aos turistas, a capital baiana pode oferecer, para além da 'badalação', locais tranquilos com uma pitada da vida cotidiana.

*Sob a supervisão do editor Pedro Moraes.

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