
Por muito tempo, o Dia dos Povos Indígenas, comemorado neste domingo, 19 de abril, era visto apenas como uma data comemorativa no calendário escolar. Anos se passaram e, após lutas e batalhas travadas contra o preconceito, a falta de reconhecimento e a valorização da sua história, os indígenas finalmente passaram a ser vistos com a sua devida importância, afinal, são eles os habitantes originários do território brasileiro.
Mesmo com algumas lutas vencidas, eles ainda se deparam com diferentes tipos de preconceitos, inclusive, por parte de quem acha que o espaço deles se limita apenas às aldeias. Dados do censo de 2022 apontam que a Bahia é o segundo estado com a maior concentração de pessoas que se autodeclaram como indígenas, um total de 229.443 mil.
Força e resistência contra o preconceito
Graduado em direito, Zahaty Ká Arfer Jurum Tuxá, (Carlos Alberto Cruz Fonseca, 34 anos), indígena do Povo Tuxá, da cidade de Rodelas, município baiano situada à margem do rio São Francisco, mora em Salvador desde 2023. E, durante esses três anos de vivência na grande capital, já passou por muitos momentos de preconceitos.
Durante aquele mês, eu passei o mês todo indo pra a faculdade de cocar, com brinco de pena e todo pintado”
indígena do Povo Tuxá Zahaty Ká Arfer Jurum Tuxá
“Quando eu fui à faculdade de direito, uma certa vez, eu tinha acabado de chegar do acampamento Terra Livre. Eu cheguei todo pintado, estava com as pinturas do meu povo, e estava de brinco de pena. Na faculdade, o pessoal foi me perguntou se eu fazia parte de algum grupo de teatro. Aquilo me mexeu tanto comigo. Eu respondi: ‘não, eu sou indígena, eu sou do povo Tuxa’. Eu passei a fazer da pintura e dos meus atavios instrumentos de militância. Durante aquele mês, eu passei o mês todo indo pra a faculdade de cocar, com brinco de pena e todo pintado”, relatou ao MASSA.

Ele, que é pai de um filho - que vive com seu Povo Tuxá em Rodelas - citou outros preconceitos que o Povo indígena enfrenta há anos.
“Além de estar longe dos seios, tem essa questão do fenômeno porque os índios do nordeste foram a barreira que segurou a invasão. Então, nosso fenômeno é totalmente diferente do fenômeno do indígena do norte, que é o indígena que está nos livros. Quando se fala de indígena, se vê aquele indígena da Amazônia, se vê aquele indígena da região norte do país. Porém, quando chega, mesmo em Salvador, que é uma cidade predominantemente do povo negro, ainda tem que sofrer preconceito”, lamentou.
“Precisamos ficar o tempo todo tendo que provar que somos indígenas. É muito complicado na cidade grande. Infelizmente, a ideia que se tem de indígena é a ideia dos livros, dos contos de José de Alencar”.
Estereótipos sobre cabelo afeta
Assim como Carlos, Iracema Michele Dias Almeida da Silva (Iracema Truká) passou em residir em Salvador devido à implantação da Superintendência de Políticas para Povos Indígenas, gerida pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) do Governo do Estado. E, com ela a realidade não é diferente quando o assunto é estereótipos encontrados e enfrentados na cidade.
“Eu estou há três anos aqui, mas morava na aldeia Truká Camichá, em Sobradinho. E posso dizer que a gente sofre muito na cidade. Por exemplo, eu e minha família temos o cabelo crespo. Eu aliso meu cabelo só porque as pessoas acham que para ser indígena tem que ter cabelo liso. Às vezes, até quando eu estou no salão, me falam: agora você sai uma índia. Mas eu sou, sempre fui. Porém, as pessoas carregam a ideia de que a mulher indígena tem o cabelo preto, alongado, liso”, contou ao MASSA!.

Infelizmente, os contrangimentos - frutos de preconceito, incoveniência e ignorância-, que Iracema passou não param por aí. “Também passo por situações em que pessoas questionam se eu realmente sou indígena. Há um tempo, quando meu cabelo era curtinho, era bem pior. Inclusive, até no ensino médio eu passei por isso. Na época, um professor pegou no meu cabelo e falou que nunca tinha visto indígena de cabelo crespo. Ele falou isso comigo, no meio de todos os meus colegas de turma. Eu era segundo ano do ensino médio e passei por esse constrangimento que nunca vou esquecer. Mas são coisas que a gente passa o tempo inteiro”, contou.
Eu aliso meu cabelo só porque as pessoas acham que para ser indígena tem que ter cabelo liso"
Iracema Michele Dias Almeida da Silva
Não é brincadeira. Esses questionamentos são tão sérios que, no caso de Iracema, por exemplo, os ‘ataques’ viraram tópicos para serem tratados com ajuda da psicologia, por meio de sessões de terapia. “Meu povo é do Pernambuco, e nós fizemos retomada aqui na Bahia, mas as mulheres do meu povo têm cabelo crespo, curtinho. Por muito tempo eu não me enxerguei como indígena por causa dessas pessoas. Na verdade, até hoje eu não consigo muito bem, mas estou trabalhando isso na terapia”, revelou em entrevista ao MASSA!.
Iniciativas de valorização e melhorias
Segundo a Superintendência de Políticas para Povos Indígenas, dos 417 municípios, 406 registram presença de pessoas que se reconhecem como indígenas. A superintendente da pasta, Patrícia Pataxó, do Povo Pataxó Hã-hã-hãe, garantiu que a Sepromi tem viabilizado ações de valorização para os povos indígenas da Bahia.
“Temos investido muito em infraestrutura e na valorização de profissionais que com a educação escolar. Tivemos a reestruturação da carreira do professor indígena para equiparar salário aos demais professores não indígenas. Além disso, também existe a criação de concursos como, por exemplo, para coordenadores pedagógicos indígenas, que antes não tinha essa categoria. São aldeias recebendo escolas de tempo integral, com quadras, laboratórios, auditórios", iniciou.

Temos investido muito em infraestrutura e na valorização de profissionais que com a educação escolar"
Superintendente de Políticas para os Povos Indígenas do Estado da Bahia Patrícia Pataxó
"Eu nunca imaginei viver isso. São coisas que eu, quando criança, nunca imaginei viver na vida. Eu nunca imaginei que aldeias pudessem ter colégios com essas estruturas. Também temos outros programas importantes, como o PAA indígena, que é o Programa de Aquisição de Alimentos, que ajuda a fortalecer a agricultura familiar”, declarou a superintendente.
