
Quem passa pelo Pelourinho e olha para o casarão cercado por tapumes sabe que algo está faltando naquela paisagem. A Igreja de São Francisco, a famosa Igreja de Ouro, cartão-postal de Salvador e um dos monumentos barrocos mais importantes do mundo, segue fechada desde fevereiro de 2025, quando parte do teto desabou durante uma visita, matando a turista paulista Giulia Righetto, de 26 anos.
Mais de um ano depois do acidente, a Ordem Franciscana apresentou nesta terça-feira (21) o plano de restauração, e junto com ele, um pedido: a sociedade precisa ajudar a pagar a conta.
De acordo com o frei Lorrane Clementino, vigário da Igreja, o custo total das obras de restauração da primeira etapa é de R$ 61 milhões. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, garantiu recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para iniciar o restauro da Igreja e do Convento de São Francisco, com um investimento inicial de R$ 20 milhões. Ou seja, ainda faltam R$ 40 milhões para cobrir os custos dessa obra.
Garantindo essa arrecadação, a previsão de conclusão das obras para reabertura total da Igreja de São Francisco é apenas em 2029. Frei Lorrane destaca que, quanto maior a arrecadação em menos tempo, mais rápido esse processo deve ser concluído e, portanto, a Igreja voltar a funcionar.
A campanha Abrace São Francisco
É nesse cenário que a Ordem Franciscana lança a campanha Abrace São Francisco. A lógica é simples: sem visitas e sem eventos, a única forma de a igreja contribuir para sua própria restauração é por meio de doações da sociedade.
O frei Lorrane lembra que esse não seria o primeiro momento em que a comunidade ajudou a construir esse patrimônio. A história da igreja é, ela mesma, uma história coletiva. "Assim como a sociedade se uniu para contruir essa Igreja, agora podemos unir as mãos por essa causa", disse.
A campanha, que clama por doações, não determina um valor. "A ideia é que a gente consiga esse recurso para aplicar nas obras, estamos arrecadando através da plataforma abrecesaofrancisco.com. As pessoas podem doar qualquer valor, imagine se a sociedade do Brasil, Bahia e Salvador, se unindo com qualquer quantia, vamos conseguir recuperar a Igreja. Tendo dinheiro a gente consegue", disse.

Frei Lorrane fala, ainda, sobre a mobilizaação da sociedade para além das doações em dinheiro, Eu conclamo empresas, empresários, artistas, imprensa... venham conversar conosco para que a gente possa pensar ideias para mobilizar a sociedade. Shows, eventos, corridas, palestras, eventos, e mobilizar a sociedade para entender a importância desse patrimônio e recuparar o mais breve possível esse templo".
Entenda o processo de restauração no momento
A obra foi dividida em três etapas. A primeira, que é e mais urgente, engloba a Igreja, a Portaria, a Sacristia, a Biblioteca Histórica e a Via Sacra. É justamente essa fase que está aguardando o início das licitações pelo Iphan, com previsão de começar ainda em 2026.
Por se tratar de material histórico e cultural, tudo o que foi danificado após a queda do forro (e o próprio forro) segue no local. O material foi catalogado e acondicionado de maneira adequada. O telhado também já foi reformado, o que garante segurança para iniciar as obras de restauração completa.

Um detalhe importante: dos R$ 20 milhões do Novo PAC, R$ 4 milhões já foram usados para elaborar os projetos. O restante ainda precisa passar pelos processos de licitação antes de chegar às obras de fato. E todo esse recurso passa pelo Iphan, ou seja, a Ordem Franciscana não tem acesso direto a esse dinheiro.
As estapas de restauração serão assim:
1️⃣ Igreja, Portaria, Sacristia, Biblioteca Histórica e Via Sacra (projetos prontos, aguardando licitação)
2️⃣ Claustro, Sala do Capítulo e parte superior das setas
3️⃣ Convento (sem previsão de projeto ou execução por enquanto)

A restauração também inclui a ornementação em ouro, que é o grand destaque do local. Apesar de não se colocado mais ouro, frei Lorrane explica que "não vai ser pintada novamente, mas será feita uma limpeza para que fique mais reluzente e dar um novo brilho", disse.
Há chances de, após a recolocação da forro, a Igreja possa reabrir gradativamente. Dessa forma, os visitantes poderão acompanhar o processo de restauro, tudo com supervisão. "Tudo será divulgado nas redes sociais, todo mundo vai acompanhar o que está sendo feito para que as pessoas tenham segurança de colaborar".

O que Salvador perde com a igreja fechada
Não é exagero dizer que a Igreja de São Francisco é um dos monumentos mais importantes do Brasil. Construída entre os séculos XVII e XVIII, ela integra o Centro Histórico de Salvador, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. É tombada pelo Iphan desde 1938 e eleita uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.
O interior impressiona qualquer um: talhas de madeira cobertas de ouro, uma incontável quantiadade de azulejos portugueses que contam a vida de São Francisco e um teto com pinturas em perspectiva ilusionista de José Joaquim da Rocha, feitas em 1774. Era, disparado, a atração mais visitada do Pelourinho.

Com a igreja fechada, o circuito turístico do Centro Histórico sofre um impacto direto. Guias, restaurantes, vendedores ambulantes e toda a cadeia que depende do fluxo de visitantes naquela área sente o peso do fechamento. Turisticamente, religiosamente e culturalmente, o buraco que a Igreja de Ouro deixou no cotidiano de Salvador é concreto, como destaca Rivanete Rodrigues, vice-presidente do Sindicato dos Guias de Turismo.
"Para o turismo foi um impacto enorme, uma perda sensível que agente percebe no dia a dia. Mesmo a gente trazendo o turista pra cá, explicando do lado de fora, não é a mesma coisa de quando você adentra o templo para vivenciar tudo isso", disse.

