
Há dez anos, a ONG Abraço à Microcefalia constrói uma rede de cuidado e acolhimento para crianças com microcefalia e suas famílias na Bahia. Fundada em 2016 por famílias afetadas pela Síndrome Congênita do Vírus Zika, a instituição surgiu com o propósito de oferecer assistência e apoio diante dos desafios enfrentados pelas crianças e por seus familiares.
Ao longo dessa trajetória, a organização já atendeu mais de 300 crianças de Salvador e de municípios do interior do estado. Atualmente, a ONG conta com o apoio da Fundação José Silveira e oferece serviços de fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e assistência social, além de suporte jurídico às famílias.
A instituição também orienta os responsáveis sobre os direitos relacionados à deficiência permanente provocada pela infecção pelo vírus Zika, incluindo os procedimentos para solicitar pensão vitalícia e indenização por danos morais, conforme a regulamentação da Lei nº 15.156/2025.
Para a vice-presidente da ONG, Flavia Oliveira, a conquista da sede própria está entre os principais avanços da instituição ao longo desses dez anos.
“O nosso primeiro avanço foi a gente conseguir nossa sede, porque precisava ampliar os atendimentos e trazer um conforto melhor para as famílias e para as crianças. Conseguimos fazer salas para trocas, deixar cada atendimento no seu devido lugar e ter uma cozinha, porque vêm muitas famílias do interior e, às vezes, algumas passam um dia aqui”, destaca Flavia.

A ampliação dos atendimentos, viabilizada por meio de parcerias, é outro marco na trajetória da Abraço à Microcefalia. Segundo Flavia, a iniciativa contribui para melhorar a qualidade de vida das crianças e de seus familiares.
“A ampliação dos atendimentos que conseguimos por meio da parceria foi um dos nossos marcos, porque a nossa prioridade é a qualidade de vida das crianças e de suas famílias”, destaca a vice-presidente.
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Atendimento que vai além das crianças
Além dos atendimentos especializados, a ONG distribui itens essenciais como fraldas, fórmulas infantis e alimentos. O trabalho também busca fortalecer as redes de apoio e oferecer acolhimento às mães e aos demais familiares, que enfrentam desafios cotidianos relacionados ao cuidado com os filhos.
Para Fernanda Santos, uma das mães atendidas pela instituição, o trabalho da Abraço à Microcefalia vai além da assistência às crianças. O espaço também representa um ambiente de acolhimento, especialmente para as mães, que encontram ali apoio e a oportunidade de compartilhar experiências.
“Por que a gente se sente confortável? É porque você chega aqui e sabe que não vai ser olhada pela diferença, porque estamos no mesmo barco. São histórias diferentes, mas parecidas”, relata Fernanda.

Ela também destaca que o sentimento de pertencimento encontrado na ONG nem sempre se repete em outros espaços de convivência.
“Não tem outro lugar fora daqui em que a gente se sinta tão à vontade para estar, nem em aniversários, nem em festas. Eu não sou adepta a festas de aniversário, mas a minha filha nunca foi chamada para um aniversário, a não ser os das mães daqui, de parentes e tudo. Amiguinhos da escola, não existe. Então, é aqui mesmo que somos abraçadas e acolhidas”, conta.
Uma rede de apoio para famílias de toda a Bahia
Atualmente, a Abraço à Microcefalia possui aproximadamente 250 famílias cadastradas e atende, em média, 170 crianças. Nem todas as famílias inscritas conseguem manter o acompanhamento presencial, principalmente por dificuldades de deslocamento e outros impedimentos. Ainda assim, a organização busca oferecer suporte às famílias cadastradas.
Embora esteja sediada no bairro de Mussurunga, em Salvador, a ONG atende em diferentes bairros da capital e de municípios do interior da Bahia.
É o caso de Beatriz da Silva, moradora de Fazenda Grande III e mãe de Rhayanne Vitória. Ela destaca a importância de uma instituição que oferece serviços especializados e acolhimento para crianças com microcefalia e seus familiares.
“É difícil achar fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia, porque tem muitas crianças. Não é só ela, são várias crianças. Em vários lugares, a maioria está cheia. E tem uma ONG aqui que não só tem fisioterapia e fono, mas também tem um terapeuta para as mães, que necessitamos muito”, afirma.

Beatriz ressalta ainda que o cuidado oferecido pela instituição considera as necessidades das mães, que também precisam de atenção e suporte emocional.
“É acolhedor, acolhe bastante, entende as nossas necessidades e tenta fazer o máximo possível para nos ajudar. Então, eu me sinto bastante acolhida. (...) nós, enquanto mães, também somos acolhidas”, completa.
Troca de experiências fortalece as mães
A convivência entre as famílias é outro aspecto importante do trabalho desenvolvido pela ONG. O contato permite compartilhar informações sobre tratamentos, procedimentos médicos, cirurgias e outras questões relacionadas ao desenvolvimento e à saúde das crianças.
Beatriz conta que a troca de experiências ajuda as mães a compreenderem melhor as situações enfrentadas pelos filhos e a conhecerem possibilidades de cuidado a partir das vivências de outras famílias.
“A gente troca informações. Às vezes, nosso filho está passando por uma coisa que outra mãezinha começou a passar agora. Muitas das crianças têm luxação no quadril. Rhayanne mesma tem e está começando a investigar agora. Outras mães, que os filhos já fizeram cirurgia, trocam informações”, relata.
Segundo ela, o convívio também contribui para estreitar os vínculos entre as famílias, que compartilham dúvidas, experiências e formas de lidar com os desafios do dia a dia.
“É bom ter esse contato, essa troca. E, quando a gente vai para a casa da outra, uma vem para cá. A convivência também é boa. Porque, querendo ou não, é um ambiente com bastante pessoas”, acrescenta.
Como a ONG se mantém?
O trabalho da Abraço à Microcefalia é mantido por meio de doações, campanhas e parcerias. Entre os apoiadores está a Fundação José Silveira, responsável por viabilizar a atuação dos profissionais que prestam atendimento na instituição.
A ONG também conta com a colaboração eventual da Defensoria Pública do Estado da Bahia, que oferece serviços de apoio jurídico, social e de saúde às famílias cadastradas.
A continuidade dessas iniciativas depende da contribuição de pessoas, empresas e instituições que colaboram para manter os atendimentos especializados, a distribuição de itens essenciais e as ações de acolhimento.
ONG recebe doações para manter atendimentos
Para garantir a continuidade dos serviços, a Abraço à Microcefalia mantém uma campanha de arrecadação financeira e de doação de materiais.
Entre os itens necessários estão fraldas, alimentos não perecíveis, leite e produtos de higiene e limpeza utilizados na rotina da instituição. A lista também inclui materiais e equipamentos, como detergentes enzimáticos utilizados em ambientes hospitalares, desodorizadores de ambiente, sapatilhas descartáveis, oxímetros e termômetros.
As contribuições ajudam a custear os serviços oferecidos, garantir o acesso das crianças aos cuidados essenciais e auxiliar as famílias com produtos necessários para o dia a dia.
As doações podem ser feitas pelo telefone (71) 99630-7875 ou por meio do site.
Celebração marca os dez anos da instituição
Na tarde desta quinta-feira (29), a Abraço à Microcefalia realizou, na sede da instituição, em Mussurunga, uma programação especial em celebração ao Mês das Crianças e aos 10 anos da ONG.

O evento contou com atividades recreativas e atrações musicais, com a participação da animadora Tia Bah e do cantor Bruno Ceuta.
A iniciativa teve como objetivo proporcionar às crianças e famílias atendidas pela ONG um momento de alegria, diversão e convivência, celebrando também a trajetória da instituição, que há uma década oferece assistência e acolhimento a famílias de diferentes regiões da Bahia.

