
Um símbolo de resistência e vitalidade cultural que representa muito bem o que é a Bahia completa 60 anos em 2024. A Feira de São Joaquim, conhecida pela sua diversidade e pela energia pulsante dos seus feirantes, é muito mais do que um simples mercado: é um ponto de encontro de culturas, um testemunho vivo da história da capital baiana.
Essa feira que se estabeleceu às margens da Baía de Todos-os-Santos para realocar os trabalhadores da feira de Água de Meninos, que pegou fogo em 1964, logo se transformou em um ponto de referência para a compra e venda de produtos variados, desde alimentos frescos até artesanatos típicos da região, sendo hoje a maior e mais reconhecida da Bahia.
Além do preço baixo e da diversidade de produtos, a Feira de São Joaquim também é famosa pelo talento em festejar, e não poderia ser diferente dessa vez. Ao longo de seis décadas, a feira não apenas sobreviveu, mas resistiu a desafios econômicos, urbanísticos e sociais. É neste contexto que o projeto "São Joaquim: 60 anos de luta e resistência", que será lançado com festa no domingo (14), surge como uma homenagem merecida e como um meio de preservar a rica história deste lugar.

Nilson Ávila Filho, o Gago, é um dos exemplos de como a feira deu oportunidade a tantas pessoas. Filho e neto de feirantes que trabalharam por lá, ele segue respeitando o legado da família à frente do Bar São Jorge, dentro da feira de São Joaquim; Gago também é o presidente do Sindicato dos feirantes da Feira de São Joaquim, e garante que a festa dos 60 anos ficará marcada. “Montamos uma programação e tem tudo para ser uma grande festa. Queremos mostrar o legado da feira, valorizar as coisas que produzimos aqui ao longo desses anos”, afirma.

Passeando pela feira, é possível conhecer outras pessoas que são resultados do que um dia foi plantado ali. Outros filhos e netos de feirantes que preservam as histórias de suas famílias e seguem vivendo do trabalho na feira de São Joaquim, como é o caso de Hamilton Barbosa e Ari Goes. Eles têm a mesma idade da feira, e por isso sabem que suas histórias se confundem com a daquele espaço.
Eles cresceram na feira enquanto os pais trabalhavam, se conhecem desde criança e reconhecem a importância da enseada de São Joaquim para a vida de cada um ali. “Tem gente que não sabe o que é viver fora da feira, não sai daqui para nada, nunca nem pegou um ônibus na vida. Dorme e acorda aqui dentro, respira a feira de São Joaquim. Isso aqui é importante para muitas pessoas, foi e é tudo para a minha família”, disse Hamilton. “Somos feirantes de sangue, é um meio de comércio, de vida, um lugar que as pessoas se identificam. Quem diz que não gosta é porque não conhece”, garante Ari.

É verdade que muita coisa mudou ao longo desses 60 anos. Muitos dos feirantes dessa época já faleceram e nem todos deixaram filhos para seguir com o negócio. O comércio se expandiu, cada lugar ganhou a sua própria feira, o mercado evoluiu e, de alguma maneira, a realidade ali não é mais a mesma. Quem trabalha por lá há muito tempo sabe disso, mas também sabe que apesar das mudanças, a feira de São Joaquim nunca deixou de ser importante.

O feirante Nilson Santos está há 45 anos tirando o sustento da feira de São Joaquim. Ele trabalha com os temperos verdes e entre a venda de um coentro e outro, contou um pouco do que viu acontecer naquelas vielas ao longo das décadas. “Mudou demais. Antigamente não tinha tanto mercado, tanta opção por aí, e aí quem precisava, tinha que vir na feira. Hoje, naturalmente, não tem mais o mesmo movimento, mas ainda dá pra levar o meu trocado pra casa, e por isso vou ficar aqui até o dia que Deus me levar”, garantiu Nilson. “A gente se adaptou, tem cartão, tem PIX, então o meu desejo é que os clientes voltem à feira”, pediu.
Do trabalho de pessoas como seu Nilson foi que se formaram tantos profissionais Salvador afora. Com o serviço na feira, muitos trabalhadores conseguiram garantir a educação e formação de seus filhos, o que pôde garantir uma mudança financeira e social na vida de muitas famílias. Mas se engana quem pensa que a formação acadêmica seria razão para tirar a feira da vida das pessoas, e Denilde Andrade, filha da Dona Dadá, é prova do contrário disso.
“É da família. Meu avô vendeu alumínio, minha mãe começou vendendo sacola e balaio de Ilha de Maré, hoje estamos aqui com o Cantinho da Dadá vendendo comida. Eu sou técnica em enfermagem, mas deixei o meu trabalho para ficar aqui com ela, e o mesmo aconteceu com meus irmãos. Todo mundo é formado, mas a feira chama. Pagamos a faculdade de todos com o dinheiro da feira, isso aqui é uma mãe”, explicou Denildes.

O movimento na feira pode não ser o mesmo de anos atrás, mas entre boxes, bancas e carregadores, são cerca de oito mil pessoas que vivem direta ou indiretamente do sustento que a feira de São Joaquim oferece. Esses 38 mil metros quadrados que abrigam a maior feira livre da Bahia guardam muitas histórias e há 64 anos são um cartão postal de cores, sabores e aromas da Bahia em sua essência.
Tudo sobre a festa no domingo
Com o lançamento do projeto "São Joaquim: 60 anos de luta e resistência", os organizadores esperam não apenas comemorar o passado, mas também inspirar futuras gerações a valorizar e preservar esta parte tão importante da história de Salvador. A feira nunca foi apenas um lugar de comércio, é também um tesouro cultural que representa bem a capital baiana.
O aniversário é comemorado em setembro. “Foi em 15 de setembro que o primeiro feirante se instalou aqui na enseada de São Joaquim”, conta Gago. Mas as comemorações estão sendo antecipadas e começam neste domingo (14), a partir das 13h, no Píer São Joaquim. “Começamos no domingo e até setembro vamos realizar diversas atividades, como feiras de artesanato, festival gastronômico e um encontro do recôncavo com a feira de São Joaquim”, explica o presidente do sindicato.
A festa do domingo não vai deixar a desejar e as atrações musicais são de peso. Eduardo Fora da Mídia, Swing do Fora, Jecinho Ribeiro e um grande filho da feira, o cantor Silvanno Salles, que já passou por lá como vendedor de aipim e agora volta como um grande presente, fazendo uma participação no lançamento desse projeto.