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Estilo com gestão - 12/05/2026, 08:00 - Jaísa de Almeida - Atualizado em 12/05/2026, 09:16

Estilo shopping, preço de bairro: barbeiros elevam o padrão na periferia de Salvador

Profissionais da beleza investem para levar experiência "refinada" para as barberias das comunidades de Salvador

Empreendedores da periferia apostam em barbearias para crescer
Empreendedores da periferia apostam em barbearias para crescer |  Foto: Shirley Stolze / Ag. A TARDE

Em muitos bairros populares de Salvador, a barbearia ocupa um papel que ultrapassa o espelho e a cadeira de corte. O espaço virou ponto fixo de circulação, referência para moradores e motor de pequenos negócios no entorno. Quando a agenda enche, a rua também ganha movimento: gente que passa, consome na lanchonete ao lado, compra na mercearia da esquina e mantém o dinheiro girando dentro da própria comunidade.

Os estilos mudam, as técnicas evoluem e cada profissional imprime sua marca. Do “bigodinho fininho” ao “cabelo na régua”, passando pelo “loiro pivete”, o corte virou identidade. Para muitos jovens da periferia, o visual é parte da autoestima e da afirmação pessoal. E para quem segura a máquina, é oportunidade de renda e crescimento dentro do próprio bairro.

Esse movimento também aparece nas pesquisas do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o levantamento mais recente, a capital baiana registrou aumento nas unidades locais de empresas de cabeleireiros e outras atividades de tratamento de beleza, que passaram de 1.236 para 1.337 entre 2022 e 2023.

Por trás desses números, estão trajetórias individuais que ajudam a explicar a expansão do setor. No Calabetão, Carlos Henrique ingressou na área depois de perder o emprego, em 2021. Sem saber qual caminho seguir, apostou na barbearia e abriu a “Lume”. Começou pequeno, organizou o espaço e estruturou o atendimento. Atualmente, vê na gestão do negócio o principal diferencial para se manter firme em meio à concorrência que cresce a cada esquina na região.

Antes mesmo de falar de técnica, ele reforça que o planejamento faz toda diferença. Para o barbeiro, muita gente entra na profissão sem pensar na parte administrativa e, por fim, se enrola. Por isso, desde o início, organizou horários, rotina e atendimento.

“É a questão da organização. Muitos barbeiros pecam por não ter organização no negócio. Aqui a gente trabalha com agendamento, a gente não atende por ordem de chegada. A gente se organiza primeiro para que o cliente tenha essa disponibilidade de poder agendar o seu horário com antecedência e não aglomerar o ambiente”, conta ao MASSA!.

Carlos Henrique viu na profissão uma naeira de mudar de vida
Carlos Henrique viu na profissão uma naeira de mudar de vida | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Espaço de escuta

Além da organização, a cadeira virou lugar de confiança. Henrique aponta que outro fator que sustenta o negócio é a escuta. Tem quem chegue calado e depois já passa a querer trocar ideias, dividir questões pessoais e desafios do dia a dia. O barbeiro passou a lidar com histórias que vão além da aparência de cada cliente:

“A barbearia é um espaço para cortar cabelo, mas atualmente você precisa entender o que o seu cliente está precisando no momento. Tem gente que chega querendo simplesmente desabafar, tem gente que quer ouvir um conselho, falar sobre uma demissão, sobre um término, e a gente tem que estar preparado para essas coisas. É tipo um psicólogo".

Aspas

Pensam que, por ser na favela, a gente tem que fazer as coisas de qualquer jeito.

Carlos Henrique, proprietário da Lume

Ao mesmo tempo, investir em estrutura dentro da própria comunidade também se tornou parte do projeto. A proposta, segundo ele, sempre foi oferecer qualidade sem que o morador precisasse sair do bairro para encontrar um atendimento mais completo.

“Pensam que, por ser na favela, a gente tem que fazer as coisas de qualquer jeito. Eu penso diferente, porque não tem uma barbearia completa hoje dentro de uma comunidade. Quem mora aqui também merece um atendimento melhor, não precisar sair daqui para ser bem atendido, ter um bom corte de cabelo, profissionais qualificados e um espaço de acolhimento”, analisa.

Investir em estrutura  também se tornou parte do projeto
Investir em estrutura também se tornou parte do projeto | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Como consequência dessa postura, o ambiente passou a atrair principalmente o público LGBTQIA+, que encontrou no espaço um local de respeito e acolhimento. Para Henrique, esse reconhecimento fortalece o papel social da barbearia nas quebradas.

“A maior parte do meu público é o público LGBT. São pessoas que se sentem confortáveis em estar aqui, porque o tipo de conversa é outro, o ambiente é outro, mais leve, de respeito”.

Aspas

O meu diferencial, acredito eu, é a inclusão e organização.

Carlos Henrique

Peso no bolso virou lucro

No fim de linha do bairro de São Caetano, Vitor Caique trilhou caminho semelhante. Conhecido como “General dos Cortes”, transformou o apelido, sugerido por um amigo fuzileiro naval, em marca registrada. O nome chamou atenção e ajudou a criar identidade. Por isso, ao longo de 16 anos, o estabelecimento cresceu junto com a própria região.

“Na época em que eu estava montando minha barbearia, eu perguntei a ele qual nome seria para colocar. Ele falou ‘General’. Achei muito pesado no começo, um nome muito forte, porque é uma patente muito alta, mas pensei muito na concorrência. Eu queria ser lembrado, um nome que ficasse na cabeça”.

Vitor comanda sua barbearia há 16 anos
Vitor comanda sua barbearia há 16 anos | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

No início, porém, a realidade era diferente. Victor atendia a domicílio até perceber que os custos estavam pesando no orçamento. Diante disso, a varanda de casa virou o primeiro ponto fixo e fortaleceu o vínculo com os clientes, que continuaram ao seu lado quando ele se mudou para outro endereço no bairro.

“Eu tinha moto e ia atender alguns clientes a domicílio. Depois tomei prejuízo, o pneu furou e era muito caro. Vi que não estava valendo a pena. Na casa em que eu morava tinha uma varanda, foi onde eu coloquei alguns materiais da barbearia e levei para lá. Graças a Deus, meus clientes foram até mim tranquilamente e fiquei atendendo por lá.”, lembra.

Visão empreendedora

Com o crescimento do negócio, veio também a busca por especialização. Um dos serviços que ganhou destaque foi o preenchimento de barba fio a fio, técnica de micropigmentação que corrige falhas e dá aspecto mais uniforme. A procura cresceu e trouxe um novo público para o espaço.

“Tem barba falhada, e a gente faz o procedimento de preenchimento de barba. Eu faço marcações iguais aos fios de cabelo e tem durabilidade de seis meses a um ano. Tem muito benefício para o cliente, aumenta a autoestima e a imagem dele, tudo isso é muito importante”.

Mas para além da estética do cliente, a aparência do estabelecimento também conta. O "General" apostou na estrutura como forma de se destacar: ar-condicionado, porta de vidro, equipe fardada e organizada. Para ele, o investimento no espaço mostra respeito com quem chega para cortar o cabelo.

Aspas

O que diferencia a minha barbearia é um padrão. Um investimento que eu fiz, independente de ser na comunidade.

Victor Caíque, proproitário da General nos Cortes

“Optei por investir um pouco a mais do que as outras. Coloquei ar-condicionado, uma porta de vidro, um padrão para os colaboradores estarem bem arrumados, o atendimento, a farda, tudo completinho.”, afirma.

No atendimento, ele faz questão de orientar sobre corte, formato do rosto e visagismo. Oferecer um café ou uma água faz parte do cuidado. A divulgação nas redes também ajuda a manter a casa cheia, porque, como ele mesmo diz, “hoje em dia, quem não aparece, não vende”.

“Eles perceberam que não é só cortar cabelo, o barbeiro não é só passar a máquina para lá e pra cá e pronto. Eu falo o nível do cabelo dele, o corte que combina com ele, que é visagismo. Explico como funciona um corte na tesoura, que não é só passar a máquina também. Por isso ele acha muito importante o atendimento".

Aspas

Oferecer café ou água também ajuda a fidelizar o cliente.

Victor Caíque
Imagem ilustrativa da imagem Estilo shopping, preço de bairro: barbeiros elevam o padrão na periferia de Salvador
Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Entre máquina, tesoura e muito bate-papo, as barbearias das periferias de Salvador estão provando que cada profissional pode contruir a sua própria forma de atuar. Uns investem pesado na estrutura, outros apostam na escuta e no acolhimento. No fim das contas, a profissão se molda ao jeito de cada barbeiro, e o bairro cresce junto, porque onde a galera se sente em casa, o movimento é certo.

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