
O mar que banha Salvador não separa, conecta. É nas águas da Baía de Todos-os-Santos que histórias distintas se encontram todos os dias: a de quem comanda embarcações que transportam milhares de pessoas; a de quem atravessa passageiros entre ilhas, em pequenos barcos; e a de quem tira do mar o próprio sustento.
Aos 66 anos, o comandante Lourival de Almeida carrega quase cinco décadas de experiência na navegação. Aos 19, Alexsander Xavier segue uma herança familiar iniciada pelo avô. Já o pescador Eduardo Pereira, de 49, encontra no mar não apenas trabalho, mas a base de tudo o que construiu.
Mesmo sem se conhecerem, eles compartilham o mesmo sentimento: o de um mar que sustenta, ensina e transforma, e que serve de ponto de partida para esta reportagem especial do MASSA! pelos 477 anos de Salvador, celebrados neste domingo, 29 de março.
A origem marítima de Salvador
A capital baiana tem 64 km de orla em sua área continental, número que chega a 105 km ao incluir as ilhas de Maré, dos Frades e Bom Jesus dos Passos.
É nesse mesmo cenário que as histórias de hoje se encontram com as do passado. Segundo o professor de História da Bahia, Murilo Mello, foi pelo Oceano Atlântico que os portugueses chegaram ao território, ligando a Europa ao chamado “Novo Mundo”.
Foi através do mar que Salvador começou a se formar. A Baía de Todos-os-Santos, esse grande porto natural, foi decisiva para que a cidade fosse escolhida como capital [do Brasil Colônia]. Ela oferecia abrigo e condições para o desenvolvimento da cidade.
A tradição de viver do mar também ajudou a moldar a identidade da cidade. “O pescador é parte da identidade de Salvador, assim como os saveiristas, que transportavam mercadorias pela Baía de Todos-os-Santos e pelo Recôncavo”, destacou Murilo Mello.
Uma vida dedicada à navegação

Com quase 50 anos dedicados ao mar, sendo 25 deles como comandante no Sistema Ferry Boat, Lourival construiu uma trajetória marcada por responsabilidade e experiência, desde 1978, quando ingressou na Marinha Mercante.
Da cabine do Zumbi dos Palmares, ele conduz diariamente milhares de pessoas pela Baía de Todos-os-Santos, equilibrando técnica, atenção e respeito às águas que conhece há décadas.
Comandar uma embarcação é uma arte. Uma arte que nos leva a vivenciar o barco, a natureza e o mar, onde tenho vivido uma ótima experiência. A Baía de Todos-os-Santos é linda, com muita diversidade e muitas ilhas. É uma das melhores que já vi.
Lourival de Almeida
Sob seu comando, passam, em média, mais de 15 mil passageiros por dia na travessia Salvador-Itaparica (São Joaquim – Bom Despacho) e no sentido contrário. Em períodos de maior movimento, esse número pode chegar a 45 mil, de acordo com a Internacional Travessias Salvador S.A., responsável pelo Sistema Ferry Boat.
A rotina, no entanto, vai além dos números. Segundo Lourival, transportar milhares de pessoas pelo mar que banha Salvador é uma enorme responsabilidade, que se intensifica em dias de tempestade.
É justamente nos momentos mais difíceis que se forma um verdadeiro marinheiro. “Em períodos de mau tempo, é preciso redobrar atenção e cuidado. [Nesse cenário], aprendo a lidar cada vez melhor com o mar”, declarou.
Momento de tensão: homem ao mar

No início dos anos 2000, Lourival viveu um dos momentos mais críticos de sua carreira após um homem se lançar ao mar, exigindo ação imediata de toda a tripulação. O episódio se tornou inesquecível e até hoje é lembrado pelo comandante.
“Um passageiro se lançou ao mar e tivemos que agir rapidamente para realizar o resgate. Era uma situação delicada, pois ele enfrentava problemas de saúde mental. Colocamos em prática todo o protocolo de ‘homem ao mar’, uma operação que exige precisão, calma e trabalho em equipe. Cada membro da tripulação sabe exatamente o que fazer, e isso faz toda a diferença em situações como essa. Felizmente, conseguimos concluir o resgate com sucesso”, afirmou.
Mas, se o mar cobra nos dias difíceis, também recompensa ao longo do tempo. “Tenho uma boa qualidade de vida. O mar me trouxe estabilidade financeira. Através da Baía de Todos-os-Santos, a gente conquista uma vida saudável”, afirmou.
Herança que atravessa gerações

Se para Lourival, navegar nas águas que banham Salvador foi uma escolha ainda na juventude, para Alexsander Xavier, de 19 anos, o mar surgiu como destino ainda na infância, quando acompanhava o pai nas pescarias, aos 10 anos.
Comecei a ser homem desde cedo. Foi tudo através do meu pai, que vem do pai dele, da época que a casa ainda era de barro, para botar o sustento na mesa.

Hoje, ele transporta passageiros entre São Tomé de Paripe e a Ilha de Maré, cobrando R$ 10 reais, e recorre à pesca para complementar a renda. Mais do que trabalho, o mar moldou sua forma de encarar a vida. “Aprendi a ser forte”.
O sustento que vem das águas

A relação com o mar como fonte de sobrevivência também define a história de Eduardo Pereira, de 49 anos, que aprendeu a pescar aos 9, seguindo os passos dos pais.
Meu pai sempre foi pescador e minha mãe, marisqueira. Aqui, em São Tomé de Paripe, pesco há 20 anos. Com o mar conquistei minha casa, minha família… eu me sustento disso aqui. Se não fosse isso, eu não estaria em vida para contar isso a vocês.
Segundo Eduardo, espécies como dourado, badejo e outros peixes retirados das águas de São Tomé de Paripe abastecem lares, bares e restaurantes, chegando também a bairros distantes, como Itapuã e Piatã, e garantindo o sustento de diversas famílias. Para ele, tudo depende do mar. “Se não for pelo mar, como é que a gente vai levar sustento pra quem compra da gente?”, finalizou.
