
O Carnaval foi bom, deixou memórias, mas partiu. Com o fim da folia a Quaresma chegou com seus desafios e promessas de abstinências. No entanto, com este período de fé, surgem várias dúvidas do que pode e não pode fazer.
O período de jejum deu início nesta semana e segue até a Quinta-Feira Santa, na semana que retrata a crucificação e a ressurreição de Jesus Cristo.
Com o intuito de colocar os pingos nos is, o MASSA! conversou com um padre e um fiel, que explicaram como encaixar o fortalecimento da fé na rotina de trabalho, família e afins. Além disso, também tirou todo questionamento acerca da importância desses momentos de sacrifício para um bem maior.
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Católicos se abstêm de suas vontades
O Brasil ser um país laico e a sociedade, principalmente a baiana, está mergulhada em tradições de várias religiões. Neste intervalo do Natal à Páscoa, o catolicismo fica ainda mais em evidência. Do Carnaval ao momento em que relembra a crucificação de Cristo, são 40 dias, por isso este período é intitulado de Quaresma.
Para dar início aos 40 dias de jejum, o devoto recebe as cinzas, em sua cabeça, a fim de que se lembre de onde veio, do pó, como acreditam os cristãos, a partir de uma embasamento bíblico. No entanto, mesmo quem não passou pelo ritual ou não deu início na data correta, ainda pode passar pela abstinência, segundo o Padre Ângelo Magno Lopes, pároco na Paróquia de Sant'Ana do Rio Vermelho, em Salvador.
Jejum é um exercício de o homem dominar a sua vontade. E há tantas coisas que nós precisamos dominar para não cometermos o mal, o pecado, nem nos transviarmos de Deus.
Padre Ângelo Magno Lopes
"Por isso, o jejum é um exercício para que a gente amadureça e tenha condições de fazer um jejum, eu tenho a condições de fazer, portanto, coisas mais significativas na minha vida em relação a dominar o meu eu, a dominar a minha natureza, a dominar aquela inclinação minha para o mal", explicou o padre Ângelo, acerca da importância da abstinência.

Fé nos dias atuais
Em uma sociedade mergulhada na rotina cansativa do trabalho, redes sociais e vícios do cotidiano, surge a dúvida se ainda existe espaço para o sagrado. O padre Ângelo ressaltou o valor da tecnologia na divulgação da Palavra de Deus, mas pontuou que é preciso "amar a Deus acima de todas as coisas".
"Todo homem, onde quer que ele viva, no tempo e no mundo presente, a ele se exige muitas coisas, mas em tudo ele deve colocar Deus na frente, o seu maior bem, sua maior razão de ser e ver é Deus", destacou o sacerdote católico, quando questionado sobre como conciliar a vida terrena com as exigências espirituais.
Se ele não encontra tempo para Deus, não é amar a Deus sobre todas as coisas. Qual é a mãe que por mais trabalho que tenha, não tenha tempo de amamentar o seu filho?
Padre Ângelo Magno Lopes
Para o fiel Alberto Júnior, que leva a sério a vida de devoção, "o tempo quaresmal não é uma tarefa tão difícil". Ele ainda listou que, para além da abstinência, o período serve para viver, de maneira mais intensa, uma vida de oração e caridade.
"Para nós, católicos, a quaresma é sobretudo um tempo de recolhimento, oração e revisão de vida, vivemos de forma mais intensa não só a caridade material, mas também espiritual que nos leva a ser mais caridoso com o próximo nas palavras e também atitudes. Após revisar sobre tudo isso dentro da minha vida, consigo fazer uma rotina de oração e consigo uma direção de como viver melhor a quaresma", explicou.
Efeitos espirituais
Dedicando-se a cada ano a viver de maneira mais intensa seu propósito religioso, Alberto Júnior destaca que os efeitos são visíveis, principalmente no olhar ao próximo e à forma de olhar o mundo. Para ele, viver essa abdicação das suas vontades não é um castigo, mas um sacrifício, que é como uma "doação, sendo uma escolha de amar mais a Jesus".
"O sacrifício em si é algo que fazemos como uma doação de amor. Eu não gosto, mas quero fazer por amor a Jesus. Isso me faz crescer espiritualmente por confrontar a minha vontade e acaba que me faz crescer como pessoa e traz ordem na minha vida. Não como algo que sou obrigado a fazer, mas escolho fazer por amor", salientou o fiel.

Quaresma virou moda
Em tempos que muita gente tenta viralizar na internet, a sensação é que até o sagrado se tornou motivo para engajamento. Ano passado, o assunto virou trend em redes sociais, como o TikTok. Diversas pessoas utilizavam coisas um tanto quanto fúteis para abstinência.
Embora isso esteja presente na sociedade, essa realidade não parece abalar o fiel Alberto, que foi contundente ao diferenciar os sacrifícios feitos com seriedade.
"A grande diferença é que quando se é modismo as práticas são vazias e superficiais, focadas mais no exterior do que no interior. Nasce do desejo de mostrar ao outro que eu estou fazendo, mas na verdade são práticas que não trazem frutos e conversão verdadeira. A vivência espiritual nasce de um desejo de mudança real, como um ato de amor a Jesus, um desejo de conversão verdadeira, mas focado no interior, pois a boca fala do que o coração está cheio. A vivência espiritual causa transformação de vida", concluiu.
