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Desafios constantes - 27/04/2026, 07:00 - Gabriel Freitas*

Dia dos Empregados Domésticos: realidade na Bahia é de desigualdade

Profissionais ganham menos que outros e enfrentam vários tipos de dificuldade

A Bahia tem 402 mil empregadas domésticas
A Bahia tem 402 mil empregadas domésticas |  Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

Diante de desafios e lutas constantes, os trabalhadoras domésticos são celebrados nesta segunda-feira, dia 27 de abril, data em homenagem a Santa Zita, padroeira da categoria. A profissão é a quinta com mais empregos no Brasil.

Em 2025, 402 mil pessoas trabalham como empregados domésticos na Bahia, o que representa 6,2% da população ocupada na Bahia, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) e do último Censo Demográfico, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Muito trabalho, pouco dinheiro

A realidade destes trabalhadores é cansativa e de remuneração bem abaixo do salário mínimo, aponta o IBGE. Responsáveis por manter lares em ordem, os empregados domésticos têm a pior média salarial da Bahia, com um valor de cerca de R$ 910. O estado é o terceiro com mais desvalorização do Brasil, à frente apenas de Piauí (R$ 785) e Maranhão (R$ 818). Nacionalmente, o valor médio é de R$ 1.367.

Os dados escancaram um problema grave de desigualdade financeira, já que a média salarial de outras profissões na Bahia é de R$ 2.024. Se a comparação for com os empregadores, a situação fica ainda pior. A média salarial dos patrões chega a R$ 4.938.

Essa desvalorização salarial pode explicar a queda no número de pessoas que trabalham na profissão. Em 2012 haviam 433 mil trabalhadores na categoria, na Bahia, e de lá para cá houve uma diminuição de 31 mil empregados domésticos.

Retrato do gênero

O levantamento do IBGE também faz uma revelação importante, para além da questão financeira. Dentre estes profissionais que atuam nos lares, um pouco mais de 96% são mulheres, o que corresponde a 246.265 trabalhadoras.

Dentre estas mulheres, o censo também aponta que 85,6% são pretas ou pardas (210.822, em números absolutos). Ou seja, as mulheres pretas ou pardas representavam 82,2% de todos os trabalhadores domésticos do estado, em 2022.

Sete em cada 10 trabalhadores domésticos não chegaram sequer a concluir o ensino médio (173.942 ou 67,9% do total) - sendo que quase metade (45,8%) não tinha instrução ou não chegou a concluir o ensino fundamental, e só 2 em cada 10 (22,0%) tinham o fundamental completo, mas não haviam concluído o ensino médio. Por outro lado, 3 em cada 10 empregados domésticos tinham ensino médio completo (30,9%), e 1,2% haviam concluído o ensino superior.

Carteira assinada

Apesar da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) ter virado meme nas redes sociais, a garantia de um salário mínimo, férias remuneradas, entre outros direitos da classe trabalhadora é a luta de muita gente. Isso fica ainda mais evidente dentre os trabalhadores domésticos, já que 8 em cada 10 não têm carteira assinada.

Em 2025, a Emenda Constitucional 72/2013, regulamentada pela Lei Complementar 150/2015, que ficou conhecida como PEC das Domésticas, completou dez anos em vigor. A lei equipara os direitos dos trabalhadores domésticos aos dos demais trabalhadores urbanos e rurais. No entanto, na prática, a realidade é outra.

No momento de receber a grana, a falta de ter um carteira assinada escancara o problema. Quem não tem este direito garantido, tem uma média salarial de R$ 768, enquanto os profissionais com 'tudo certinho' ganham, em média, R$ 1.602.

Em entrevista ao MASSA!, em novembro do ano passado, a presidente do Conselho Nacional de Trabalhadores Domésticos (CNTD), fundadora do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos da Bahia (Sindoméstico-BA) e Doutora Honoris Causa eleita pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Creuza Oliveira, denunciou como diversas mulheres vivem situação análoga à escravidão e a justiça não é feita da maneira devida, segundo seu entendimento.

"Ainda têm muitos juízes que fecham os olhos para as trabalhadoras que são resgatadas do trabalho escravo. Uma trabalhadora é resgatada depois de 40, 50 anos de escravidão, e a justiça só dá de indenização 150, 200 mil. Um absurdo, uma pessoa que foi escravizada a vida toda, não teve infância, não teve juventude, não teve vida, o único ambiente que ela conhece é o do trabalho”, bradou Creuza Oliveira.

Creuza Oliveira, presidente do Sindoméstico-BA
Creuza Oliveira, presidente do Sindoméstico-BA | Foto: Clara Pessoa/Ag. A TARDE

Vida de muita luta

Natural de Tanquinho, na Bahia, município a 150 km de Salvador, Ariane de Almeida, 38 anos, moradora do bairro do Bonfim, na capital baiana, criou duas filhas à base de muito trabalho em casas de família. Criada pelos avós, no centro-norte do estado, precisou virar "adulta" ainda na adolescência.

Em busca de uma vida melhor, Ari, como é conhecida pelas pessoas mais próximas, foi para Salvador morar com a tia. Desde os nove anos trabalhando para ter "suas coisinhas", chegou à capital baiana com a empreitada de ajudar a família cuidar dos sobrinhos, diante da rotina exaustiva. No entanto, com apenas 15 anos, a vida deu um baita de um susto: uma gravidez.

Com 16, a adolescente se tornou mamãe, quando deu à luz Viviane, atualmente com 20 anos. Três anos depois, outra filha, Alicia, hoje com 17. Em busca de proporcionar uma vida dignas às meninas, Ariane não cansou de trabalhar.

Quando a mais velha ainda era pequena, o trabalho foi com a bisavó paterna de sua filha. Lá, elas também moravam, já que não tinham onde ficar. O salário, há quase 20 anos, era de R$ 150. À época o salário mínimo era de R$ 350.

Após essa experiência, Ari trabalhou por cerca de 15 anos na casa de outra família. A dinâmica era apertada entre cuidar das filhas, levar à creche, trabalhar e quando chegava em casa, muitas vezes as meninas já estavam dormindo.

"Eu sempre trabalhei como doméstica. O tempo corrido porque tinha que acordar cedo pra deixar na creche [a filha]. Chegava em casa já cansada das obrigações. Eu ia dormir às 19h, porque no dia seguinte eu precisava acordar cedo. Eu sempre tinha que acordar mais cedo para poder arrumar as meninas, deixar na creche, para depois ir trabalhar. Então sempre foi corrido o tempo", relata Ari.

Ariane em sua casa própria, onde mora há oito anos
Ariane em sua casa própria, onde mora há oito anos | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Trajetória marcada por pancadas na alma

Há oito anos em sua casa própria, fruto de um projeto do Governo do Estado da Bahia, sob a gestão do ex-governador Rui Costa, que construiu 144 unidades habitacionais no Bonfim, Ari já passou por muitos desafios para levar o pão de cada dia para casa e ter o dinheiro do aluguel no fim do mês, já que sempre foi a chefa da família.

"De lá pra cá, a maior marca foram as humilhações. Fui muito humilhada, não fui assistida. Em questão de querer sair, já que eu morava na casa. Eu já fui humilhada, posta para fora, mas não pude sair, tive que chorar e aguentar, porque eu não tinha para onde ir, ainda mais com uma filha pequena. Minha vida sempre foi uma vida de sofrimento", descreveu, em meio às lágrimas.

Aspas

Eu já fui humilhada, posta para fora, mas não pude sair, tive que chorar e aguentar, porque eu não tinha para onde ir, ainda mais com uma filha pequena.

Ariane de Almeida
Ariane ficou emocionada ao contar desafios enfrentados
Ariane ficou emocionada ao contar desafios enfrentados | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Em uma relação conturbada com o pai da filha mais velha, Ari foi guerreira ao assumir a responsabilidade de criar Viviane sozinha, sob dias que "não tinha R$ 1 real para o pão", como dito por ela. Já com o pai de Alícia, a relação sempre foi mais tranquila, conforme relato da entrevistada.

Mesmo sendo tudo muito difícil, a trabalhadora doméstica foi atrás de oferecer para as filhas tudo o que não pôde ter. "Eu sempre corri atrás, sempre lutei para poder dar a elas o que eu nunca tive. Nunca pude ter uma merenda, nunca pude ter uma roupa nova, um sapato, uma mochila para ir à escola. O povo criticava já que eu não tinha condições, mas queria dar uma vida de rico, de luxo para minhas filhas", conta a mamãe coruja, que ainda declarou fazer os mesmos esforços pelas crias, mesmo uma já sendo maior de idade.

Atualmente, além de ter as duas filhas, Ari também é vovó de Pietro e Matheus, ambos filhos de Viviane. Na casa própria, todos moram juntos. Os caçulas da família vivem grudados na vovó - ainda muito nova -, para cima e para baixo. Eles não desgrudaram nem na hora da fotógrafa Denisse Salazar registrar algumas das imagens que ilustram esta reportagem.

Ariane brinca com os netos, Metheus e Pietro
Ariane brinca com os netos, Metheus e Pietro | Foto: Denisse Salazar/Ag. A TARDE

Recomeço

Ariane de Almeida passou 15 anos trabalhando para a mesma família, sendo oito de carteira assinada, onde trabalhava de domingo a domingo, a fim de ter direito a um extra do final de semana e dos feriados. Atualmente, está desempregada, vivendo de 'bico'.

Quando questionada sobre os projetos futuros, detalha que não quer mais "trabalhar em casa de família", apesar de deixar tudo na "mão de Deus". O objetivo, segundo Ari, é terminar o ensino médio e conseguir um emprego melhor, que possa oferecer um salário maior.

Diferente de sua trajetória, marcada por muitas lutas, a mulher de 38 anos pega no pé das filhas para que estudem, façam uma faculdade, e consigam gozar de uma vida com mais tranquilidade, sem tantos apertos.

*Sob a supervisão do editor Jacson Brasil

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