
A Bahia foi imersa no mundo da leitura, nos últimos dias, com a realização da Bienal do Livro, entre 15 e 21 de abril, levando milhares de leitores ao Centro de Convenções de Salvador. Com este ritmo de encantamento pelo mundo da literatura, é celebrado neste 23 de abril o Dia do Livro.
Diferentes gerações estiveram presentes no evento. A criançada se divertia buscando livros infantis cheios de figuras e desenhos, outros buscavam clássicos densos e ainda tinha um stand exclusivo do Senado Federal, para aqueles que gostam de se manter inteirados na política.
Professores e estudantes da rede estadual tiveram direito a um voucher de R$ 100 para comprar materiais na Bienal. Já os estudantes da rede municipal puderam gastar R$ 40 em livros ou outros objetos que estivessem sendo vendidos no evento.

Amor pela leitura de avó para neta
A pequena Alice Amaral passeava pela Bienal, na última sexta-feira (17), com toda família. Empolgada com os livros e brindes, a garotinha definiu o evento como "maravilhoso" e se empolgou ao falar sobre as infinidades de opções que tinha para fazer: "Tem cada livro para tudo que é gosto. Tem os grossos, tem os finos, tem os infantis, tem gibis, tem de adolescente, tem mangá, tem de tudo", contou, empolgada.
A empolgação de Alice tinha um motivo: As Aventuras de Mike. Leitora de toda coleção, a pequena esperava ansiosamento pela apresentação dos criadores do universo, Gabriel Dearo e Manuela Digilio, que estiveram em um dos dias da Bienal do Livro.
Quando questionada sobre de onde surgiu o amor pelo mundo fantástico da leitura, Alice não titubeou. A garota, com empolgação, apontou para a avó, a professora aposentada Vera Lúcia Bonfim. Orgulhosa, a vovó não escondia a felicidade de ver a netinha tão empolgada.
O maior legado que a gente pode oferecer aos nossos descendentes, nossos netos, nossos filhos, é justamente a cultura. E a leitura é uma viagem indefinida
Vera Lúcia Bonfim - Professora aposentada
"Nós precisamos incentivar mais os nossos jovens de hoje para a leitura, que eles estão muito presos a pequenas coisas no celular e estão esquecendo de ler", disse Vera, que se declarou apaixonada por Jorge Amado, especialmente pelo livro Tieta, e José Saramago.
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Momento de emoção
Os amigos Aila Bruna, de 21 anos, e Matheus Batista, 22, estudantes de Produção Cultural, realizaram um sonho ao conhecerem o escritor Victor Martins. Para o jovem, a Bienal foi um momento perfeito para ele contar ao artista o peso de sua escrita.

"O livro Um Milhão de Finais Felizes, do Victor Martins, fala muito sobre autoaceitação e sobre pessoas LGBT e seus pais, assim a grosso modo. É um livro que eu tenho um carinho muito grande e eu recomendo para todos os meus amigos. Eu digo que foi a porta de entrada para eu me entender um pouco. E hoje foi um dia muito especial, porque eu pude conhecer a pessoa que escreveu ele. Então foi muito emocionante", descreveu Matheus.
Já Aila, além de conhecer o escritor, foi bater perna pelo evento em busca de pegar livro em conta, além de caçar alguns autógrafos. A jovem conta que seu primeiro contato com os livros foi com 8 anos. Inicialmente, o encanto começou com as capas das obras, e, de lá para cá, "a estante só cresce".
Professora orgulhosa dos alunos
Responsável pelos estudantes da Escola Estadual Alberto Valença, a professora de história Maiara Coutinho, de 26 anos, foi celebrada pelos alunos quando entrevistada. "A leitura é muito importante para eles que vivem imersos na tecnologia o tempo todo. Ver os livros, escolher títulos, se torna muito importante para que eles passem a ser consumidores de livros. Precisamos de mais leitores".

"Quando trazemos eles para o mundo da leitura, a gente consegue abordar os temas que eles gostam, entender que tipo de leitura desperta a curiosidade deles. E aqui eles estão em vários lugares ao mesmo tempo. Então a gente consegue puxar isso na sala, conversar com eles sobre as leituras que eles fizeram, os livros que eles compraram, fazer uma leitura coletiva, compartilhar", acrescentou a professora Maiara.
Garotada empolgada
Os estudantes da rede estadual compareceram em peso na Bienal do Livro Bahia. As garotas saíram de Alagoinhas com os colegas para caçar livros bons e baratos. No caso de Alice Araújo, de 17 anos, o interesse em conhecer o grande centro de leitura do Nordeste veio a partir de um grupo de pesquisa, o "Afrociência", da própria unidade de ensino.

Já Isabelle Yohana, de 17, também de Alagoinhas, demonstrou muita alegria de estar na Bienal pelas diversas opções que estavam à venda. "Para mim está sendo ótimo porque, de antemão, eu não gostava de ler até que comecei a ter contato com os livros. E para mim está sendo ótimo porque tem uma grande afinidade de livros, vários gêneros que a gente fica louco", contou.
Alana Nobre, estudante do 3º ano do ensino médio, no Colégio Estadual de Tempo Integral de Vila de Abrantes (CETIVA), em Camaçari, compartilhou o amor por Harry Potter, influência do irmão mais velho.
"Eu já sou leitora desde criança. Eu lia Harry Potter, eu tenho o box de Harry Potter. Lia bastante Diário de um Banana também. Então eu vim hoje procurar, garimpar mesmo, não vim num ramo específico", disse a estudante.
Leitura no desenvolvimento infantil
No mundo da tecnologia, a ferramenta não é um rival, mas uma aliada do interesse pela literatura, conforme a psicopedagoga Jaci Cruz. A profissional explica que o ideal é propor "experiências que a tela não substitui".

"Primeiro, vale entender que o hábito de leitura nasce muito mais do exemplo do que da obrigação. Quando a criança vê adultos lendo (livros, revistas, até receitas), ela passa a enxergar isso como algo natural, não como tarefa escolar. Ao mesmo tempo, dá para integrar o digital de forma inteligente", explica a psicopedagoga, destacando que a leitura não pode ser vista como castigo.
A profissional explica que a iniciação precoce da criança no mundo da leitura pode trazer benefícios fundamentais, como:
➡ desempenho escolar;
➡ criatividade;
➡ autonomia.
Quando a leitura entra cedo na vida de uma criança, não é só um hábito escolar, passa a moldar a forma como essa criança pensa, sente e se relaciona com o mundo ao longo dos anos.
Jaci Cruz - Psicopedagoga

Bahia protagonista na leitura
Formado em Letras e Literatura Brasileira, o diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), Sandro Magalhães, contou ao MASSA! os esforços feitos para democratizar o acesso à leitura no estado da Bahia. Diferente de sua história, que não teve acesso a livros na primeira infância, ele agradece "a oportunidade de gerir essas políticas no estado".

Para além da Bienal, que acontece a cada dois anos, o gestor destacou projetos da FPC, durante sua gestão, para que pessoas, em diferentes idades e territórios, sejam alcançados pela leitura:
➡ Feiras Literárias: "No ano passado, apoiamos a realização de mais de 100 feiras literárias na Bahia, promovendo a formação de novos leitores e a celebração do livro nas cidades";
➡ Projeto Leve e Leia: "Distribuímos mais de 30 mil livros, gratuitamente, em eventos literários para que o livro chegue à casa das famílias baianas";
➡ Aquisição de Acervo: "A Fundação adquiriu mais de 15 mil livros de autores e editoras baianas, destinando-os a bibliotecas municipais, comunitárias e espaços de leitura";
➡ Catálogo "Bahia de Todos os Livros": "Levantamos as publicações de 2025 no estado, contabilizando mais de 1.300 livros publicados, que farão parte deste catálogo a ser lançado no dia 27, aniversário da Fundação".
Em busca de conhecer ainda mais o leitor baiano, Sandro contou que a FPC, junto à Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), vai "percorrer todos os territórios da Bahia com questionários e pesquisadores, levantando dados a partir de perfis etários e de escolaridade. Teremos um diagnóstico completo sobre o acesso à leitura no estado a partir dessa pesquisa solicitada pela Fundação".
