Um espaço de educação tem sido uma verdadeira ponte para o empreendedorismo de adolescentes que estudam da rede pública da Bahia. Alunos do Colégio Estadual Clarice Santiago dos Santos, no bairro Arenoso, em Salvador, deixam as conversas nos corredores de lado e mergulham em oficinas para iniciar os próprios negócios e, assim, garantirem uma fonte de renda para a família.
As oficinas acontecem no turno oposto ao que precisam estar em sala de aula, e é nesse momento que surgem ideias que podem transformar o futuro de uma família por meio do empreendedorismo. Com apenas 17 anos, a jovem estudante Clara Almeida colocou em prática o que aprendeu na oficina de moda e cricou a própria marca, a Cocada Fashion.
A gente não queria uma marca comum, queria uma que ficasse na cabeça das pessoas
Clara Almeida
A estudante do segundo ano do ensino médio revelou ao MASSA! que o nome inusitado surgiu por causa do temperamento da mãe, que também marca presença nas oficinas e divide com ela a produção e admnistração da marca. "Veio várias ideias de como a gente iria criar uma marca que tenha o toque da gente. A gente não queria uma marca comum, queria uma que ficasse na cabeça das pessoas 'Por que Cocada?', e a gente veio com essa ideia de fazer o suspense", disse.

Para tirar a Cocada Fashion do papel e colocar o negócio em prática, além do conhecimento adquirido nas oficinas do colégio, foi necessário um investimento de cerca de R$ 200. O resultado já é um sucesso para elas: com bolsas que custam entre R$ 170 e R$ 200, as vendas já têm sido suficientes para repor estoque e fazer novos produtos.

Aos 50 anos, dona Rose é sócia da filha e presença constante nas oficinas da escola, e por isso também trabalha na confeção das bolsas. Os itens, confeccionados a partir de sobras de doações, geram faturamento mensal para a família, composta por quatro pessoas, que mora na mesma comunidade quilombola em que o colégio está localizado.
"Criou sim [renda extra]. A gente trabalha fazendo essas bolsas toalha, que também são bolsas de praia. A toalha se transforma em uma bolsa", iniciou.

"Fiquei encantada e aí comecei vindo como quem não quer nada, e hoje já tenho várias peças criadas por mim", concluiu dona Rose.
Alunos colocam o que aprendem em prática e ganham dinheiro
Não é só Clara que já colhe os frutos de começar o o próprio negócio e empreender desde a adolescência. Integrantes da Voz Ativa, agência de notícias da escola, ajudam a divulgar nas redes sociais os trabalhos produzidos no Colégio Clarice Santiago dos Santos, mas também levam para a vida o que aprendem na prática no dia a dia, e assim conseguem ganhar dinheiro com trabalhos feitos fora do ambiente escolar.
Alann Santana, de 17 anos, passou a integrar a equipe da agência há pouco mais de um ano e, desde então, se apaixou pela mundo da fotografia e resolveu fazer dele a sua fonte de renda, chegando a trabalhar em eventos esportivos e com ensaios fotográficos. "Abriu muitas portas e financeiramente ajudou bastante, porque abrindo portas eu posso aumentar minha renda", contou ao MASSA!.

A dupla Gabrielly Santos, de 15 anos , e Kathleen Nascimento, de 16, também já consegue colocar em prática o que aprende no dia a dia como integrante da agência de notícias da escola.
Com o projeto eu consegui ter uma profissão e aprender várias coisas da área de comunicação
Gabrielly Santos

Já Kathleen, além de já ganhar dinheiro como videomaker em eventos externos, também projeta um futuro como jornalista. "A agência me ajudou a aprender melhor a editar, roterizar, e a partir disso comecei a atuar como videomaker fora da escola, o que ajudou na minha vida financeira", contou a jovem.

Em um outro canto do colégio, Maiane Cruz Cerqueira, de 15 anos, participa da oficina de moda e destaca como o que aprende nas aulas tem a ajudado a transformar sonhos em dinheiro.

"Muitos de nós não acreditavam que o ateliê pudesse nos levar para os lugares que está nos levando. E a gente está vendo que é possível sim levar essa experiência daqui lá pra fora", celebrou a garota.

Colégio é ponte para futuro empreendedor
À frente da unidade escolar desde 2024, o diretor Marcos César Guimarães destaca o trabalho feito no local como forma de potencializar os jovens da comunidade ao mundo do empreendorismo. Ao todo, as oficinas têm mais de 100 alunos, que estudam no horário oposto ao encontros dos laboratórios; o número representa pouco mais de 10% do número total de estudantes matriculados.
A ideia é aumentar ainda mais esse número com o curso de administração, em parceria com o Sebrae, que é realizado no colégio. "Começar a atender a comunidade, pequenos negócios, os micro empreendedores que muitas vezes não têm essa orientação de como desenvolver o seu negócio, e aí a escola vai começar a prestar apoio à comunidade", explicou Marcos ao MASSA!.

Uma das coordenadoras da agência Voz Ativa, Sabrina Bispo destaca que o espaço busca fortalecer e ampliar a visão no que diz respeito ao mundo profissional.
Ser um empreendedor, ter o seu o próprio negócio, mas já consegue criar estratégias de comunicação para conseguir alcançar o público que deseja
Sabrina Bispo

Ingrid Lago, também coordenadora da agência Voz Ativa e professora de teatro, defende que a escola seja uma ponte para que os jovens possam enxergar no empreendedorismo um perspectiva de futuro melhor.
"Acho que a nossa função é dar eles o máximo de ferramentas para experimentar coisas e para que a partir daí eles possam decidir: 'Ah, eu quero ser da comunicação, eu quero trabalhar com costura, eu quero trabalhar com barbearia'", disse. "Eu acho que a escola tem que ser esse lugar de experimentação do mundo", projetou a professora.
