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Destemido - 31/01/2026, 07:00 - Dara Medeiros

Cria de Salvador luta na guerra da Ucrânia para dar vida melhor à mãe

Homem de Cajazeiras relatou vivências e desafios que tem enfrentado na gringa

Baiano de Cajazeiras ganha a vida lutando na guerra da Ucrânia
Baiano de Cajazeiras ganha a vida lutando na guerra da Ucrânia |  Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

Imagine sair do calor de Salvador para enfrentar baixas temperaturas enquanto luta na guerra da Ucrânia, sem a mínima certeza de que conseguirá voltar para casa um dia. A violência no Brasil é grande, mas não se compara com o cenário de destruição e morte que Carlos Albert Santos, um cara comum de Cajazeiras que decidiu embarcar nesse trabalho desafiador, encara todas as vezes que precisa combater a Rússia.

Diferente dos soldados ucranianos e até mesmo russos que foram convocados para defender o seu próprio país, Carlos Albert, de 34 anos, era apenas um trabalhador baiano, sem experiência alguma com o militarismo e táticas de guerra, quando recebeu o convite de um amigo e tomou a decisão de mudar de vida. Ele está nesse propósito há seis meses.

Baiano está na Ucrânia há 6 meses
Baiano está na Ucrânia há 6 meses | Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

A maior motivação dele foi o retorno financeiro, pois tudo o que Carlos queria era dar melhores condições para a mãe. Ele tem 11 irmãos por parte de pai, mas não convivia com nenhum, então todo o apoio que recebeu ao longo da sua trajetória veio de dona Ana Lúcia.

Aspas

Só tenho a minha mãe por mim, que é meu alicerce para me manter aqui na guerra até hoje

Carlos Albert tem a mãe, dona Ana Lúcia, como motivação
Carlos Albert tem a mãe, dona Ana Lúcia, como motivação | Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

“Eu só tenho a minha mãe por mim, que é meu alicerce para me manter aqui na guerra até hoje, em termos de salário, para poder mandar para ela todo mês no Brasil”, explicou ele em entrevista ao MASSA!.

A ligação entre mãe e filho é tão forte que ele preferiu esconder que iria para uma guerra e disse para Ana Lúcia que seria trabalhador imigrante na França. A verdade só foi revelada quando o soteropolitano chegou na base militar, para que ela não impedisse a viagem devido à preocupação.

Ao ser questionado sobre o que acha da guerra da Rússia e Ucrânia, ele analisou a situação: “Hoje a guerra não é mais por poder, é uma guerra financeira. Aqui na Ucrânia você pode observar que a corrupção é muito alta, então a guerra hoje não é mais por espaço”.

A transformação do correria em soldado

Carlos Alberto é de Fazenda Grande 4, em Cajazeiras
Carlos Alberto é de Fazenda Grande 4, em Cajazeiras | Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

Nascido e criado em Fazenda Grande 4, o baiano correria que está na guerra da Ucrânia era vendedor em uma empresa de produtos químicos em Pirajá, mas já passou por várias funções antes disso. Formado em educação física, ele atuou como instrutor em academias, trabalhou como motoboy e também como vendedor em outras empresas.

A transformação para ser um soldado foi na marra, se capacitando pouco antes de ir para o combate e aprendendo na prática.

“Quando você chega aqui na Ucrânia, eles te dão um preparo de dois meses intenso. Você fica dois meses internado, sem celular, sem contato com ninguém, só treinando. Após isso, você se prepara para ir para a guerra”, falou.

Carlos Albert passou por treinamento pesado antes de ir para o front
Carlos Albert passou por treinamento pesado antes de ir para o front | Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

Mesmo com tantos desafios, a valorização salarial como soldado na gringa compensa todo risco. Carlos Albert não se vê voltando a morar na sua terra natal depois de ter experimentado uma nova realidade.

“No Brasil, minha remuneração era de R$ 2 mil e poucos, aqui eu consigo tirar R$ 6 mil normal e quando eu vou para a batalha, para o front, eu consigo tirar R$ 12 mil. Então para mim, que sempre gostei de aventura, isso aqui é o ideal. Sou remunerado e faço o que eu gosto”, declarou ele.

A rotina na Ucrânia

Atualmente, Carlos Albert Santos tem uma rotina bem diferente do padrão brasileiro. Apesar de não estar em zona de guerra sempre, ele e os outros soldados ficam em estado de alerta todo santo dia, aguardando serem convocados para novos embates.

Um dos momentos mais impactantes para o baiano foi quando ele pensou que iria morrer em combate: “Houve um ataque que ocorreu quando estávamos próximos ao bunker, a artilharia caiu pesada em cima o tempo todo com míssil de drone, que se chama drone FPV, eles vão sobre você e soltam bombas. Nesse dia eu falei: meu Deus, eu não volto mais não. Mas acaba que a gente tem um treinamento que se baseia muito em sobrevivência”.

Aspas

O que me salvou da morte foi a vontade de querer estar aqui e a coragem

A rotina na base militar ucraniana é feita de altos e baixos
A rotina na base militar ucraniana é feita de altos e baixos | Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

Como não são todas as áreas da Ucrânia que foram atingidas pelos conflitos armados e bombardeios, uma boa parte da população vive em uma sensação de falsa paz. Se não fossem os alarmes que soam para mandar os cidadãos irem ao bunker quando há riscos de ataque, algumas cidades seguiriam normalmente.

“O pessoal pensa no Brasil que aqui na Ucrânia é guerra o tempo todo, mas não é guerra o tempo todo. Tem lugares aqui na Ucrânia que a guerra acontece realmente, mas tem cidades tranquilas”, pontuou.

A língua, a culinária e o frio foram definidos como “difíceis” por Carlos, mas a adaptação acaba acontecendo naturalmente, pois é preciso resistir. Como a base militar em que o cria de Cajazeiras está é repleta de brasileiros, isso facilita a convivência.

Quando consegue uma folga, ele tenta relaxar a mente. “Dias de final de semana, como sábado e domingo, a gente pode sair da base, a gente pode comer uma coisa diferente e beber, mas não pode ficar embriagado, porque aqui é uma base militar, então você tem que manter o padrão”, revelou.

Dá para relaxar a mente em momentos de folga
Dá para relaxar a mente em momentos de folga | Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

Outro ponto importante para mantê-lo de pé é o carinho do povo ucraniano: “A população daqui é mais branca, então como seu sou considerado pardo ou negro aqui, o pessoal sabe que a gente é militar. Chega nos lugares, o pessoal abraça você, tira foto, agradece, se oferece para pagar a sua compra no mercado, eles são bem receptivos”.

Um futuro de esperança

As marcas deixadas pela guerra não impediram o baiano Carlos Albert de sonhar. Ele traçou planos para quando o serviço militar acabar e pretende continuar escrevendo a sua história fora de Salvador.

No momento, ele almeja continuar servido ao exército da Ucrânia: “Quando acaba a guerra, o governo ucraniano mantém a gente aqui porque tem que reconstruir as cidades e tem que fazer a segurança das fronteiras, então o serviço não acaba”.

Carlos Albert tem esperança de um futuro melhor
Carlos Albert tem esperança de um futuro melhor | Foto: Reprodução/Instagram @otaldoalbert

Carlos também compartilha um pouco das suas vivências nas redes sociais, mas com cautela para não mostrar nada que permita a base militar ser identificada. No geral, ele prefere mostrar fotos do front ou em locais fechados.

Às vezes, o ex-morador de Cajazeiras é acusado por internautas de mentir que está na Ucrânia, mas não leva as críticas para o coração: “Respondo de forma divertida às vezes, falo, não me estresso, sei que pior do que aqui não tem não".

Suas metas de hoje são basicamente tirar velhos desejos do papel que as condições que ele tinha quando ainda estava em território brasileiro não permitiam.

“Meus sonhos são deixar minha mãe bem no Brasil, manter meu padrão financeiro, que eu sempre almejei, ter meu carro, ter minha casa, ter minha moto, ter uma estabilidade financeira legal e futuramente família, ou aqui na Ucrânia ou ou em outro país, menos no Brasil. Acho que no Brasil hoje não me encaixo mais não”, concluiu.

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