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Salvador 477 anos - 28/03/2026, 09:00 - Vinicius Portugal

Cocô pela janela e Darwin no Carnaval: curiosidades da Salvador antiga

Historiador revela fatos curiosos e pouco conhecidos sobre a capital baiana

Salvador do século XIX
Salvador do século XIX |  Foto: Reprodução/Guia Geográfico Cidade do Salvador

Neste domingo (29), Salvador irá completar 477 anos de fundação. Com muitas histórias e alegrias, a capital de todos os baianos e a primeira capital do Brasil guarda diversas curiosidades - desde o Centro Histórico, Cidade Baixa e Cidade Alta - que muitas pessoas desconhecem.

O historiador e curador Rafael Dantas bateu um papo com o MASSA! e comentou sobre alguns assuntos pouco explorados sobre Salvador. Por exemplo, algo que sempre chama atenção de quem não é soteropolitano são os nomes dados para algumas localidades, como é o caso do Pau Miúdo e da Ladeira da Preguiça, que inclusive dão nome a músicas.

Rafael explica que os nomes de ruas e ladeiras de Salvador carregam uma peculiaridade de se moldarem conforme o gosto popular ou pontos de referência.

“Os nomes das ruas e ladeiras de Salvador seguem a ideia de um dinamismo popular. Algumas ladeiras e nomes de ruas foram nomeadas com nomes oficiais, mas o que prevaleceu ao longo do tempo foi justamente o caráter popular. A forma como essas pessoas, em cada época, nomeavam de acordo com a geografia, com o contexto de vendas, de habitações, do espaço, as características urbanas”, destaca o historiador.

Historiador e curador, Rafael Dantas
Historiador e curador, Rafael Dantas | Foto: Reprodução

Elevador Lacerda

Falando em nomes icônicos de Salvador, não podemos esquecer do Elevador Lacerda. Porém, nem sempre esse foi o nome de um dos maiores cartões-postais da capital baiana. Antigamente conhecido como Elevador Hidráulico da Conceição ou, popularmente, chamado de Elevador do Parafuso, o nome foi modificado graças a uma homenagem proposta pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia ao seu criador, o português naturalizado brasileiro, Antônio Francisco de Lacerda.

“Quando as pessoas pegavam o Elevador Lacerda, elas tinham que ser pesadas. Todo mundo era pesado antes de entrar nas cabines para pegar o elevador. Isso por conta do sistema vigente naquele período, era uma das exigências. Na segunda metade do século 19, quando passa pelas melhorias e depois a eletrificação, não é mais necessário”, diz Rafael Dantas.

Elevador Lacerda é um dos principais cartões postais de Salvador
Elevador Lacerda é um dos principais cartões postais de Salvador | Foto: Rafaela Araújo/AG. A Tarde

Bondinho puxado por animais

Próximo ao Elevador Lacerda, também temos o Plano Inclinado, um dos principais pontos turísticos de Salvador, que interliga a Cidade Baixa à Cidade Alta de forma elétrica. No entanto, nem sempre foi assim que o bondinho funcionava.

No século XIX, o bondinho era puxado por humanos ou animais, especialmente burros, algo que foi caindo em desuso, principalmente pelos maus-tratos aos bichinhos, que precisavam carregar toneladas todos os dias sem parar.

“O atual Plano Inclinado é elétrico e, antes dele, tínhamos os guindastes, que eram movidos tanto por animais como por força humana, isso na época da Colônia. Os bondes puxados a burro também surgem nesse momento, segunda metade do século XIX, ficam no espaço urbano de Salvador. Era, por um lado, um avanço tecnológico e, por outro, também uma característica muito rudimentar daquele período. Afinal, eram traçados, puxados por animais, por equinos, e era muito sofrimento, especialmente quando passavam por regiões mais íngremes. Existiam muitas reclamações do tratamento que era dado aos animais e do próprio contexto em que a cidade estava inserida. Afinal, precisava de melhorias urbanas e não tinha todas as condições no seu espaço urbano para receber esses avanços tecnológicos que estavam sendo prospectados naquele período”, explicou.

O Plano Inclinado interliga a Cidade Baixa à Cidade Alta
O Plano Inclinado interliga a Cidade Baixa à Cidade Alta | Foto: Joá Souza/AG. A Tarde

Passagens secretas

Salvador também carrega consigo uma história em seu subterrâneo. Isso porque o subsolo soteropolitano era utilizado para diversas situações, desde possíveis rotas de fuga até guardar riquezas ou até mesmo como simples dutos de água, como explica o historiador Rafael Dantas.

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“Salvador, originalmente, nasce como uma cidade fortaleza e, por ter sido capital da América Portuguesa, de 1549 até 1763, era uma cidade que desfrutava de grande prestígio e grande poder econômico. Então, evidentemente, algumas casas, alguns sobrados ou mesmo templos religiosos possuíam espaços para guardar suas riquezas ou possíveis rotas de fuga. Não quer dizer que isso foi utilizado, mas esses espaços chegaram a ser construídos. Em alguns templos existem, evidentemente, vias, dutos, túneis, mas não necessariamente como algo voltado para guardar riquezas ou para rotas de fuga em situações de sinistro, mas sim, em muitos casos, eram dutos de água, passagens para outros fins ou mesmo parte da estrutura que suportava esses templos”, destacou.

Ele ainda complementa: “Nomes como Teodoro Sampaio, entre outros, chegaram a se aventurar, inclusive, nos túneis existentes na região do Centro Histórico e catalogaram diversos dutos na região do Taboão, Pelourinho, Terreiro de Jesus e em muitas outras igrejas de Salvador, na Cidade Baixa. Mas, por conta das modificações feitas ao longo do tempo, nem todos os espaços foram possíveis de serem visitados ou restaurados”.

Costume nojento

Atualmente, Salvador possui mais de 90% de cobertura de rede de esgoto. No entanto, até a metade do século XIX isso não existia. Tal qual se via nos livros de história sobre Lisboa ou Londres, na Terra de Todos os Santos também era comum que se jogassem todos os dejetos na rua, acumulando uma enorme sujeira pelas vias.

Também era necessário tomar todo cuidado possível ao andar na rua, pois, a qualquer momento, você poderia receber um balde de dejetos na cabeça, já que era comum que fossem jogados pela janela.

Visita ilustre

Pouca gente sabe, mas o responsável pela teoria da evolução por seleção natural, o britânico Charles Darwin, fez uma visitinha a Salvador — e, digamos, não curtiu muito a algazarra na capital baiana.

“Darwin, por exemplo, quando visita Salvador em meados do século XIX, pega uma cidade na época carnavalesca e ele não gostou do carnaval, como registrou em seu diário. Ele achou a festa não adequada, vamos dizer, aos padrões aos quais estava acostumado. Mas ele adorou a natureza, adorou o meio ambiente como um todo de Salvador, a vegetação, os animais. Achou a cidade bonita. Entretanto, a festa em si, aquela parte mais carnavalesca mesmo, da brincadeira, ele não gostou tanto assim, não”, destacou o historiador.

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