
Ao longo dos anos, Salvador se estabeleceu como a cidade dos sonhos para quem quer viver de música. De um canto a outro da cidade, artistas buscam diariamente formas diferentes de transformar sua arte em um negócio sustentável ao longo do ano, muito além do que se faz no verão ou no Carnaval da cidade.
Quando se pensa nesse processo, as imagens que normalmente passam pela cabeça são as dos grandes festivais, clipes super produzidos ou até mesmo de shows em barzinhos. Mas quem pensa assim se surpreende ao descobrir que, às vezes, o sonho de uma cantora pode se fortalecer dentro de um restaurante.
Localizado aos fundos da Cantina Buoni Amici, no bairro Pituba, o estúdio Mafia Records é um verdadeiro templo musical. Apesar do nome remeter às famosas organizações criminosas da Itália, não existe nada de ilegal no que é feito no local. Quem abre a porta do lugar é uma das artistas que usufrui do espaço para o fortalecimento de sua carreira. Com uma jaqueta laranja e um sorriso fora do comum, Andrezza Santos abriu as portos como o tipo de pessoa que anima qualquer ambiente que chega.
Entrando no estúdio, a primeira coisa a ser notada são as paredes decoradas com discos de Bob Marley, Raul Seixas e The Beatles. É como se os titãs de gêneros musicais distintos vigiassem o que é produzido no local. Proposital ou não, essa escolha estética casa perfeitamente com o trabalho de Andrezza, que é uma junção entre Rock, MPB e outras influências sonoras.
A “mistureba” em suas canções é um reflexo inconsciente das diferentes origens da artista. Apesar de sua mãe ter nascido no município de Uauá, na Bahia, a cantora nasceu em São Paulo. Na adolescência, voltou ao Nordeste, mas nunca fincou raízes na região. Uauá, Petrolina e Juazeiro foram algumas das cidades em que ela já morou. Essa última foi a que passou mais tempo, antes de se mudar para Salvador há três anos.
A escolha de vir para a capital do estado foi motivada por seu desejo de investir na carreira artística. A relação com a música nasceu na infância, quando seu pai a colocou em uma aula de violão ainda aos 6 anos de idade. O que antes era apenas um hobby ganhou novos contornos quando, em 2010, ela participou do programa Cantando no SBT. Ao receber seu primeiro cachê, Andrezza já havia notado que sua carreira estava prestes a nascer.
“Depois da minha participação nesse programa, comecei a trabalhar com uma produtora. Foi aí que eu comecei a entender, sendo adolescente, essa questão de como essa engrenagem funciona, da produção cultural, vender um show, ter os materiais organizados, cuidar da parte artística, ter foto, cuidar de um visual. Isso tudo foi muito novinha, eu não entendia muito, eu fui aprendendo a partir da experiência”, explicou.
Não era só um hobby, era negócio
Essa fagulha de amadurecimento se alastrou aos 19 anos, quando ela participou de um encontro de músicos em Petrolina. O objetivo da reunião era a possibilidade da criação de um sindicato para cantores no Vale do São Francisco. Durante as conversas, um dos temas debatidos foi a importância do cadastro como Microempreendedor Individual (MEI). Foi a partir desse dia que a paulista com alma baiana percebeu que a música era, antes de tudo, um negócio.
Depois que abri meu MEI foi que eu entendi que são outros processos
Andrezza Santos, cantora

Apesar de ter um cadatro como MEI, Andrezza ainda passou alguns anos trabalhando de forma convecnional, por carteira assinada, dando aulas de música em uma instituição de ensino. Benefícios como o salário certo no fim do mês, férias e o seguro desemprego fazem falta, mas o desejo de investir em sua trajetória autoral acabou falando mais alto. “Não foi uma decisão fácil. Eu precisei me organizar para isso por pelo menos uns seis meses para tomar essa decisão, porque não foi só a decisão de sair do CLT para ser MEI, foi a decisão ser MEI em Salvador”, acrescentou.
A decisão de “ser chefe de si mesma” trouxe novas responsabilidades. Se antes a artista se preocupava apenas em chegar no horário, agora existem uma série de obrigações legais que ela deve cumprir. O aprendizado para lidar com isso veio de uma mistura entre pesquisa na internet, oficinas gratuitas e vivências pessoais. Atualmente, ela divide sua caneta entre as contas do mês e as composições musicais.
“Sempre fui eu que cuidei dessa parte, mas busco profissionais para me ajudar em algumas coisas que eu não entendo, porque são questões que se atualizam com muita frequência, como imposto e tudo mais. Às vezes você está ali fazendo uma conta e vem a ideia de uma música, aí você tem que resolver a conta para depois produzir”, contou.

Conforme sua carreira vai crescendo e atingindo novos patamares, as demandas tendem a crescer e os alinhamentos precisam ficar cada vez mais bem definidos. Quando Andrezza sobe no palco, ela não está indo sozinha, mas também carregando uma cadeia de profissionais que são necessários para fazer o show acontecer. Depois que as cortinas se fecham e o espetáculo acaba, o que resta é a parte jurídica que precisa ser resolvida, seja como prestadora de serviço ou como contratante.
“Quando são eles [contratantes] que solicitam, a gente emite nota fiscal. Quando a gente está solicitando o serviço de alguém, como já aconteceu de eu contratar uma equipe de produção audiovisual para estar comigo, eles emitem a nota para mim. Dessa vez otimizou, porque está tudo sendo feito pelo GOV, então facilita. Antes, cada prefeitura tinha sua plataforma, era uma burocracia danada”, explicou sobre o processo.
Além da parte financeira, Andrezza também se tornou responsável por gerenciar os direitos de sua própria imagem. O processo de registro da marca Andrezza Santos começou há dois anos e suas produções já são protegidas pelas leis de direitos autorais. Em relação ao cuidado com as músicas, Andrezza tem uma ajudinha de especialistas. “Tem uma agregadora [musical], no meu caso eu sou da UBC, eu registro todas as músicas lá. Então se uma música minha passar na TV, numa novela ou em um filme, o ECAD entra em contato com a UBC e ela repassa o valor para mim”, detalhou.
Uma caverna na Boca do Rio
O Mafia Records não é o único recanto soteropolitano frequentado por quem quer tirar sua carreira musical do mundo das ideias. No topo de uma ladeira na rua Jayme Sapolnik, na Boca do Rio, um estúdio se consolidou como um negócio financeiramente sustentável e um ponto de encontro para artistas da região.
A estrutura da frente — que vira e mexe é utilizada como palco para shows — originalmente era utilizado como um bar. Dentro da parte coberta, enquanto se protegia do sol, uma senhora se sentava calmamente enquanto bebia sua cerveja. Aos 79 anos de idade, Dona Neuza não seguia nenhum estereótipo associado às pessoas mais velhas. Com um vestido estampado e uma energia digna de uma criança, seu vocabulário fazia contraste direto com a imagem de doce senhorinha.
A cada três palavras, quatro eram palavrões. Apesar de chocar qualquer um à primeira vista, os xingamentos não tinham o intuito de ofender, sendo utilizados apenas como um meio de expressar sua própria identidade. O palavreado de baixo calão dava espaço a um discurso cheio de orgulho quando o assunto se tornava seu filho, Carlos, criador do estúdio Caverna do Som, que hoje em dia se localiza embaixo da casa de Dona Neuza.

Pouco tempo depois, o tema da conversa chega na casa de sua mãe que, curiosamente, também é seu trabalho. Enquanto organizava as coisas dentro de sua “caverna”, o homem relembrava o início de seu empreendimento e como ele ficou conhecido pelo nome artístico Irmão Carlos Psicofunk. A ideia surgiu em 1998, quando ele e sua banda precisavam de um local para ensaiar suas músicas e realizar gravações.
Sem recursos financeiros para reservar um estúdio, o cantor decidiu que iria construir o seu por conta própria. Pegando um cômodo na laje de sua mãe, que ainda estava em construção, Carlos cobriu todo o espaço com carpetes pretos. Além de utilizar o espaço com a banda, o baiano decidiu alugar o ambiente para outros grupos. Com o tempo, o negócio foi ganhando o boca a boca do público, e a cena musical — especialmente do rock — na Boca do Rio foi crescendo, agora que havia um lugar dedicado a músicos que buscavam investir em suas carreiras.
“Eu pegava o equipamento do estúdio no domingo e colocava no boteco de Dona Neuza, que é na mesma casa, só que na frente".
Ou seja, da mesma ideia, eu criei um ecossistema para funcionar e eu não depender de outras pessoas
Carlos Psicofunk

“Era um jovem preto na periferia fazendo rock ‘n roll na Bahia. No Rio Vermelho não tinha como eu participar, não tinha como eu hypar. Aí eu resolvi fazer tudo aqui. No boteco eu fazia o show, no estúdio eu ensaiava, as outras bandas ensaiavam e pagavam, a gente fazia os shows lá fora no bar, o bar vendia e ajudava a pagar o som”, continuou.
O grande diferencial da Caverna do Som é seu preço acessível, que na época cobrava apenas R$ 5 por 1 hora de utilização. Conforme o projeto foi se expandindo, as coisas foram mudando. A matriarca passou a morar na parte de cima do edifício e o empreendimento de Carlos precisou ser movido para o térreo. Hoje, um ensaio de 3 horas custa R$ 150, mesmo preço cobrado para uma hora de gravação no local. O espaço também oferece o serviço de produção musical, com um orçamento que pode variar a depender do projeto da banda.
Com esse crescimento, o cantor percebeu que precisaria de mais pessoas para ajudar durante os shows, foi quando ele teve a ideia de oferecer oficinas para amigos da região. “Eu precisava de gente para trabalhar, montar uma equipe, então a gente convidou profissionais para darem oficinas. Não tínhamos grana para pagarmos profissionais [com frequência], então treinamos pessoas próximas, assim passamos a ter holding, técnicos e etc”.
Com esse senso de amizade entre quem fazia a arte acontecer no bairro, formou-se um hub de negócios que movimenta a economia e fomenta a cena musical. A Caverna do Som se tornou apenas uma parte do ecossistema que é o Espaço Cultural Dona Neuza, nome escolhido como uma forma de homenagear a mulher que incentivou Carlos com seu empreendimento. Com a chegada do MEI, a burocracia foi facilitada e o projeto atingiu um novo patamar de profissionalismo.
“A gente tem um hub de negócios aqui. A gente produz eventos onde tem a bilheteria, a pessoa que vai vender o churrasquinho, o bar que também movimenta, as bandas que vão tocar e que recebem cachê, o patrocínio que muitas vezes vem de editais públicos. São muitas notas fiscais que funcionam quando a gente sai do ambiente do estúdio”, disse.
Apesar de agora ter a ajuda de outros profissionais para cuidar da parte financeira, no início, Carlos podia contar apenas com suas experiências empíricas. Uma filosofia que o ajudou a gerenciar seu rendimento é a de “sempre fazer uma reserva”. Para o empresário, guardar uma parte de seu dinheiro é o que o permite dormir todos os dias em paz.
“A cada R$ 100 que eu ganho, eu guardo R$ 20 para o Irmão Carlos do futuro. Uma parte disso, eu guardo para uma emergência do estúdio ou pessoal. Essa reserva é uma coisa que eu aprendi a fazer e dá um lastro de paz. Não tenho dinheiro em banco, mas se quebrar um equipamento eu tenho dinheiro para consertar ou comprar um novo”, detalhou.
Em média, a Caverna do Som movimenta R$ 80 mil por ano, o que possibilitou o investimento em equipamentos melhores, um cuidado maior com a acústica e um cuidado maior com a estética. Mesmo tendo surgido de uma necessidade, o estúdio se consolidou como uma ferramenta de formação profissional, além de um exemplo de como a música e o empreendedorismo podem unir forças. Para Carlos, o projeto também serve como um porto seguro, sendo responsável por “pagar as contas” enquanto ele investe em sua carreira musical.
“O estúdio é quem ‘paga o boleto’ desde sempre. Desde que eu comecei a alugar por R$ 5 a hora que o ele manteve a carreira do artista, sempre me manteve na música. O estúdio sempre foi uma certeza, certeza para mim, porque muitos fecharam ao longo desses 28 anos”, completou o cantor.
O estúdio paga o boleto, o artista paga a satisfação
Carlos Psicofunk

Se antes o investimento em produção musical e a criação de um estúdio eram vistas como formas mais “garantidas” de se viver com a arte, hoje em dia não se pode dizer o mesmo. Com a popularização dos computadores e a ascensão de ferramentas como a inteligência artificial, a tendência da vez é produzir músicas em casa. Com isso, não apenas o dono do estúdio sofre, mas toda uma cadeia de profissionais que vivem da música.
“Esse movimento musical independente vem muito das bandas, que movimentam o estúdio de ensaio, a loja de instrumento musical e todo um cenário. Agora está reduzindo, a turma mais jovem vem direcionada para o trap, funk, que é uma outra linguagem, você elimina uma boa fatia dos profissionais no mercado recebendo”, explicou Carlos.
Uma aliada para quem começa
Em meio às batalhas diárias para transformar a música em um negócio sustentável, a falta de auxílio de pessoas especializadas se impõe como um dos principais obstáculos enfrentados pelos artistas de Salvador. Felizmente, essa guerra não está perdida, e de vez em quando surge uma mão amiga que se solidariza com a causa artística. A advogada especializada em direitos autorais Jaqueline Sangalo é uma dessas aliadas na guerra contra a burocracia.
Formada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), a baiana começou a se interessar pela área por conta de familiares que trabalhavam no ramo musical. Talvez seja por conta disso que ela se posiciona tão ativamente para defender os direitos de quem ganha a vida com arte. Como uma mãe que cuida de seus filhos, Jaqueline usa seus mais de 30 anos de experiência na área para ajudar, especialmente, quem está começando sua jornada artística.
Mesmo que pareça algo básico, o registro de marca ainda é algo que a maioria dos iniciantes não consegue ou se esquece de providenciar. Talvez, um dos motivos para isso seja a falta de um capital inicial. “Comece no registro da marca para você se profissionalizar. Alguns órgãos dão esse apoio, o próprio artista pode fazer, junto ao INPI, como pessoa física, que ele ganha um desconto. Mas, é um custo para o artista que está no zero. Mais de 80% dos que me consultam não tem marca registrada, o que é uma tristeza”, revelou a advogada.
O preço da consultoria de Jaqueline pode variar de caso para caso. Ao longo de sua experiência, a falta de amparo financeiro se apresentou como um dos principais impeditivos para os artistas formalizarem seus negócios. Mesmo com a chegada do MEI, a profissionalização ainda está longe de ser uma certeza para todos.
“O MEI tem custos contábeis, então para o super pequeno até o MEI vai dar trabalho, porque ele vai precisar de um contador. Tem gente que nem MEI pode ter, mas na hora que puder, quando já tiver alguma perspectiva de agenda de shows, precisa ter MEI, porque é o melhor caminho, a tributação é menor, você pode fazer um currículo para fazer projetos culturais”, detalhou.
Uma forma de contornar esse impasse seria o desenvolvimento de editais públicos destinados a quem ainda não tem condições de pagar esses recursos básicos. Surgindo um novo cantor, a roda da economia cultural gira, dando espaço para que um contratante, um vendedor de instrumentos musicais ou até mesmo um técnico de som também consigam desenvolver seus próprios negócios.
“O que mais me preocupa é quando os artistas super pequenos fazem algum sucesso, são içados para um único sucesso, e depois são largados, porque aí eles não tem como se manter e seguir nas carreiras. Quais são os mecanismos para os super pequenos terem dinheiro para produzir, ter um som decente e poder gravar um single? Não tem dinheiro para pagar um estúdio”, completou a advogada.
Por fim, nas palavras de Jaqueline, “o artista independente revela a verdadeira cultura de um estado”. Com garra, perseverança e um propósito bem definido, essas histórias mostram que empreender já é uma realidade para quem sonha em trabalhar com música. Indo dos fundos de um restaurante até um estúdio profissional, a arte sempre encontra um meio de florescer e sobreviver.
