Café nosso de cada dia dá energia e sustento para a galera da correria

Trabalhadores vendem a famosa bebida para sustentar suas famílias e clientes degustam antes da jornada diária

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Dia Mundial do Café - 14/04/2026, 06:00 - Dara Medeiros

O aroma forte e marcante do café toma conta dos principais terminais de transporte de Salvador logo no início da manhã. Seja para ter ânimo para encarar mais um dia de trabalho, ficar acordado durante uma aula ou renovar as forças para resolver compromissos, as pessoas encontram na bebida fumegante o conforto que precisam e fazem dela uma das partes essenciais da rotina. E isso não seria possível, nas ruas da capital, sem os vendedores ambulantes de cafezinho.

Nesta terça-feira, 14 de abril, data em que se comemora o Dia Mundial do Café, o MASSA! ouviu trabalhadores que ganham a vida dessa maneira, no Terminal de Ônibus da Estação Pirajá. Eles carregam nas mãos não apenas garrafas térmicas, mas o sustento das próprias famílias e um dos produtos alimentícios mais queridos do país.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o consumo da bebida entre os meses de novembro de 2024 e outubro de 2025 foi de 21,4 milhões de sacas de 60 kg, comprovando a paixão nacional pelo grão. Se depender da vontade de Francisco Moraes dos Santos, este número só aumentará.

Francisco Moraes dos Santos, de 62 anos, é vendedor de cafezinho há mais de 30 anos
Francisco Moraes dos Santos, de 62 anos, é vendedor de cafezinho há mais de 30 anos | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

Natural da cidade de Amargosa, cidade localizada na região do Vale do Jiquiriçá, Francisco Moraes vende cafezinho há mais de 30 anos, o que equivale a quase metade da sua existência, já que ele tem 62 anos de vida. Atualmente, ele mora no bairro do Calabetão e chega à Estação Pirajá ainda na madrugada para começar as vendas.

O café chegou à vida de Francisco como um socorro em um momento de aflição. Ele era pedreiro, mas se acidentou e não conseguia mais exercer a profissão. Pai de dois jovens, Lucas e Giovanni, e viúvo, o trabalhador fez o que podia para não deixar faltar nada em casa – e assim segue firme até hoje.

Francisco era pedreiro e começou a vender café após sofrer um acidente de trabalho
Francisco era pedreiro e começou a vender café após sofrer um acidente de trabalho | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

Ocafé ajuda muito, porque não tem outra coisa pra fazer e eu não vou ficar em casa dormindo, esperando cair do céu. Às vezes dá para completar a renda, às vezes não, porque aqui é um biscate, mas vou conseguindo com Deus”, declara.

Com copos a R$ 2 e R$ 1,50, o padrão entre ambulantes, o trabalhador informal relata que a opção preferida dos clientes é o café com leite adoçado. Nem sempre o cenário é favorável, especialmente nos períodos mais quentes na capital baiana, mas ele não desiste e volta no dia seguinte com uma nova leva de café para tentar lucrar.

Na Estação Pirajá, cafezinho é vendido a R$ 1,50 e R$ 2
Na Estação Pirajá, cafezinho é vendido a R$ 1,50 e R$ 2 | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

“Eu começo às 4h da manhã e vou embora às 8h ou 9h, porque não tem mais movimento, é mais no horário do trabalho. Faço 14 garrafas, mas tem vezes que eu vendo oito, vendo seis, e tenho que jogar o resto fora, porque café de um dia para o outro não presta”, conta.

Legado que atravessa gerações

Alan Costa Ferreira, de 45 anos, carrega no sangue a tradição do café. Morador de Nova Brasília, ele começou a vender a bebida ainda criança, aos sete anos, quando o pai o colocou para ajudar no ofício. Desde então, nunca mais parou e carrega com muito orgulho o legado deixado pelo patriarca da família.

Imagem ilustrativa da imagem Café nosso de cada dia dá energia e sustento para a galera da correria
Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

Quando era mais novo, ele nunca escondeu as origens na hora da paquera e encontrou um grande amor, a Ana Cláudia. Ela não só admirou a força de vontade de Alan como também já colocou a mão na massa para trabalharem juntos. Foi com muita luta e suor que Ana Clara, filha do casal, foi criada.

“Quando eu não tinha filha e nem nada, ela vinha, não tinha vergonha de mim, a gente saía com a guia e estou com ela até hoje, vai fazer 24 anos! O pouco com Deus é muito. Eu criei essa menina vendendo café, é um orgulho”, diz ele, emocionado.

Com o seu carrinho de café personalizado em homenagem ao BRT de Salvador, o ambulante já é marca registrada entre passageiros que passam pelo terminal rodoviário, diariamente. Alan Costa faz questão de se arrumar com roupas formais, pois acredita que a aparência traz bons impactos para o trabalho.

Alan usa roupas formais para trabalhar e defende a boa imagem do seu negócio
Alan usa roupas formais para trabalhar e defende a boa imagem do seu negócio | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

“É aquele ditado: a imagem do seu negócio é você. Não é porque você vende café que você vai ser de qualquer jeito. Não tenho nada contra gente que gosta de trabalhar assim, mas eu gosto de trabalhar padronizado. Você tem que ser diferenciado no que faz, tem que se destacar”, opina ele.

O vendedor de café ainda falou sobre a razão do sucesso com as pessoas: “O segredo é você fazer com amor e todo mundo gosta. Você tem que fazer uma coisa como se fosse para você fazer o uso, que aí você não vai fazer ruim. Se você fizer só para vender, não tem aquele amor, aquela pegada”.

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Quem concorda com essa declaração é Erick Santos, de 30 anos. Ele é de Canabrava, mas trabalha na Cidade Alta e passa todos os dias para tomar café no carrinho de Alan.

Erick Santos ama a combinação café e cigarro
Erick Santos ama a combinação café e cigarro | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

“Todo dia é certa uma parada aqui, ele já tá sabendo já. Todo dia tem que parar aqui pra tomar um cafezinho. Geralmente é costume da gente baiano, brasileiro, e quando o café é bom, a gente toma um café com mais gosto ainda”, fala.

Erick é do tipo de pessoa que aprova a combinação café e cigarro. Ele tem sempre uma unidade para acompanhar o momento quase terapêutico antes de iniciar o serviço: “O café e o cigarro é como se fossem uma companhia um com o outro”.

Outra combinação perfeita

Dona Maria da Anunciação, de 70 anos, vende café, bolo e salgados
Dona Maria da Anunciação, de 70 anos, vende café, bolo e salgados | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

Maria da Anunciação, 70 anos, vende café há 10. Inicialmente, ela vendia sequilho, até que notou que a presença do café faria mais pessoas se interessarem pelo produto, afinal, a combinação do cafezinho com os biscoitos é querida por muita gente.

Agora ela também implementou a venda de salgados e bolos tradicionais. Com um jeito tímido e gentil, dona Maria conseguiu trazer um ar de casa de avó para o meio da agitação da Estação Pirajá.

“Eu mudei para o café, porque o café vende um pouquinho mais, as pessoas compram muito mais. Então vendo o salgado e é o complemento, ele ajuda a vender. Eu chego aqui cedinho, às 4h”, explica.

Vendedora ambulante deu um toque de "casa de vó" no meio da Estação Pirajá
Vendedora ambulante deu um toque de "casa de vó" no meio da Estação Pirajá | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

Café também é combustível para longas viagens

Na movimentada Nova Rodoviária de Salvador, o café é muito mais que uma bebida. Para quem enfrenta longas horas na estrada ou se prepara para viajar, o cafezinho é como um combustível.

Entre malas e filas, Iane Silva Dourado, de 40 anos, toma o “menorzinho” ao lado da mãe, Aldacy Silva Dourado, 70. Elas são do município de Catu e vieram para Salvador devido a uma consulta médica de dona Aldacy.

Dona Aldacy e a filha, Iane Silva, não abrem mão do café
Dona Aldacy e a filha, Iane Silva, não abrem mão do café | Foto: Shirley Stolze/Ag. A TARDE

“Café é o pontapé inicial, né? Para iniciar o dia a gente precisa tomar o café para ele dar energia, para a gente fazer as atividades diárias. Então, todos os dias a gente toma café”, afirma Iane.

Bahia é um grande produtor de café

Além do alto consumo de café pelos baianos, o estado da Bahia também é um grande produtor dos tão preciosos grãos. Na lista de previsão dos estados com destaques do Brasil, que é o maior produtor de café do mundo, para 2026, ele ocupa o 4º lugar, com estimativa de 227,9 mil toneladas, ficando atrás apenas de Minas Gerais, Espírito Santos e São Paulo, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O café também gerou o 4º maior valor da agricultura baiana no ano de 2024, dentre os 64 produtos investigados pelo IBGE no estado: R$ 4,023 bilhões, ou seja, 8,5% do valor agrícola total naquele ano, que foi R$ 47,347 bilhões. Na estado, o valor da cafeicultura ficou abaixo apenas aos gerados pela soja (R$ 14,433 bilhões), cacau (R$ 6,519 bilhões) e algodão herbáceo (R$ 6,443 bilhões).

Veja os principais municípios baianos adeptos da cafeicultura:

➡️Itamaraju - 26,1 mil toneladas

➡️Prado - 22,7 mil toneladas

➡️Barra da Estiva - 15,6 mil toneladas

➡️Porto Seguro -15 mil toneladas

➡️Barra do Choça - 14,9 mil toneladas

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