Há mais de 30 anos, o Bar de Orlando é conhecido como a “Disney dos adultos”, no bairro de Praia Grande, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. O título não se deve apenas às cervejas sempre geladas e às cachaças servidas no balcão, mas, principalmente, ao ambiente que transformou o estabelecimento em ponto de encontro para homens solteiros, “enrolados” e casados, em busca de diversão e aventuras amorosas no sigilo e sem compromisso, ao lado das chamadas “mulheres do job”, conhecidas pelos mais antigos como garotas de programa.
O MASSA! esteve no local depois que a história de uma possível desapropriação e demolição do bar começou a ganhar força nas redes sociais, situação que mobilizou frequentadores e vizinhos do estabelecimento. E foi assim que ficou clara a motivação para que um local despertasse tanta comoção na região da Suburbana.
Como funciona o bar

À primeira vista, o lugar parecia apenas mais um bar, com vista para a praia. Mas, ao observar melhor, a equipe percebeu que, sempre que um homem entrava e se sentava em uma das mesas, um ritual se iniciava: as mulheres, com idade entre 20 e 45 anos, se aproximavam, se apresentavam e perguntavam, com naturalidade, se ele queria companhia.
Em uma das mesas, a equipe conversou com um cliente que tomava uma breja. O rapaz, que aparentava ter mais de 50 anos, contou que frequenta o bar há duas décadas, e fez uma verdadeira viagem no tempo ao relembrar suas experiências no local. “Tenho muitas memórias boas aqui. É uma área de diversão, tem a paisagem também. Vai ser difícil ver isso acabar”, lamentou.
Enquanto o papo rolava, a equipe observava a estrutura do salão, que não fugia muito do padrão dos bares raízes: mesas e cadeiras de plástico, com a tinta já desgastada, espalhadas pelo ambiente. O que destoava mesmo era a presença de uma máquina em estilo jukebox, que tocava samba, pagode baiano e arrocha, além de uma das paredes usada como tela para pinturas de bom gosto.

Os desenhos retratam a vida de pescadores em alto-mar, barcos cortando a Baía de Todos-os-Santos, imagens do Farol da Barra, do Elevador Lacerda, de casarões do Pelourinho e de mulheres segurando jarros de flores. Em outra parede, um papel ofício informava o valor do programa: R$ 70. O informe também orientava os interessados a tirarem qualquer dúvida diretamente no balcão.

Outro detalhe que não passou despercebido foi a presença da fé em um dos ambientes do estabelecimento: um pequeno altar com uma imagem de Exu, ligado à fertilidade e à sexualidade masculina; e de Pombagira Sete Saias, conhecida como guardiã do amor, da paixão e dos relacionamentos. Os adereços completavam o cenário e revelavam mais um traço da identidade do Bar de Orlando.
Terapia do “job” e o “abatedouro”

Minutos depois, uma das “mulheres do job” que trabalhava no local, que não será identificada, explicou por que, na visão dela, o bar era tão apreciado pelos homens. “Muita gente não vem só para namorar. Vem para conversar, desabafar, fazer uma terapia. A gente trata todo mundo bem. Por isso o bar vai fazer tanta falta”, disse.

Além do bate-papo, ela apresentou as dependências do estabelecimento, que se dividiam em três partes e abrigavam tanto o salão quanto os chamados “abatedouros”. Ela guiou a equipe até um dos quartos, depois de subirmos por uma escada estreita. No andar de cima, o quarto era simples, com uma cama, um ventilador preso à parede, um banheiro e uma janela com vista para o mar, palco dos encontros que deram fama do Bar de Orlando como “Brega de Orlando”.

Do lado de fora, a fachada do prédio, coberta por pastilhas azuis e laranjas, atraía olhares de quem passava e ativava a memória de quem frequentava o bar. “Casa de entretenimento assim vai fazer falta para a galera do Subúrbio, principalmente para os solteiros, né? Eu já dei uns rolês por aqui”, afirmou um rapaz à reportagem.
Próximo destino do “Brega de Orlando”

E Orlando, afinal, onde entra contando a sua versão dessa história? Nossa equipe conseguiu acesso ao seu número de telefone e descobriu que ele não é uma lenda urbana. Chegamos a marcar três entrevistas presenciais com o empresário, mas, em todas, ele deu “bola de fumaça”, ou seja, não apareceu.
Contudo, no quarto contato telefônico, Orlando resolveu abrir o jogo: confirmou a desapropriação e revelou que pretende transferir o bar para outro endereço. Este será o tem da nossa próxima matéria, que será publicada ainda neste sábado (17). Não deixe de ler!