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Busca sem fim - 24/04/2023, 09:30 - Eduardo Tito e Redação - Atualizado em 24/04/2023, 11:25

Após 22 anos, a família de Lucas Terra enfim, terá paz?

Júri popular acontece nesta terça

Marion espera justiça após morte do filho
Marion espera justiça após morte do filho |  Foto: Arquivo Pessoal

"A sensação que eu tenho é de que os culpados nesses 22 anos foram a nossa família", desabafa Marion Terra, uma mãe que luta há mais de duas décadas para que a justiça, enfim, resolva o brutal assassinato do seu filho. Ela é mãe do adolescente Lucas Terra que foi estuprado, assassinado e teve o corpo carbonizado no dia 21 de março de 2001, no Templo da Igreja Universal do Reino de Deus, na capital baiana.

Os pastores Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda são acusados pelo crime que chocou o Brasil, na época. O corpo de Lucas, que tinha 14 anos, foi localizado em um terreno baldio na Avenida Vasco da Gama. Segundo José Carlos Terra, pai do adolescente, o filho teria visto os pastores Joel e Fernando mantendo relações sexuais e com isso, assassinado, para evitar um escândalo.

Às vésperas do júri popular que vai julgar Fernando e Joel, nesta terça-feira, 25, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, Marion e o irmão mais velho de Lucas, Carlos Terra, conversaram com exclusividade com o Portal A TARDE sobre o drama da família que espera há 22 anos para que a justiça seja feita contra os acusados do crime. A expectativa, segundo eles, é que a dupla receba pena máxima.

"A minha expectativa, depois de 22 anos, é de pena máxima. Que a sociedade baiana julgue e condene, que seja uma pena realmente exemplar, para que outras famílias não venham passar pelo que eu passei. Durante 22 anos é como se a justiça tivesse sido invertida. Na realidade, quem foi punido nesses anos todos foram eu, meu esposo que faleceu, e a nossa família, que aguardou por tantos anos. O que eu quero de fato é que eles sejam julgados, condenados, que sejam a pena dura por tantos anos de espera e que isso encerra esse ciclo de impunidade" desabafa Marion.

Com emoção, ela lamenta a perda daquele que foi sua maior força nesta luta pela condenação. Em 2019, seu marido José Carlos Terra, pai de Lucas, faleceu após complicações causadas por um quadro de insuficiência renal. Após a morte do filho, ele estudou e se formou em Direito e levou os últimos 18 anos da sua vida buscando por justiça para a família. Morto sem antes ver o caso de Lucas finalizado, Marion disse que o companheiro estava fragilizado depois de tanto tempo clamando contra a impunidade.

"Para mim, foi muito difícil depois da morte do Carlos, eu me senti bastante, bastante enfraquecida, então, muitas vezes eu achava que não ia conseguir chegar até o julgamento porque a gente vê a facilidade que tem de manobras protelatórias, de formas para impedir que o processo saia do lugar. Foi assim, como se ele tivesse jogado a toalha. Ele chegou a dizer para mim: ‘Marion, eu não aguento mais, eu não vou ver esse júri. Eu não aguento, não tenho mais forças para lutar’”.

“Ele disse ‘olha, eu peço até que Deus tenha misericórdia, porque eu simplesmente não consigo seguir em frente mais’. E logo depois ele [José] vem a falecer, isso aí em fevereiro de 2019, que ele veio a falecer. Então pra mim, assim, ficar sozinha depois da morte dele ter que arrastar o que restou do processo, pra mim isso aí foi muito difícil", diz ela.

José Carlos Terra faleceu em 2019 depois de ter lutado por 18 anos em busca de justiça| Foto: Reprodução I Facebook

Cartas para o STF

A mãe de Lucas revela que antes de José Carlos morrer, ele escreveu uma carta a mão para cada ministro do Supremo, inclusive para Ricardo Lewandowski, depois de ele ter votado contra uma decisão do TJBA que anulou o processo. Na ocasião, a Procuradoria Geral da República tinha pedido à Suprema Corte para anular a decisão da justiça baiana.

Em um trecho da carta, Marion revela o jeito emocionado que o marido escreveu a carta: "Poxa ministro, o senhor conhece o caso? Sabe o que eles fizeram com meu filho?", questionou Carlos Terra a Lewandowski, que optou por anular o processo sem nem levar o caso para o colegiado do STF.

A carta de Carlos foi encaminhada para a ministra Cármen Lúcia, e aos ministros Gilmar Mendes, Edson Fachin e Celso de Mello.

"Depois que ele faleceu em 2019, eu comecei a ligar para o STF. Eu falei com todas as varas onde chegou essa carta dele. Todo mundo que recebeu ficou chocado pela morte dele, então teve assim uma atenção diferente do gabinete da ministra Cármen Lúcia. Eu ligava quase todos os dias, quando eu conseguia. Ela conseguiu levar para votação e aí todos os ministros decidiram, no dia 17 de setembro de 2019, que eles [os acusados] iriam a júri popular. Menos o Lewandowski. Depois disso, veio a pandemia que paralisou de fato o processo e a gente teve toda essa espera", explicou a mãe de Lucas.

"Eu me emociono muito, porque eu sei o que isso é para ele [Carlos]. A sensação que eu tenho é de que os culpados nesses 22 anos foram a nossa família. Porque eles [os pastores] viveram 22 anos livremente como se não tivessem cometido crime nenhum. Na realidade, eles foram blindados de uma forma que a nossa família ficou à deriva. Como se a gente fosse os culpados pela morte do nosso filho. Eu acredito que agora a justiça vai fazer o papel dela, porque nós chegamos no final dessa caminhada e eu espero isso da justiça. Eu espero que seja um julgamento aberto, que seja um julgamento que a gente possa ter uma resposta da sociedade também”.

Vê-los condenados é, pra mim, a coisa mais importante do mundo. Que haja uma sentença dura que eles realmente sejam punidos, que não fique como no caso do [Silvio Roberto] Galiza, que foi condenado e os recursos foram diminuindo. Que seja uma pena que realmente eles fiquem presos um bom tempo para que não corra risco para vocês, famílias. Porque eles são criminosos, eles são pedófilos", declarou Marion Terra.

Levando além do mesmo nome do pai, o compromisso de lutar pelo descanso da família, o irmão mais velho de Lucas, Carlos Terra, questionou a decisão do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), em restringir o julgamento no dia 25 apenas para pessoas cadastradas e proibir também a gravação de imagens.

"Não existe no código de processo penal, não existe essa proibição de tudo, até pelo próprio princípio da transparência do serviço público. Existem julgamentos recentes de repercussão nacional que você sabe, a gente acompanha e são até transmitidos ao vivo. E surpreendeu a gente essa posição do Tribunal de Justiça aqui da Bahia de proibir a gente fazer imagem, que a gente transmita e faça com que chegue ao máximo de pessoas possíveis. Até porque o interesse, é como nosso advogado fala, mesmo que a família desistisse do processo, é ação penal incondicionada, é de interesse público. O Ministério Público, ele não pode parar o processo, não pode deixar de processar porque tem que dar uma resposta à sociedade", afirmou Carlos Terra.

Relembre o caso

Aos 14 anos de idade, o adolescente Lucas Terra foi torturado, estuprado e mantido em cárcere privado em um templo da Igreja Universal do Reino de Deus, localizado no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, antes de ser queimado vivo, em março de 2001. Os acusados são os pastores Joel Miranda, Fernando Aparecido da Silva e Silvio Roberto Galiza. O pai da vítima, José Carlos Terra, apontou como motivo para o assassinato do filho o fato dele ter flagrado os pastores Joel e Fernando fazendo sexo, com base no testemunho de Silvio Galiza.

Galiza foi condenado a 18 anos de prisão, pena que foi reduzida para 15 anos. Fernando e Joel ainda aguardam julgamento popular em liberdade 22 anos após o crime ter acontecido. Mesmo sendo acusados de um crime tão bárbaro, a Igreja Universal promoveu os dois ao posto de bispos.

Em fevereiro de 2019, José Carlos Terra, pai de Lucas, veio a falecer por complicações de saúde. No dia 17 de setembro de 2019, 18 anos após o crime, o STF determinou que os dois pastores, Joel e Fernando, fossem levados a júri popular, marcado para esta terça-feira, 25.

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