Viver Bem

Qui, 31/01/2019 | Atualizado em: 31/01/2019 às 05h08


Viver Bem

Quando dói mais que o normal

Tânia Araújo
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Coração apertado, angustiado e sem paz. É assim que Maria Helena de, 39 anos, define o que sente. Há mais de um ano, ela perdeu seu pai para o câncer. Eram melhores amigos. Cuidou dele até o fim. Hoje, ela se considera presa no tempo.

"Mesmo entendendo a gravidade da situação, eu não me preparei para a sua partida, a ficha ainda não caiu. Parece que a porta vai abrir e ele irá voltar, ainda moro na mesma casa", conta Maria.

Segundo a psicanalista Andrea Hollnagel, o luto é algo natural, mas não pode deixar o indivíduo impossibilitado de seguir com a vida. "O luto pode durar mais se questões constitutivas dessa pessoa agravarem essa relação com a perda. Podem ser questões incidentais ou mais profundas, quando um tratamento psíquico se faz necessário, quando a questão se agrava ao ponto de dificultar o seguimento da vida", avalia Andrea Hollnagel.

Para Jussara Andrade, 57 anos, a saudade do filho é o que faz o coração pesar. Há três anos, Miguel foi fazer um intercâmbio na Austrália e decidiu que não voltaria. Conseguiu o visto e trabalha no mercado municipal da cidade onde mora. Mesmo conversando por videochamada sempre que dá, sem que o fuso interfira, ela sente um pedaço importante dela faltando. "Eu trabalho muito aqui, fiz de tudo para dar essa oportunidade que não tive, mas, agora, mesmo com ele ganhando até bem, não tenho coragem de fazer a viagem para visitá-lo e ele não tem como vir", lamenta Jussara.

Para a psicanalista, é sofrido o fato de ser uma saudade de alguém que está distante somente fisicamente : "A saudade da pessoa que viajou tem um agravante, que é a presença virtual. Porém, o redirecionamento dos interesses e afeto para o próprio cotidiano deve também mudar essa saudade".

Como ontem (30) foi comemorado o Dia da Saudade no Brasil, a psicanalista avalia que esse sentimento faz parte dos processos de luto, de perda, mesmo que por distância, morte de alguém próximo ou o fim de um relacionamento.

Durante esse período, o ideal é que a família e os amigos estejam próximos e possam reconhecer se o luto evoluir para algum estado melancólico muito longo. "Toda saudade com um nível de dor que não permite a pessoa voltar a viver o cotidiano com expectativas, alegrias, realizações, está recebendo influência negativa de algum aspecto da vida psíquica e deve ser tratado", recomenda Andrea Hollnagel.