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Qua, 05/12/2018 às 08h20


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Sem meias palavras

Lucas Cunha
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"Quando cheguei aqui, achei que todo mundo tinha lança apontada para mim", disse o técnico do Bahia, Enderson Moreira - Felipe Oliveira / Divulgação / EC Bahia
"Quando cheguei aqui, achei que todo mundo tinha lança apontada para mim", disse o técnico do Bahia, Enderson Moreira
Felipe Oliveira / Divulgação / EC Bahia

O tempo é um fator importante na carreira do técnico Enderson Moreira, de 47 anos. Foi só depois de mais de 20 anos trabalhando em divisões de base que ele conseguiu sua primeira chance como treinador de uma equipe profissional, em 2008, no Ipatinga. Somente três anos depois, em 2011, que veio a nova chance de comandar um time profissional, no Fluminense. De lá para cá, seu currículo é de equipes tradicionais do futebol brasileiro: Goiás, Grêmio, Santos, Atlético-PR, Fluminense, América-MG, e, agora, o Bahia, que assumiu em junho deste ano. Quando chegou ao Esquadrão, viveu grande momento de desconfiança, como o próprio confidencia em entrevista cedida ao jornal A TARDE. O treinador, que assinou contrato com o Esquadrão até o final de 2019, conversou ainda sobre sua ideia para o time na próxima temporada, a saída de atletas importantes, a chegada de Ramires ao time profissional, entre outros temas.

Você teve a primeira chance como técnico profissional depois de 20 anos na base. Achou que não daria esse salto?

R - Não tinha objetivo de trabalhar no profissional. Fiz minha vida com o pensamento de trabalhar em equipes sub-20. Fui meio que empurrado para isso. Provavelmente se eu não tivesse saído do Cruzeiro naquela época [em 2008, foi demitido da base do Cruzeiro por Newton Mota, à época coordenador da base do time mineiro], após uma temporada muito vencedora, estaria trabalhando lá até hoje. Fui chamado pelo profissional do Ipatinga, daí em diante comecei a ter um contato com o profissional.

Ter acontecido uma transição longa da base pro profissional foi algo bom na carreira?

R - Foi bom por não ter criado expectativa. Vejo muita gente que trabalha na base querendo chegar no profissional. Não que esteja errado. Meu caminho era ficar na base, desenvolver atletas. Tenho um cunho formador, não perco isso nunca: trabalhar com atletas jovens, em formação.

O próprio presidente Bellintani disse que ficou surpreso com a escalação de Ramires naquele jogo contra o Sport. O que você pode falar do seu primeiro contato com ele?

R - Ramires já tinha treinado com a gente e cheguei a ver um jogo dele no sub-23. Nos treinos, ele sempre tinha decisões muito assertivas, tomava sempre a decisão correta, mesmo que errasse o lance. Isso me chamava atenção. Quando você está trabalhando no futebol há 25 anos, você tem um olho um pouco mais treinado. Até tinhamos outras alternativas naquele jogo, mas coloquei na minha cabeça. Ninguém cravou que ele poderia dar conta, mas pensei: acho que vai. É um pouco do feeling que o treinador tem: às vezes acerta, às vezes erra.

Quando você percebeu que havia conquistado a confiança dos jogadores do Bahia?

R - Quando cheguei aqui, foi um momento muito difícil. A gente chega muito entusiasmado, muita vontade de trabalhar. Sentia que era um grupo que estava muito carregado, por atuações que talvez não eram como eles imaginavam. Estava também na zona de rebaixamento. Passamos por aquele processo da perda da Copa do Nordeste, algo muito traumático para todos. Tivemos um jogo da Copa do Brasil contra o Vasco, que foi terrível, apesar da classificação. Então, teve o jogo contra a Chapecoense. Fomos do Rio para lá. Acho que numa conversa, nesse dia, eles esperavam que fosse chamar muito a atenção deles. E eu fiz o contrário. Falei que vim para cá para poder ajudar. Depois da boa atuação contra a Chape, eles começaram a acreditar que esse era o caminho.

Como está sendo a sua participação na formação do elenco para o ano que vem?

R - Existe a visão da direção de jogadores que eles não têm interesse de renovar, embora eu ache que seria interessante que eles ficassem. Mas eles estão há mais tempo aqui e têm uma noção do termômetro desses atletas na temporada. Dei minha opinião sobre o grupo todo. Quem vai ficar ou não, depende mais do termômetro deles. Ao mesmo tempo, a gente começa a desenhar um grupo pro ano que vem.

O que o time perde com a saída de um atleta como Zé Rafael?

R - O Zé Rafael é um jogador com muito destaque. Esse reconhecimento é merecido. Fico feliz por ele. Zé era um jogador muito importante, mas vamos agora criar outros caminhos. O futebol tem vários caminhos, não pode ser só um.

Sua relação com a imprensa aqui na Bahia começou de uma forma difícil nas coletivas, depois parece ter melhorado. Como avalia essa situação hoje?

R - Aqui, a única coisa que não consegui admitir, naquele começo, eram que algumas coisas eram distorcidas. Teve gente que fez perguntas com dados infundados. A gente tinha finalizado três vezes mais do que o adversário, e ele falava: 'o Bahia finalizou muito menos'. Não dá, não posso ser cego de não ver o que está acontecendo. Preciso ser respeitado como um profissional que vive disso. Acima de tudo no começo. Quando cheguei aqui, achei que todo mundo tinha lança apontada para mim.

Mas isso não era devido ao momento ruim do time?

R - Também. Mas eu não tinha culpa de nada. Fui contratado para fazer meu trabalho. Não podia fazer meu trabalho com quase nenhum dia de treinamento, jogos em sequência. A gente precisa de tempo para ir colocando as ideias.