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Qua, 29/11/2017 | Atualizado em: 29/11/2017 às 05h01

Só restam saudade e problemas

Aurélio Lima
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"Existe toda a repercussão da mídia em cima da data, do período de um ano, mas, para a gente que está vivenciando o luto, o tempo é relativo. Se eu pensar na tragédia, parece que foi ontem. Se eu fechar o olho, o filme passa em minha cabeça. Se for falar da saudade, do vazio, tenho uma eternidade".

As palavras da enfermeira baiana Bárbara Calazans Monteiro, viúva do atacante Ananias, revelado pelo Bahia e que estava no voo da Chapecoense que matou 71 pessoas no dia 29 de novembro de 2017, traduzem o sentimento de perda para ela e o filho Enzo, hoje com seis anos. O garoto joga futsal e pratica natação.

Nas redes sociais, Bárbara integra o grupo 'unidas pelo amor', formado em sua maioria por viúvas dos jogadores da Chape. Elas procuram exaltar os laços afetivos que as ligaram aos maridos em vez de apenas a dor provocada pela tragédia.

A empresária baiana Fernanda Amorim Abreu, noiva do meia-atacante Arthur Maia – que estava na Chapecoense emprestado pelo Vitória, seu clube de formação – compõe também o grupo, tendo se tornado amiga pessoal de Bárbara. Na residência da enfermeira, elas falaram com a nossa reportagem sobre o quanto suas vidas mudaram com a perda.

"Essa data é todos os dias. Eu fazia aniversário no mesmo dia dele, 13 de outubro. A gente parece ter um milhão de anos que não se vê. É desesperador. Tínhamos quatro anos juntos, nosso casamento seria agora, no dia 22 de dezembro e, para quem vive 24 horas a dor, não há um dia em que não sofra", declarou Fernanda, que pesava 54 kg e atualmente tem 40 kg.

Tanto ela como Bárbara – e seu filho Enzo – fazem terapia. Na tentativa de minimizar a dor, Fernanda valoriza as coisas boas. "Uma torcedora do time que Arthur jogou no Japão tinha uma bola autografada por ele. Depois da tragédia, ela me enviou a bola pelos correios, dizendo que a melhor pessoa para ficar com ela era eu", contou. A bola autografada é guardada como uma relíquia.

A camisa do Bahia, com autógrafo personalizado para a esposa Bárbara, assim como a do Vitória, assinada por Maia para Fernanda, fazem parte da coleção particular de ambas. Assim como posters, quadros e aquilo que, como elas dizem, está eternizado na memória. "Ananias era um pai muito presente. Ele e Enzo pareciam duas crianças. Adorava fotografá-los", contou Bárbara, que está montando um álbum com imagens de Ananias ao lado de Enzo. Até agora já são 540 fotos.

Além de cuidar de si mesma, Bárbara conta que Enzo requer atenção especial para superar a perda. "Psicologicamente falando, o conceito de morte fecha para a criança entre 5 e 7 anos. Então, ele não tem o conceito de morte fechado. perdeu o pai com cinco. Entende uma parte e outra não", explicou. "Ele entende que o pai não volta mais, mas não entende a morte em si. Pergunta se onde o pai está tem celular. Fala que quer morrer para encontrar o pai. Porque se o pai morreu, para encontrar ele quer morrer também".